Primeiro Tenente Capelão Juvenal e a Capelania da FEB

Capelão Juvenal Ernesto da Silva

Nome de guerra: Juvenal

Nascimento: 20 de junho de 1907, em São Roque SP.

Filho de: Joaquim Ernesto da Silva e Maria da Silva.

Aos 16 anos mudou se para Santo Amaro SP, onde passou a frequentar a igreja Metodista. Batizou- se nessa Igreja em 1924.

Iniciou seus cursos de Letras e Teologia em 1927, no Instituto Metodista Granbery, em Juiz de Fora, tendo se formado em 1935. Iniciou sua vida de pastor em Valença e Campinas. Casou se com Carmem de Oliveira em 1936, após o que serviu como Capelão do Instituto Porto Alegre RS até ir para Nashvile USA fazer seu Mestrado. Retornou ao Brasil em 1942. Tão logo estourou a II Guerra Mundial ele foi convocado para servir como Capelão, integrando a Força Expedicionária Brasileira.De volta ao Brasil, serviu por muitos anos como Capelão evangélico da FEB. Após o falecimento de sua Carmem, em 1963, ele transferiu-se para São Paulo onde serviu no Segundo Exército, como Capelão. Sua aposentadoria foi como capelão e pastor. Casou-se pela segunda vez em 1979, com Cacilda, em Araçoiaba da Serra.

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Biografia:

Aos 34 anos de idade, o Reverendo Juvenal Ernesto da Silva, da Igreja Metodista, foi convocado, pela FEB, para ser Capelão, do Segunda Escalão, da Força Expedicionária Brasileira, no Regimento Sampaio.

Um pouco antes, ele, formado em Letras e Teologia, pelo Instituto de Granbery, em Juiz de Fora-MG, estava fazendo Mestrado em Nashville, EUA. Na época, no Havaí, a base americana de Pearl Harbor, foi atacada pelos japoneses. Em 1942, Juvenal retorna ao Brasil.

Durante a Campanha da FEB, o Capelão fez o seu papel, dando conforto espiritual aos nossos pracinhas. Também lutou, passou fome e frio. Ficou internado no Hospital com duas costelas quebradas.

Promoveu reuniões de oração e batizou soldados. Inclusive, um que foi batizado em Montese, em baixo de uma Oliveira, com a água valiosa de seu cantil, ao som dos bombardeios: foi um batismo por aspersão.  inclusive, outros também foram batizados entre os escombros de uma casa, arrasada pelas bombas, mas este foi um trabalho árduo, pois ele encontrou os soldados já espalhados pelo front de guerra.

A presença dos Capelães num confronto armado foi muito necessário, pois vários soldados já estavam desesperados da vida. E como levar a palavra “vida” em um terreno de “morte”? Mas assim o fizeram. O dia-a-dia não foi fácil, pois fazia e recebia ordens de Comandantes, Generais, assim como um soldado Artilheiro. Armava acampamento, construía trincheiras e tudo mais.

Juvenal viu coisas de se partir o coração, como me disse a sua esposa, Cacilda Duarte Ernesto da Silva, em uma certa hora, passou uma italiana, já senhora, com uma perna podre de cavalo nos ombros, dizendo que iria levar para fazer sopa para ela e seus familiares. Ela me contou também que antes do desembarque, os soldados ganharam laranjas adocicadas e ele as guardou. Em uma cidade italiana, resolveu degustar a última laranja que guardara. Ele ouviu um barulho vindo de suas costas, ao se virar, viu dois ou três italianos pegando as cascas do chão, passando a mão no estômago dizendo: – Fome! Muita fome!

Juvenal, sem pensar, foi repartindo a laranja entre os italianos. Foram dias de muita miséria e fome ao povo italiano. Depois da libertação nas cidades em que passava, nossos pracinhas eram recebidos com jubilos, flores e abraços. Foram sim, grandes heróis, inesquecíveis.

Essa foi uma pequena história do que todos os soldados e capelães passaram na Itália. Muitas conquistas, como sempre, “lutando a serviço da paz”.

 “É preciso mostrar às novas gerações o horror de uma guerra e procurar, mais do que nunca, o espírito de pacificação. E que as novas gerações procurem conhe­cer os feitos dos nossos pracinhas que participaram da guerra em batalhas memoráveis. Para isto é preciso que os nossos veteranos, a nossa im­prensa, os nossos educadores transmitam esses feitos, mostrando a verdade histórica, sobre os fatos ocorridos. A Nação sobrevive na memória dos seus filhos. Como se diz: ‘Povo sem memória é povo sem história!’” (Capelão Juvenal Ernesto da Silva)

O salmo dos soldados nas trincheiras

Durante a campanha na Itália, o ca­pelão Juvenal recitava com frequência o Salmo 23, o predileto dos “pracinhas” (como eram chamados nossos soldados) quando feridos, muitos já sem esperança de vida.

