A Cineasta do Reich – Leni Riefenstahl

Leni_RiefenstahlHelene Bertha Amalia Riefenstahl nasceu em 22 de agosto de 1902 em Berlim, no então Império Alemão. Em 1907, aos 5 anos de idade, ingressou num clube de natação, o “Nixe”. Em seguida entrou para um clube desportivo e aprendeu também a patinar sobre rodas e patinação no gelo. Em 1918 formou-se no Kollmorgenschen Lyzeum, em Berlim. No mesmo ano passou a tomar aulas de dança na Escola Helene Grimm-Reiter, sem permissão do pai, mas com apoio da mãe, Berta Riefenstahl. Do programa da escola constavam dança expressionista (Ausdruckstanz) e balé. Após a primeira exibição pública vieram desentendimentos com o pai, muito autoritário. O fato de Leni ter ludibriado o pai durante meses levou a uma séria crise na familia. Para não ser enviada a um internato Leni ingressou à Escola de Artes Aplicadas em Berlim, onde por algum tempo fez curso de pintura. Mesmo assim seu pai mandou-a para um pensionato em Thale, na região do Harz. Aqui Leni treinava escondidamente dança, participava de peças de teatro e visitava as apresentações de teatro ao ar livre de Thale. Depois de um ano deixou o pensionato e passou a trabalhar na empresa do pai como secretária, aprendendo datilografia, estenografia e contabilidade. Também recebeu permissão formal de tomar aulas de dança na Escola Grimm-Reiter e também de apresentar-se. Começou a jogar tênis.
De 1921 a 1923 recebeu a formação de bailarina clássica com Eugenie Eduardowa, ex-bailarina de São Petersburgo. Ao mesmo tempo aprendeu dança expressionista na Escola Jutta Klamt. Em 1923 estudou durante alguns meses em Dresden, na Escola Mary Wigman. Sua primeira exibição individual foi em Munique em 23 de outubro de 1923. Até 1924 apresentou-se como dançarina-solo numa turnê por diversas grandes cidades. Infelizmente, uma distorção no joelho encerrou sua carreira de dançarina.
Atriz (1925 a 1931)
305220_originalEm 1925 Leni Riefenstahl atuou no filme “Wege zur Kraft und Schönheit” ( Caminhos para a força e beleza). Fascinada pelo filme “Der Berg des Schicksals” (A montanha do destino) de Dr. Arnold Fanck (1919) viajou para as montanhas e encontro lá o ator principal Luis Trenker, a quem entregou uma carta endereçada ao diretor. Finalmente aconteceu em Berlim o encontro entre Leni e o diretor Dr.Arnold Fanck. Este escreveu para Leni o roteiro de “Der heilige Berg” (A montanha sagrada). As filmagens foram realizadas nas Dolomitas. Agora Leni aprendeu também a esquiar e alpinismo. Entusiasmou-se pelo ofício do cinema e familiarizou-se com as funções da câmera. Em 17 de dezembro de 1926 o filme “Der heilige Berg” estreou no Ufa-Palast am Zoo em Berlim. Antes da estréia Leni dançou uma última vez no palco.
Em 1927 iniciaram-se as filmagens de “Der grosse Sprung” (O grande salto), também sob direção de Fanck. O desempenho esportivo da atriz recebeu destaque nesta película. Foi aqui que conheceu Hans Schneeberger, cinegrafista e ator principal. A estréia de Der grosse Sprung aconteceu em 20 de dezembro de 1927,também no Ufa-Palast am Zoo, em Berlim. Riefenstahl conseguira criar fama como especialista em filmes de montanhas. Pode-se constatar isto em diversos outros filmes: “Das Schicksal derer von Habsburg”, (O destino dos Habsburg), “Die weiße Hölle von Piz Palü” (O inferno branco de Piz Palü), “Stürme über den Montblac“, (Tempestades sobre o Montblanc), “Der weisse Rausch” ( Embriaguez branca ), e “S.O.S. Eisberg” . Mas Leni queria expandir sua carreira para outros gêneros. Em Berlim conheceu os diretores Georg Wilhelm Pabst (Die freudlose Gasse), Abel Gance (Napoleon), Walter Ruttmann (Berlin: Die Sinfonie der Großstadt) e o escritor Erich Maria Remarque (Im Westen nichts Neues). Ao mesmo tempo começou a escrever roteiros e visitou os Jogos Olímpicos de Inverno em St.Moritz em 1928.
