Relatos da FEB – O Pracinha Escondido no Armário.

A Segunda guerra tem algumas passagens interessantes e algumas engraçadas, muitas dariam ótimos roteiros para filmes, séries e etc.. como é o caso do Relato abaixo que extraímos do livro Heróis Esquecidos de Paulo Vidal. Espero que gostem.

Fonte da imagem: https://combatart.wordpress.com
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Este fato aconteceu logo nos primeiros dias em que a FEB entrara em ação, na região de Pisa. Em setembro de 1944, o destacamento da Força Expedicionária Brasileira se compunha do 6° RI, de um pelotão do Esquadrão de Reconhecimento, de uma companhia do 9° Batalhão de Engenharia, um Destacamento de Transmissões e um Grupo de Artilharia.

Um pequeno destacamento, é verdade, mas que serviu de teste para as tropas do Brasil ante a expectativa dos altos chefes dos Exércitos Aliados.

Seu comandante era o General Zenóbio da Costa. Ele soube comandar com mão firme. Procurou levar ao máximo as tradições do soldado brasileiro. Chegou mesmo a exigir missões mais importantes e à altura do valor da tropa que comandava e que sabia valorosa.

Esse destacamento obteve memoráveis triunfos. Alguns tão expressivos, que o General Mark Clark, finalmente convencido, promoveu o ao “primeiro time”, transferindo a tropa brasileira para um setor de maior responsabilidade. Mas esse destacamento também sofreu revezes. E num deles é que aconteceu um episódio engraçado com um pracinha do 6° Regimento de Infantaria.

A tropa não foi feliz ao tentar alongar a sua linha de combate. Sofreu vários contra-ataques alemães (das tropas SS) e não teve remédio senão “retrair” (termo militar que substitui o popular e irreverente “dar no pé” para as posições anteriores).



Em algumas subunidades, o retraimento foi um tanto precipitado. E o pracinha Segismundo pertencia a uma delas. Na véspera, seu pelotão tinha expulsado os tedescos de suas posições. Segismundo e outros colegas tomaram conta de uma casa abandonada e meio destruída pelos bombardeios.

E ali estavam quando os alemães resolveram retornar à casa. “O pau comeu solto”, disse Segismundo. “Tenho certeza de que nós ganharíamos a ‘parada’ se não faltasse munição”. Eis a explicação para o retraimento: “A confusão foi aumentando e, quando abri os olhos, estava

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sozinho na casa, atirando da janela de um dos quartos. Não gostei daquilo, não. Meus companheiros, mais ‘safos’ que eu, já tinham ‘andado via’ rumo à retaguarda. Num segundo eu cheguei à janela de trás pronto para saltar e fugir para o PC do meu batalhão. Mas aí é que vi como tinha bobeado.

Avistei alemães atirando até de metralhadora atrás da casa e justamente no caminho por onde eu teria que passar. Comecei a suar. A princípio, umas gotinhas à toa. Depois, comecei a suar de verdade, apesar do frio. Suei bem um meio litro, enquanto pensava num jeito de escapar. Olhei para o quarto. Uma cama e um armário vazio.

Nem pensei duas vezes. Meti-me no armário e fiquei segurando a porta por dentro. Foi na hora “H”, pois ouvia perfeitamente os alemães falando uns com os outros e o barulho de armas pesadas que eles deixavam cair no chão, lá na sala de jantar.

Passou o calor. Não suava mais. Em compensação, comecei a sentir um medo danado. Um medo com M bem grande. Sim, senhor, eu acabava de ser apresentado ao sr. Medo. Passei ali horas e horas. Perdi a noção do tempo. Agachado, os meus joelhos pareciam querer estalar de dor. Fiquei naquela posição incômoda rezando e pedindo a Deus que eles não se lembrassem de abrir o armário.

Minha sorte é que estavam ocupados e preocupados com um possível contra-ataque da nossa gente. Pelo menos uns dois vieram até o quarto onde eu estava e, milagrosamente, não se lembraram de abrir o armário. A vida dentro do armário estava insuportável. As articulações da perna doíam horrivelmente. Procurava não fazer o menor ruído. Quando aqueles brutos iam ao quarto, eu parava até de respirar. Sentia que não podia agüentar mais.

Aos pouquinhos e com imenso cuidado fui esticando as pernas, apesar da dor danada que sentia. Mas era preciso, estava disposto até a morrer.

Tinha que sair daquele maldito armário. Quando a noite caiu, a movimentação diminuiu. Ouvia distintamente ‘eles’ no outro quarto, comendo e conversando. Não mais atiravam. Começaram a relaxar a vigilância. Pensei: ‘que adiantava eu ficar aqui no armário? Pela manhã ‘eles’ forçosamente terão que abri-lo, e eu? Que vai ser desse pobre pretinho?’ Tomei uma resolução: esperei mais um pouco e, quando tudo parecia calmo, abri de repente o armário, pulei para fora e despenquei pela janela, que graças a Deus estava aberta.

Logo de saída dei de cara com um ‘gringo’, que levou um baita susto. Garanto que maior que o meu. Ele ficou parado a me olhar espantado enquanto eu passava por ele que nem uma flecha.

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Nem olhei para trás. Esqueci a dor das minhas juntas e corri que nem um campeão em direção à minha gente. A princípio, não aconteceu nada. Depois ouvi alguns gritos em alemão. Naturalmente, ‘eles’ queriam que eu parasse. Pois sim. Continuei a correr. Levei um trambolhão! Levantei como um rato. Ouvi nitidamente o pipocar de uma metralhadora. Depois, mais de uma, as balas zuniam em minha volta. Comecei a correr e a pular de um lado para outro, para enganar ‘eles’. No meio daquilo tudo lembrei-me da história do Saci, que pulava em uma perna só. Mas, felizmente, eu tinha as duas e aos poucos ia escutando cada vez mais longe o tá-tá-tá-tá-tá das metralhadoras.

Agora, as balas passavam longe de mim. O perigo cessara. Mas eu não parei de correr. Quando cheguei perto de umas casinhas e reconheci a minha gente, não parei. Atirei-me no chão, sem um pingo de força, e dormi. Dormi que nem uma preguiça o dia inteirinho.

É por isso, ‘seu’ tenente, que eu tenho uma raiva danada de armários. Nem posso ver um. Quando eu voltar para minha terra, vou dormir em um quarto, mas sem armários.

Fonte: Paulo Vidal – Heróis Esquecidos Edições GRD

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