“O Senhor é o meu Pastor: Nada me faltará.

Ele me faz repousar em pastos verde­jantes.

Leva-me para junto das águas de des­canso; refrigera-me a alma.

Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.

Ainda que eu ande pelo vale da som­bra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam.

Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabe­ça com óleo: o meu cálice transborda”

As funções de um Capelão na guerra

Capelão Juvenal informa que sua função era a de confortar os feridos, os enfermos, visitar, levando palavras de conforto tanto para os que iam para a frente de combate como para aqueles que estavam à espera de serem chamados para a luta. Se preciso, até sepultá-los, no que ele dá graças a Deus por não ter sido preciso. Havia, portanto, um trabalho sem descanso, pessoal, com todos os sol­dados que o procuravam – evangélicos, católicos, ateus. Assim, muitas vezes ele era levado junto com o Comando, acom­panhando as tropas.

O dia-a-dia na guerra

Dependendo das circunstâncias, pas­sava noites inteiras no front. Às vezes, perdia-se a noção do tempo, não se sabia o horário de levantar, nem de deitar. Tudo dependia das batalhas que se de­senrolavam.

Uma experiência curiosa

Conta nosso capelão que certa oca­sião as tropas entraram no jardim de um palácio para um descanso rápido. Na guerra, entra-se em qualquer jardim ou casa. Entraram e estacionaram os tan­ques naquele local. Era um palácio mui­to bonito e. ao entrarem, um mordomo disse que poderiam ficar à vontade, e que estavam no palácio do grande músi­co e tenor Beniamino Gigli. Então o ca­pitão Abreu fez com que todos recuas­sem, porque aquela casa não era a de um simples italiano, pois Beniamino Gigli era um cidadão internacional, conhecido em todo o mundo. E, ao sinal do apito, toda a tropa saiu. O capelão passou a ad­mirar ainda mais o capitão, que sabia respeitar o valor de um dos maiores re­presentantes da arte musical. Ficou, por­tanto, fados dois.

A caixa de bombons

As cartas que chegavam eram poucas, mexidas, desviadas, abertas, perdidas.

Numa ocasião, a mãe de um dos praci-nhas enviou-Lhe uma caixa de bombons. Ela chegou aberta às mãos do capelão. Restavam pouquíssimos bombons. O ca­pelão atravessou um lugar perigosíssimo para entregá-la ao soldado em combate. Foi alertado de que não deveria ir, mas ele insistiu, dizendo que iria levar a caixa de bombons, que era um gesto de grande amor de uma mãe por seu filho. Então um soldado foi com ele, recomendando-lhe para pisar onde ele pisasse, pois cor­ria o risco de passar em uma mina. O in­teressante é que aquele bom soldado ti­nha os pés muito grandes, e o nosso cape­lão, com pés menores, pisava bem dentro de sua pegada. Foi assim que ele, exul­tante, conseguiu entregar a caixa de bom­bons para aquele soldado.

O sentimento de insegurança e medo

“O medo é inerente ao homem, por­que trata-se da sua segurança, da sua so­brevivência”, afirma o capelão Juvenal. O medo de não voltar para os seus entes queridos, para sua pátria, tudo isso gera insegurança e o homem acaba por sobre­por as suas angústias e medos, transfor­mando-os em coragem. Podiam-se ver homens fazendo lances de grande cora­gem, mas isto era impulsionado pelo medo. Faziam-se coisas maravilhosas -todas motivadas pelo medo. Isto, no en­tanto, não tornava o ato menos merece­dor de admiração e respeito.

Como eram feitas as reuniões de oração

As reuniões eram feitas em qualquer lugar e hora, sempre que as batalhas per­mitiam. Às vezes as reuniões contavam com apenas três, quatro ou até um único soldado, porém eram realizadas com todo o fervor e fé num Deus que nunca desampara os que o procuram.

Essa imagem mostra a ficha do soldado Leônidas dos santos de 29 anos de São Sebastião que foi batizado em Montese com a raríssima água do cantil ao som de bombardeios

 

A profissão de fé de um soldado

Foi uma das experiências mais mar­cantes de nosso capelão. Os combates aconteciam em Montese. Um dos solda­dos recebeu ordens expressas para ficar em determinada posição e dali não sair, mesmo que o número de soldados inimigos fosse grande. Ele tinha de matar ou morrer. E ele obedeceu! Felizmente, ne­nhum inimigo apareceu. Depois de re­movido dali. entre lágrimas e soluços, procurou o capelão para se balizar e fa­zer sua profissão de fé. “Já queria fazer isso há algum tempo.” disse o soldado, “mas se eu lhe pedisse isso antes, o se­nhor poderia pensar que eu quisesse fazê-lo apenas por estar em grande peri­go. Agora, fora do front de guerra, conti­nuo a desejar o batismo e a profissão de fé.” Ele frequentava a Igreja Presbiteria­na que ficava em frente ao Palácio da Guerra, no Rio de Janeiro. Tinha apenas 21 anos! O capelão, então, tirando um pouco da água do seu cantil – água muito preciosa para a sua sobrevivência – tor­nou-a ainda mais preciosa pelo batismo. Um pouquinho de água…

Nós, metodistas, batizamos por as­persão. Este fato tão maravilhoso se deu entre os escombros de uma casa arrasada pela guerra.