Seu primeiro artigo ela escreveu no “Film-Kurier” sobre o filme de Fanck “Das weiße Stadion” ( O estádio branco) A partir de então passou a publicar regularmente relatórios sobre suas atividades cinematográficas. As filmagens para seu filme “Das Schicksal derer von Habsburg” começaram em 1928 em Viena sob direção de Rudolf Raffé.
Cineasta (a partir de 1932)
Dos primeiros trabalhos a Diretoria de Cinema do Reich
Em 1931 Leni Riefenstahl escreveu a primeira versão do manuscrito para seu filme “Das blaue Licht” (A luz azul). O roteiro foi desenvolvido junto com Béla Balázs, um autor de roteiros e teórico de cinematografia da Hungria. Fundou sua primeira empresa, a “Leni Riefenstahl Studio-Film” e assumiu direção, produção e edição de “Das blaue Licht“. Para financiar a película aceitou o papel principal no filme “Der weiße Rausch”. A estréia de “Das blaue Licht” aconteceu em 24 de março de 1932 em Berlim. Na Bienal de Veneza o filme ganhou a medalha de prata. Viajou a Londres com o filme e foi recebida com entusiasmo. Dentro e fora da Alemanha a primeira direção de Leni foi um grande sucesso.
A estréia de Leni Riefenstahl como cineasta de Das blaue Licht transformou-a em diretora de sucesso. Fez amizade com Julius Streicher e de 1932 a 1945 foi Reichsfilmregisseurin (Diretora de Cinema do Reich). Assim também conheceu Joseph Goebbels e sua mulher.
Os trabalhos de filmagem para o filme “SOS Eisberg” sob a direção de Arnold Fanck foram executados em junho de 1932 na Groenlândia e início de 1933 nos Alpes Suiços. Final de maio os trabalhos estavam concluídos. De uma série de artigos que Leni Riefenstahl escreveu para a revista “Tempo” sobre a Groenlândia e das palestras que realizou para o filme, surgiu o livro “Kampf in Schnee und Eis” (Luta na neve e no gelo) que foi publicado em 1933. A estréia do filme “SOS Eisberg” foi em 30 de agosto de 1933, no Ufa-Palast am Zoo.
Relação com Hitler
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Em 1934 Riefenstahl pronunciou-se perante um repórter britânico sobre o livro de Hitler Mein Kampf. “O livro causou grande impressão em mim“, confessou. O relacionamento da cineasta com o Führer é um ponto importante na vida de Riefenstahl e caracteriza a maior e mais importante etapa de sua carreira. Travou forte amizade com Hitler.
O primeiro encontro de Leni Riefenstahl com Adolf Hitler foi em 27 de fevereiro de 1932, quando ela visitou um evento dos nacional-socialistas no Sportpalast em Berlim onde Hitler seria um dos oradores. A partir de então ela estava fascinada pela intensidade e força de sua palavra. Seu interesse cresceu tão rápido, que já em 18 de maio de 1932 escreveu-lhe uma carta solicitando um encontro pessoal. Como Hitler também conhecia a atriz Leni Riefenstahl e apreciava muito seus trabalhos, seguiu-se o primeiro encontro privado em 22 e 23 de maio de 1932 em Horumersiel (próximo a Wilhelmshaven). Já nesta ocasião Hitler anunciou:
 

