Um Veterano na Defesa da Costa Catarinense.

Este artigo foi enviado gentilmente pelo amigo e pesquisador Nahor Lopes de Souza Júnior. Ele nos conta a história de seu avô durante a Segunda Guerra Mundial, onde esteve na defesa da costa de Santa Catarina.

Francisco José Montibeller nasceu em 27 de março de 1922, na localidade de Bom Retiro, interior do município de Nova Trento-SC. Provém de uma família numerosa, sendo ele o quinto de 12 irmãos. Desde novos trabalhavam em engenho familiar: levantando depois das 3h e indo dormir assim que  o sol se escondia no fim da tarde. Todos falavam em casa o dialeto trentino, resquício da colonização tirolesa daquela região. Assim que a Segunda Guerra começou, não podiam mais falar nessa língua, e com dificuldades tinham que tratar de conversar em português.

Francisco José Montibeller – Acervo de Nahor Lopes

Em 1944, foi comunicado por carta recebida na casa familiar que deveria se apresentar para o alistamento militar. Depois de se apresentar no centro da cidade de Nova Trento, um novo comunicado chegou para que ele e outros companheiros da cidade fossem servir em Itajaí, no litoral do estado, de onde havia acabado de chegar seu cunhado Benjamin Reiser (marido de sua irmã mais velha Madalena). Em Itajaí funcionada o III 20º Regimento de Infantaria (hoje extinto), subordinado ao 20º Regimento de Infantaria de Curitiba-PR. Esse regimento de Itajaí foi instituído justamente para as operações de defesa do litoral brasileiro, na qual Francisco e outros companheiros fizeram parte. Alguns meses depois, seu irmão mais novo, Angelo Montibeller, foi chamado para o serviço militar, tendo que servir em Lapa-PR.

Acervo Nilton Koche

Durante o tempo de 1 ano e 4 meses que ficou no serviço em Itajaí, Francisco e outros soldados tinham obrigações como: marchas, treinamentos, acampamentos em cidades vizinhas como Ilhota e Brusque (geralmente indo a pé nos trajetos), e o serviço de vigilância do porto e farol da praia de Cabeçudas. Toda cidade portuária ou com berços de atracamento para barcos era ponto de vigilância constante. Havia também mais preocupações: o litoral de Santa Catarina havia sido atacado em 16/07/1943, onde o cargueiro estadunidense SS Richard Caswell foi torpedeado pelo submarino alemão U-513. Três dias depois desse fato, o U-513 foi afundado por cargas de profundidade lançadas pelo PBM Martin Mariner do esquadrão VP-74 dos Estados Unidos.

Desfile em Itajaí na recepção a um General. Acervo de Luis Lichtenberg.

Logo, o litoral de Santa Catarina era constantemente vigiado. Haviam pontos de observação em todo o estado, sendo os mais importantes dos de São Francisco do Sul, Penha, Itajaí, Florianópolis, Imbituba. Francisco conta que ele e seus colegas revezavam-se na vigilância do farol: sempre em duplas, e qualquer navio que se aproximasse era informado ao quartel para verificação junto ao porto se estava sendo esperado.

Sr. Francisco é o quarto em pé da esquerda para a direita- Acervo de Nahor Lopes

As famílias de origem alemã que moravam em Itajaí eram hostilizadas, e muitas das residências destas foram utilizadas pelo Exército para abrigar oficiais e suas famílias, dado que alguns descendentes de alemães acabaram fugindo. Os que ficaram tiveram que se contentar com suas vidas vigiadas. O próprio vigário da cidade, Pe. José Locks, teve que retirar-se do local por conta de suas origens alemãs. Quem era preso suspeito de colaborar com o Eixo era levado para o campo de concentração da Trindade, em Florianópolis, ou para uma prisão especial em Joinville.

Soldados em treinamento – Acervo de Firmino José Franzoi

Apesar de toda essa tensão vivida, o convívio entre os soldados no regimento em Itajaí era cordial. O responsável pelo exército era o então major Emmanuel de Almeida Moraes, que teve uma longa carreira no Exército Brasileiro. Eram várias as companhias ali instaladas, cada uma com um capitão ou tenente dando as instruções. Alguns conhecidos de Francisco que estavam servindo em Itajaí foram chamados para o teatro de operações da Itália, como os neotrentinos Manoel Baraúna e Anselmo Picoli. Francisco e mais outros colegas chegaram a fazer inspeção de saúde em Joinville a fim de se prepararem para o combate na Itália, mas não chegaram a embarcar. Ele conta que soube posteriormente de um fato familiar: sua mãe, apesar de ser católica bem praticante, foi a uma vidente pedir que seus dois filhos que estavam servindo não fossem para a linha de frente da guerra.

Acervo Nilton Koche

Com o fim do conflito, Francisco foi dispensado do serviço militar obrigatório em 29 de agosto de 1945. Três meses depois reencontrou em Nova Trento seu irmão Angelo que voltou de Lapa. Voltou a trabalhar com o engenho de sua família um de seus irmãos mais velhos, Luis, lhe ensinou a arte da marcenaria, sendo a profissão que lhe acompanhou por muitos anos.

Sr. Francisco com o autor do texto Nahor.

Francisco casou duas vezes e sobreviveu até hoje ao falecimento das duas esposas. Teve ao todo 14 filhos: 6 do primeiro casamento e 8 do segundo. A partir de 1990 foi reconhecido como ex-combatente por ter participado da defesa do litoral brasileiro e agraciado com uma pensão. Por coincidência, hoje vive em Itajaí, a mesma cidade que há 70 anos esteve no serviço militar, defendendo a Pátria!

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