Muitas outras profissões de fé foram realizadas. Um soldado fez sua profissão de fé embaixo de um pé de Oliveira, úni­co local disponível naquele momento.

Achando um a um

Como foi convocado para o segundo Escalão da Força Expedicionária Brasi­leira, encontrou os soldados já espalha­dos pelo front de guerra. Foi pastorear uma igreja na qual tinha de descobrir os membros, um a um, nas trincheiras. E as­sim o fez. Foi um trabalho árduo, difícil, porque muitos estavam descrentes de tudo e desesperançados da vida.

Sentimento de um Capelão nos cam­pos de batalha

Indagado sobre como se sentia no meio de uma guerra cruenta, sendo ho­mem religioso com a missão de falar da “vida”, o capelão Juvenal afirma: “Sen­tia-me pequenino, moído, esfrangalhado diante de tanta dor e tristeza, tanto como ser humano como homem religioso. Os soldados buscavam conforto espiritual e palavras de esperança, e eu procurava ajudá-los com a graça de Deus. A pre­sença de um religioso num confronto ar-

mado é extremamente necessária, não somente para os que estão sãos e aguar­dam a chamada para a batalha, mas tam­bém para os feridos nas trincheiras ou nos hospitais. Havia casos de pessoas que não criam em Deus e entravam em desespero. Outras gostariam de ter fé em Deus, mas sentiam-se totalmente inibi­das. Era terrível e a gente se sentia extre­mamente triste. Restava orar, orar… Na­queles momentos eu me sentia frustrado, sem poder abrir a mente de tais pessoas. Isso sempre foi muito duro para o nosso capelão.

Fragilidade, apesar da fé

Essa imagem mostra a ficha do soldado Leônidas dos santos de 29 anos de São Sebastião que foi batizado em Montese com a raríssima água do cantil ao som de bombardeios

“Em muitos momentos, senti medo e muita fragilidade como ser humano. Deus conhece a minha fragilidade, po­rém jamais perdi a minha fé. E ainda peço a Deus por um de nossos soldados que, revoltado, não conseguia acreditar nele. Ele costumava dizer que eu só con­seguiria introduzir Deus em sua cabeça se a quebrasse e o pusesse lá à força. É muito apropriado o que nos diz a Bíblia em um de seus trechos: ‘Buscai a Deus enquanto se pode achar; invocai-o en­quanto está perto.’”

 

A volta ao Brasil

De volta ao Brasil, o capelão Juvenal tinha o coração grato a Deus pela oportu­nidade que lhe fora dada para ser útil ao próximo e também pela alegria de rever a família. Também teve o prazer de rever vários soldados e o comandante. Após a guerra, atuou ainda durante muito tempo como capelão em colégios metodistas.

Condecorações

O capelão Juvenal Ernesto da Silva foi alvo de muitas homenagens, receben­do a Medalha do Pacificador, entregue pela Segunda Região Militar em São Paulo, unidade do Ibirapuera, e um pu­nhal de prata da mesma unidade, quando se aposentou.

Também não foi esquecido pelas mulheres metodistas, representadas pe­las Sociedades de Mulheres das Igrejas em São José dos Campos e Cotia, que lhe ofereceram um bonito cartão de prata. E ainda agora, ao comemorar os 50 anos do término da guerra, a Câmara Municipal de Araçoiaba da Serra, onde reside, acaba de lhe conferir o Título de Cidadania daquele município.

Dedicatória:

Dedico esta lembrança de nossos heróis da Força Expedicionária Brasileira ao todos os brasileiros, que preservam a história e lembram-se dos feitos de nossos heróis e em especial a srª Cacilda Duarte Ernesto da Silva.

Esta me ensinou, e me mostrou o caminho, e sua vontade é que a história fosse preservada, agradeço primeira mente a DEUS, e a meus amigo e companheiros pela oportunidade.

 

Atenciosamente: Eduardo Galdino da Silva

Colecionismo2012@hotmail.com

 

 

 

 

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2 thoughts on “Primeiro Tenente Capelão Juvenal e a Capelania da FEB

  1. Obrigado amigo ricardo pelo post, emocionante e perfeito, parabens pelo site, forte abraço.

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  2. Parabéns a cada herói da FEB que escreveram com sangue a história desta que foi a maior guerra de todos os tempos….

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