“Quando nós estivermos no poder, você terá que fazer nossos filmes”.

(“Wenn wir an der Macht sind, müssen Sie unsere Filme machen”).

A partir daqui o relacionamento entre Hitler e Riefenstahl aprofundou-se visivelmente. Ela passou a comparecer com frequência a festividades e recepções oficiais de altos funcionários. O apreço mútuo manifestou-se numa série de encontros privados, desde o primeiro em maio de 1932 até março de 1944, no Berghof. Segundo o então diretor de imprensa do NSDAP, Otto Dietrich, era uma ligação de laços artísticos, companheirismo e amizade.
Adolf-Hitler-and-filmmaker-Leni-Riefenstahl-with-joyous-smilesLeni Riefenstahl era uma das mulheres que mais usufruíam do prestigio e apreço de Hitler. Desde o primeiro ao último encontro estavam unidos por uma relação muito coesa. Hitler valorizava Riefenstahl muito como artista de modo que incumbiu-a de filmar osParteitage (Dias do Partido). Em consequência o contato foi intensificado, já que ao componente privado juntou-se o profissional. Desta cooperação resultou um proveito mútuo. Ele fornecia à artista a quem admirava as tarefas e ela apresentava a ideologia (Weltanschauung) nacional-socialista ao mundo. A importância da cineasta junto a Hitler era tamanha que este chegava a confidenciar-lhe problemas pessoais e assuntos particulares. Com toda a proximidade que reinava entre ambos e contrário a todos boatos, Riefenstahl nunca foi amante de Hitler. Ela afirmou que sentira que ele poderia acalentar sentimentos além da amizade, mas nunca houve intimidades. Além disso, provam as cartas de Riefenstahl a Hitler que não obstante o relacionamento cordial e os presentes recíprocos permanecia uma certa distância entre ambos. As cartas, até onde conhecidas, eram afetuosas mas formais. Os filmes de Riefenstahl são impregnados de um verdadeiro culto a Hitler, demonstrando a admiração que ela sentia pelo Führer. A diretora apresentava Hitler geralmente visto de um plano mais baixo, o que proporcionava uma ideia de superioridade e poder, gerando grande impacto político. Assim, o relacionamento entre ambos espelhava-se também nos filmes de propaganda. O vínculo entre Leni Riefenstahl e Adolf Hitler era tão forte que não quebrou após a morte de Hitler em 1945 e o ocaso do Terceiro Reich. Riefenstahl manteve-se leal a Hitler.
Por ordem direta de Hitler Leni Riefenstahl filmou no Front da campanha da Polônia, como comprova um documento do Ministério de Propaganda de 10 de setembro de 1939. Outras impressões da guerra foram colhidas em Varsóvia, capital da Polônia, em outubro. Após a capitulação das forças armadas polonesas foi realizado um desfile das tropas vitoriosas diante de Hitler.
Após a ocupação de Paris, Riefenstahl enviou telegrama ao Führerhauptquartier (quartel-general) em 14 de junho de 1940:

“Com alegria indescritível e profundamente agradecidos vivenciamos com o senhor, nosso Führer, sua, e da Alemanha maior vitória, a entrada de tropas alemãs em Paris. O senhor realiza feitos que vão além do imaginário na história da humanidade. Como podemos agradecer-lhe? Dizer congratulações é muito pouco para expressar os sentimentos que me agitam”.

(“Mit unbeschreiblicher Freude, tief bewegt und erfüllt mit heissem Dank, erleben wir mit Ihnen mein Führer, Ihren und Deutschlands größten Sieg, den Einzug Deutscher Truppen in Paris. Mehr als jede Vorstellungskraft menschlicher Fantasie vollbringen Sie Taten, die ohnegleichen in der Geschichte der Menschheit sind. Wie sollen wir Ihnen nur danken? Glückwünsche auszusprechen, das ist viel zu wenig, um Ihnen die Gefühle auszusprechen, die mich bewegen.”)

A Trilogia do Dia do Partido
Os três filmes, “Sieg des Glaubens“, “Triumpf des Willens” e “Tag der Freiheit!-Unsere Wehrmacht” são denominados “Trilogia do Reichsparteitag“.

