Um Peruano que Desembarcou na Normandia

George Sanjinez Lenz durante a Segunda Guerra Mundial

Durante os decisivos e marcantes acontecimentos da Batalha da Normandia, não foram poucos os latinos entre os combatentes que desembarcaram nas praias da Normandia. Isso gerou inúmeras histórias, que, com o passar dos anos, foram se perdendo, até se tornarem quase desconhecidas, mesmo entre os estudiosos e entusiastas dos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. A história abaixo é exatamente uma dessas que, apesar de não de todo esquecida, provavelmente ficou restrita ao país na qual se iniciou, embora seja um assunto que mereça ser melhor divulgado entre nós.

No início de 1941, o Peru estava envolvido em uma disputa limítrofe contra seus vizinhos equatorianos e, a exemplo da maioria das nações latino-americanas, ainda era neutra na Segunda Guerra Mundial. As notícias do conflito, entretanto, chegavam por todos os meios de comunicações possíveis. Foi nesse período, mais precisamente no final de janeiro daquele ano, que começou a aventura de George Sanjinez Lenz, um peruano nascido na capital do país, Lima. Sua saga inicia quando um de seus amigos – Carlos Barreto Pérez – veio falar com ele sobre a guerra na Europa, perguntando-lhe se gostaria de se alistar como voluntário das forças belgas exiladas na Inglaterra. George trabalhava como cuidador de cavalos no hipódromo limenho de San Felipe, era órfão e não tinha irmãos, decidiu então ir à Embaixada Belga e se apresentar como voluntário. Após três dias de alistado, ele recebeu permissão do governo local para deixar o país, mas tiveram que antes passar por exames médicos; tais exames seriam enviados depois à Inglaterra e, após trinta dias, viriam os resultados e o OK para o embarque.

Após finalizados todos os tramites, George embarcou em um cargueiro de bandeira chilena, rumo a primeira escala da longa viagem, os Estados Unidos. Junto, iam seis outros voluntários de origem peruana, alem de quatro argentinos e três chilenos. Entre os peruanos do navio encontravam-se dois amigos seus, o já citado Carlos Barreto Pérez e Carlos Oyanguren, o qual perderia a vida em combate.

Simbolo da Brigada Piron
Simbolo da Brigada Piron

Nos EUA, foram de trem de New Orleans para Miami, depois para Nova York, e finalmente seguiram para Montreal, no Canadá. Ali, ficaram em um quartel onde já havia muitos latino-americanos e onde parte dos voluntários belgas fariam o treinamento para a guerra. Após um tempo em Montreal, Jorge e outros companheiros embarcaram no transatlântico Queen Mary, que havia sido requisitado como transporte de tropas pela Royal Navy, a fim de seguirem para Londres. Na Inglaterra, a exemplo da maioria dos voluntários estrangeiros que haviam se alistado no novo exército belga no exílio, Jorge passou a integrar o contingente de 2.200 homens da 1er Brigade d’Infanterie Belge, mais conhecida como Brigada Piron, uma alusão aseu comandante, o coronel Jean-Baptiste Piron. Como ocorreu com todas as tropas selecionadas para a tão esperada invasão da Europa ocupada pelos nazistas, a brigada, que, alem de voluntários de várias partes do mundo, contava com um contingente de Luxemburgo, não foi enviada de imediato ao combate, permanecendo por longo tempo nas ilhas britânicas.

“Em Londres, um dia estávamos andando pela rua, quando soou o alarme de bombardeiro, nós jogamos no chão e nos escondemos debaixo de um banco de praça. Não que fosse proteger alguma coisa, mas foi por extinto.Lembra ele.

George conta ainda que todos se perguntavam quando enfim iriam à guerra. As especulações sobre onde combateriam eram as mais diversas, mas ninguém sabia que iam para a França, até que o dia chegou. Os soldados haviam recebido ordens para arrumar todo seu equipamento, pois sairiam para quatro dias de manobras simulando um desembarque anfíbio; quando estavam no navio, já no Canal da Mancha, porém, foram reunidos e informados pelos comandantes que estavam indo par a Normandia e que aquilo não era um treinamento, nesse momento o pavor deixou os combatentes pálidos e com calafrios, mas enfrentaram a ordem com coragem.

George Sanjinez Lenz no centro da foto.

As primeiras unidades da brigada chegaram à Normandia no dia 30 de julho, isto é, quase um mês depois do Dia-D, mas o grosso da tropa só desembarcaria nas praias de Arromanches e Courseulles à partir de 8 de agosto de 1944. Ao chegar em terra, ou melhor, nas areias de Arromanches, Sanjinez conta que não sentiu medo: “…na guerra não há tempo para medo nem para o erro, ou mata ou morre.”  Mesmo assim, seria um dia muito marcante, pois foi ali que perdeu o primeiro companheiro e também grande amigo.Sanjinez e a Brigada Piron seguiram o avanço aliado até o final de agosto de 1944, quando se encontrava no Sena, sendo em seguida retirada da frente e desviada para libertar a Bélgica, onde entrou em 2 de setembro e a 4 já havia liberado a capital, Bruxelas. A unidade ainda participaria da libertação da Holanda e, após o final do conflito mundial, permaneceu como tropa de ocupação no setor britânico da Alemanha ocupada.

Sr. Sanjinez sendo condecorado.

George Sanjinez Lenz retornou ao Peru somente em 1947 e, apesar da distância e do tempo, nunca deixou de ter contato com seus companheiros de armas. Em 1994, retornou à Europa para as celebrações dos 50 anos da liberação da Bélgica, quando desfilou entre os veteranos belgas. Sua atuação ao lado dos belgas foi reconhecida na ocasião, quando o governo local o nomeou Cavaleiro do Rei Leopoldo III.

 

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