Como Vivem os “Pilotos de Bolso” da FAB.

Hoje iremos começar a postar uma serie de artigos copiados do Livro “O Cruzeiro do Sul”, sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. A cópia dos textos foi autorizada pela Editora Leo Christiano.

Os textos serão postados de forma aleatória, não iremos seguir a ordem cronológica do jornal. Hoje no iremos começar com um artigo da pag. 04 do jornal nº5 de 17/01/1945. Esse artigo fala dos pilotos do 1º ELO (1º Esquadrilha de Ligação e Observação) e fala um pouco do cotidiano dos oficiais.

Como Vivem os “Pilotos de Bolso” da FAB.

Crônica irradiada para o Brasil por Francis Hallowell, correspondente da BBC de Londres, junto a FEB – como contribuição à serie de palestras que a Estação de Londres esta agora transmitindo no seu serviço para o Brasil sob o titulo “Reportagem da Itália”.

Imagem Arquivo Luis Gabriel – http://www.sentandoapua.com.br/

A história dos “teco-tecos” é a história de todos. Hoje, nenhuma frente de guerra seria completa sem os seus “aviões de bolso” , que hora servem como “olho mágico” á artilharia, ora como “pombo correio” para a correspondência de maior urgência, ora como “taxi” para uma viajem rápida a linha de fogo. Noutras frentes já houve casos em que o “teco-teco”, improvisado em ambulância aérea, tem salvo a vida de soldados feridos em pontos inacessíveis aos demais meios de transporte. Em uma crônica recente, apresentada nesta serie de reportagem da Itália, Rubem Braga, correspondente do Diário Carioca, falou sobre os valiosos serviços prestados pelos rapazes da FAB que pilotam nossos “teco-tecos”, de sua base a poucos quilômetros das linhas onde combatem os soldados da FEB. Os nossos expedicionários já conhecem bem esses aviõezinhos amigos, que diariamente sobrevoam as suas posições, desafiando tanto o tempo como o inimigo, em busca das informações de que tanto pode depender o sucesso de uma patrulha dos infantes ou uma barragem dos artilheiros.

Imagem Arquivo Luis Gabriel – http://www.sentandoapua.com.br/

 

 

Hoje quero convidar você, o ouvinte no Brasil, a fazer comigo uma breve visita a base onde vivem e trabalham nossos pilotos de bolso, em uma camaradagem tão tipicamente brasileira, que contagia todos que os visitam. A história de sua base é simples: depois  de encontrarem a indispensável faixa para a decolagem e aterrisagem, foram em busca do alojamento. A casa tinha apenas dois quartos, uma cozinha e um banheiro. O dono da casa – um italiano – cedeu primeiramente um dos quartos. Mas como media só quatro metros por quatro não podia acomodar todos os pilotos e observadores. Acabaram convencendo o italiano que ele podia muito bem dispensar mais um quarto. Depois encontraram um quarto vazio noutra casa vizinha para o italiano, e ficaram então donos de toda casa. A cozinha foi convertida para o quarto para o comandante da esquadrilha, e a comida passou a ser preparada  no porão. Essa mesma cozinha, recém promovida a quarto do comandante e ponto de encontro de todos os oficiais de esquadrilha. A arrumação do quarto daria arrepios em qualquer dona de casa, mas o seu ambiente de camaradagem  – que no final é o que vale muito mais – duvido que alguém consiga bate-lo. Perto da porta um possante radio-vitrola fornece o divertimento para aliviar a monotonia das horas de espera  entre as saídas. Pendurada na parede vemos uma caixinha de papelão com o rotolo “Cartas para o Brasil”, nela três cartas aéreas já esperam o correio. No outro canto a pia, cuja torneira pinga eternamente. Depois, na outra parede esta pendurada uma tabua com as ordens das missões. No terceiro canto o fogão, que hoje serve de mesa para o telefone de campanha, caixas vazias de rações “C”, improvisadas em mesas, e malas de toda espécie enchem o quarto.

Na prateleira em cima da lareira vemos: um cartucho de granada vazia, uma saguina de coser, maçõs de cigarro, um velho “pateque phillip” de fabricação italiana desconhecida, uma garrafa de sais Enos, um carretel de fio branco, uma lata de talco, e pasta de dente.

Imagem Arquivo Luis Gabriel – http://www.sentandoapua.com.br/

 

Ao lado, pendurados em cabides, alguns uniformes de gala de verão da FAB, ali aguardando o eventual regresso de seus donos para o Brasil. Os moradores daquela ex-cosinha italiana, conservam sempre a porta aberta para todos, e os que se reúnem constantemente ali vivem na melhor camaradagem possível. Mas também na hora do trabalho, não há uma deles que ão ponha “mãos a obra” com vontade e vigor – e os pilotos dessa esquadrilha dos “teco-tecos”, a despeite das condições desfavoráveis de voo, e apesar de terem instalado sua base a pouco tempo, já contam com quinze saídas cada um, ou seja, umas trinta horas de voo sobrea as linhas inimigas. “Apareçam de novo…” são as ultimas palavras que ouvimos enquanto a nosso caminhão três quartos, zigzagiando sobre a neve, nos leva de volta ao QG da FEB. E quem recusaria o convite…. em breve, muito em breve, estaremos de volta. Não há como viver na guerra para conhecer a apreciar como é bom o moral da nossa gente.

Livro O Cruzeiro do Sul

 

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