A marca registrada de Leni Riefenstahl era a caracterização idealizada de pessoas. Com isso contribuiu amplamente para a estética nacional-socialista na Alemanha. Além disso desenvolveu uma técnica de edição muito dinâmica, inédita na sua época.
Em agosto de 1933 aceitou a proposta de fazer um filme sobre o Quinto Dia do Partido (Reichsparteitag) em Nuremberg. Leni Riefenstahl trabalhava com operadores conhecidos como Sepp Allgeier, Franz Weihmyr e Walter Frenz e ela própria fazia a edição. O produtor do filme era o Ministério de Propaganda do Reich, sob direção de Goebbels. “Sieg des Glaubens” (Vitória da fé) teve estréia em 1º de dezembro de 1933. Em comparação aos futuros filmes “Reichsparteitag” havia algumas imperfeições estéticas que incomodavam a diretora perfectionista.
A pedido de Hitler rodou outro filme “Reichsparteitag“. Mudou a razão de sua empresa para “Reichsparteitagfilm GmbH” para que pudesse produzir o filme sobre o 6º Dia do Partido do NSDAP. Ela assumiu a supervisão para o filme. Trabalhou com 170 pessoas de 4 a 10 de setembro em Nürnberg. Precisou de sete meses para a edição e conclusão do filme. De sua versão completa de 4 horas de duração ela recortou material de centenas de horas aproveitando técnicas inovadoras de montagem. Em 28 de março de 1935 “Triumpf des Willens” estreou no Ufa-Palast, com a presença de Adolf Hitler. Análogo à apresentação coreográfica do NSDAP, a diretora encenou com técnica de filmagem um material denso, que emocionava o público. As cenas do coro dos homens do Arbeitsfront (Frente de trabalho) e chamada da SA e SS com sua coreografia de massa são as imagens mais contundentes do filme.
Por este filme Leni Riefenstahl recebeu o prêmio “Deutscher Filmpreis 1934/1935″, o prêmio pelo melhor documentário estrangeiro na Bienal de Veneza de 1935 e a Medalha de Ouro na Exposição Mundial de Paris de 1937. Junto com o filme foi publicado o livro “Nos bastidores doReichsparteitagsfilms” (Hinter den Kulissen des Reichsparteitagfilms).
A Wehrmacht, que após a morte de Paul von Hindenburg participou pela primeira vez de um Parteitag, em 1934, sentia-se no entanto pouco prestigiada no filme Triumpf des Willens. Por isso Leni Riefenstahl rodou o curta-metragem, de 28 minutos de projeção “Dia da liberdade!-NossaWehrmacht” (Tag de Freiheit!-Unsere Wehrmacht), sobre o 7º Dia do Partido do NSDAP, de 1935, que estreou em 30 de dezembro de 1935. O filme começa de modo muito lírico, entre a vigia e raiar do dia num acampamento, com sombras e imagens contraluz. Riefenstahl dizia tratar-se trabalho exclusivamente documental, entendendo que um documentário tinha que refletir a atmosfera, o espírito de um evento.
No projeto de renovação de Berlim, Hitler já previa os Estúdios Riefenstahl com 26.000 metros quadrados.
Tiefland
Bundesarchiv_Bild_152-42-31,_Nürnberg,_Leni_Riefenstahl_mit_Heinrich_HimmlerEm 1934 a diretora recebeu da empresa alemã Terra Film a proposta de filmar Tiefland, que seria baseado em uma ópera de Eugen d’Albert, que por sua vez baseara-se na peça Terra baixa de Àngel Guimerà, de 1896. Leni Riefenstahl viajou para Londres, Cambridge e Oxford, fazendo palestras sobre seus trabalhos. O início das filmagens de Tiefland na Espanha tiveram que ser interrompidos, porque não recebeu dinheiro e Leni Riefenstahl adoeceu. Travou contatos com a Tobis sobre a filmagem de Tiefland e trabalhou no roteiro junto com Harald Reinl. Devido ao alastramento da guerra, em 1940 as filmagens externas, previstas para serem feitas na Espanha, foram transferidas para a Alemanha. Para manter a atmosfera espanhola foram requisitados como figurantes Sinti e Roma do Campo de Trabalho e de Ciganos de Maxglan junto a Salzburgo e do Campo Berlin-Marzahn.
Leni Riefenstahl assumiu o papel principal e a direção da filmagem. Devido a diversas afecções de Riefenstahl, houve atraso nos trabalhos. Por ordem de Adolf Hitler o financiamento vinha doReichswirtschaftsministerium (Ministério de Economia do Reich). Em seguida Leni Riefenstahl transferiu sua residência e a maioria de seu material cinematográfico de Berlim para Kitzbühe.
Os filmes Olympia
632efwrl2noc1g201156lmpd6Em 1935 Leni Riefenstahl encontrou-se com Dr. Carl Diem, Secretário-Geral do Comitê de Organização dos 11º Jogos Olímpicos, que seriam realizados em Berlim. Fundou a empresa Olympiade-Film GmbH. A esta empresa estavam associados o Ministério da Propaganda, Leni Riefenstahl e seu irmão Heinz. Goebbels colocou à disposição da produção uma verba de 1,5 milhões de Reichsmark.
Em 1936 Leni Riefenstahl visitou Garmisch-Partenkirchen para trabalhos preliminares dos Jogos de Inverno e encontrou-se com Benito Mussolini em Roma. Em maio de 1936 começaram os ensaios para os filmes Olympia. Leni Riefenstahl trabalhava com os conhecidos operadores Walter Frentz, Willy Zielke, Gustav Lantschner, Hans Ertl e muitos outros. Em conjunto desenvolveram muitas inovações técnicas, como câmeras subaquáticas e câmeras sobre trilhos. Faziam parte da equipe 170 colaboradores. Entre 1936 e 1938 Riefenstahl selecionou, arquivou, montou e editou o material para os filmes Olympia em sua casa em Berlim-Grunewald. Um documentário sobre os trabalhos para os filmes Olympia recebeu a Medalha de Ouro na Exposição Mundial de Paris de 1937. Em 20 de abril de 1938 os filmes Fest der Völker (Festa dos Povos) e Fest der Schönheit (Festa da Beleza) estreiaram no Ufa-Palast. Leni Riefenstahl viajou com os filmes pela Europa. A turnê passou por Viena, Graz, Paris, Bruxelas, Copenhague, Helsinque, Oslo e Roma. Recebeu o prêmio Deutscher Filmpreis 1937/38, o prêmio sueco Polar-Preis 1938, a Medalha de Ouro pelo melhor filme no Festival Internacional de Cinema em Veneza, o prêmio de Esporte Grego, além de um diploma olímpico postecipado no Festival de Cinema de Lausanne de 1948, outorgado pelo Comitée International Olympique 1938.
EUA e Hollywood
Em 1938 Leni Riefenstahl foi convidada pela empresa Metro-Goldwyn-Mayer para uma visita aos Estados Unidos da América. Ela encontrou-se com os diretores King Vidor e Walt Disney e com o fabricante Henry Ford. Seu filme sobre os Jogos Olímpicos não teve permissão para ser visto nos EUA, devido a uma inescrupulosa instigação, que timbrou o filme como propaganda política. Ainda assim, Leni Riefenstahl conseguiu mostrar seu filme perante um círculo de convidados. Mr.Henry McLemore escreveu no “Hollywood Citizen News”:

“Ontem à noite assisti ao melhor filme que já me apareceu. De modo algum é propaganda política, e sim uma arrebatadora mensagem do resplendor e alegria da juventude do mundo inteiro. Se os jovens deste país estão impedidos de vê-lo, os prejudicados são estes jovens.”

Em 1956 o filme foi eleito por um juri de Hollywood como um dos dez melhores filmes do mundo. É exemplo para muitos futuros filmes e reportagens sobre esporte.
Em 1958 a diretora re-editou os filmes “Olympia” e houve exibições em Berlim, Bremen e Hamburgo. A segunda parte, com o título original “Fest der Schönheit” mudou o nome para “Götter des Stadions” (Deuses do estádio). Em 1967 Leni Riefenstahl preparou uma nova edição da versão inglesa dos filmes Olympia que devia ser apresentada no “Channel 13” nas Olimpíadas no México.
Pós-guerra (1946-1971)
Seu sucesso no Terceiro Reich repentinamente se transformou em mácula e a procura por patrocinadores em potencial para novos projetos ficou difícil. A Alemanha passou a boicotar após 1945 os trabalhos da cineasta. Principalmente o filme Tiefland passou a ser objeto de críticas. Em 1948 Riefenstahl foi acusada de que não tinha remunerado devidamente os Sinti e Roma. O assunto tornou-se objeto de diversos processos (1954/56, 1980/81 ss.). Leni Riefenstahl sempre tentou rever a historiografia da RFA. Em abril de 2002 comentou na Frankfurter Rundschau:

“Nós tornamos a ver após a guerra todos os ciganos que participaram de Tiefland. Não aconteceu nada, a nenhum deles.”  

(“Wir haben alle Zigeuner, die in Tiefland mitgewirkt haben, nach Kriegsende wieder gesehen. Keinem einzigen ist etwas passiert.”)

Em 1949 Riefenstahl processou a revista Bunte, que publicava as acusações contra ela. Seguiram-se vários processos pela sua atividade de propaganda ao nacional-socialismo. De 1948 a 1952 Leni Riefenstahl sofreu processos de “desnazificação” e foi categorizada de “simpatizante” do nacional-socialismo. Após sua mudança para Munique em 1950 seu filme Tiefland foi exibido novamente em Stuttgart.
Em 1987 Leni Riefenstahl publicou suas memórias, trabalho que iniciou em 1982. 42 anos após o fim do nacional-socialismo foram reativadas as discussões sobre seu papel. Em 1992 o diretor Ray Müller foi destacado pela biografia cinematográfica de Riefenstahl “Die Macht der Bilder” (O poder da imagem). Em 1996 Johann Kresnik apresentou uma adaptação para o palco de sua biografia no Kölner Schauspielhaus e uma exposição de Riefenstahl em Milão e Roma. Um ano mais tarde, em 1997, foi premiada nos EUA pela sua obra.
Em fevereiro de 2000, após longas negociações por uma permissão de entrada no Sudão, sacudido por guerra civil, Leni Riefenstahl conseguiu viajar, com o intuito de informar-se sobre o destino das tribos Nuba. Novos combates porém interromperam o empreendimento. No voo de regresso o helicóptero caiu. Os membros da tripulação sobreviveram, Leni Riefenstahl sofreu graves fraturas e foi internada em uma clínica.
Fotógrafa (a partir de 1971)
9A partir dos anos 50 Riefenstahl começou a interessar-se pela África. Pretendia rodar o filme “Die schwarze Fracht” (Carga negra) que trataria do fenômeno real do tráfico de escravos moderno entre a África e os países árabes. Riefenstahl fundou a empresa “Stern-Film GmbH” e viajou em 1956 para o Sudão e Quênia. Ela ficou entusiasmada com a paisagem e as pessoas do leste africano, mas o projeto de filmagem fracassou. O co-produtor e patrocinador Walter Traut não conseguiu mais subvencionar o projeto, já que a verba planejada tinha sido gasta antecipadamente devido a diversos contratempos.
Nos anos seguintes falharam mais dois projetos relativos à África, o filme de longa -metragem “Afrikanische Symphonie” e o documentário “Der Nil“. Riefenstahl continuou sendo vítima de constantes acusações na RFA. Sem perspectivas, decidiu concentrar-se na África.
Ressurgimento como fotógrafa
Em 1956 um imagem em uma revista, mostrando um lutador da tribo Nuba, despertou seu interesse pela tribo. Aos quase 60 anos, em 1962 encontrou uma das cem tribos Nuba, os Masakin-Quisar. Em sete semanas expôs mais de 200 filmes, com diversas câmeras Leica e Leicaflex.
A partir de então passou a visitar a cada dois anos a tribo de aborígenes e aprendeu sua língua. Em 1966 foram publicadas as primeiras fotos dos Nuba, primeiro na editora americana Time-Life sob o título “African Kingdom“, pouco tempo depois em uma revista alemã, como sequência fotográfica sob o título “Leni Riefenstahl fotografiert die Nuba – Was noch nie ein Weißer sah” (” Leni Riefenstahl fotografa os Nuba – o que nenhum branco jamais viu”). Estas publicações foram decisivas para a nova carreira de Riefenstahl. Em 1972 trabalhou nos Jogos Olímpicos em Munique como fotógrafa para o “Sunday Times“.
No ano seguinte, em 1973 publicou o livro de fotografias “Die Nuba – Menschen wie vom anderen Stern“, em 1976 “Die Nuba von Kau” e em 1982 “Mein Afrika” na editora Paul-List-Verlag. O sucesso do primeiro volume ainda foi superado pelo segundo e os críticos festejaram-no como hino à beleza do corpo humano, segundo Jürgen Trimborn em sua biografia “Riefenstahl. Eine deutsche Karriere” (Riefenstahl, uma carreira alemã). Uma sequência de fotos em uma revista alemã foi premiada com Medalha de Ouro do Art Directors Club Deutschland. Também no Sudão Riefenstahl foi reconhecida e em 1973 o presidente do Sudão, Jafar Mohammed an-Numeiri concedeu-lhe a cidadania e em 1977 foi homenageada com uma alta condecoração do país.
Fotografia subaquática e novos filmes
Com o sucesso de de seu trabalho fotográfico ressurgiu o desejo de rodar um filme. Para uma documentação sobre os Nuba, nos anos 1964, 1968/69 e 1974/75 em expedições ao Sudão, levou por conta própria equipamento de filmagem.
Em 2001 anunciou que iria utilizar os mais de 3000 m de material para fazer o filme “Allein unter den Nuba” (Só entre os Nuba), o que porem não conseguiu realizar. Entretanto chamou a atenção com um outro filme em 2002, o documentário de 41 minutos de duração “Impressionen unter Wasser” (Impressões debaixo d’água). Uma condição para as filmagens subaquáticas foi a obtenção de uma habilitação de mergulhadora, aos 72 anos, em 1974. Apresentou mais dois álbuns de fotos, em 1978 “Korallengärten” e em 1990 “Wunder unter Wasser“, recebendo homenagens e condecorações no mundo inteiro.
Últimos anos de vida
_986528_topEm outubro de 2002, quando Leni tinha 100 anos, autoridades alemãs decidiram arquivar o inquérito contra ela por afirmar corretamente no passado que “todos e cada um” dos ciganos que foram recrutados em um campo de concentração para aparecer em seu filme Tiefland tinham sobrevivido à guerra.
A despeito de seus filmes de propaganda, Leni Riefenstahl é renomada na História do Cinema por ter desenvolvido novas estéticas em seus filmes, especialmente em relação a ângulos de câmera, enquadramentos, movimentos de massas e nus. Ainda que a propaganda em seus filmes provoque rejeição por várias pessoas, a sua estética é indubitavelmente singular e é citada por vários outros cineastas.
Leni Riefenstahl morreu em 8 de setembro de 2003 em sua casa na cidade de Pöcking, Baviera, aos 101 anos. enquanto dormia. A causa seria um câncer, não especificado. Em seu obituário, foi dito que Leni foi a última figura famosa da era da Alemanha nacional-socialista a morrer. Foi sepultada em Waldfriedhof München, Munique, Baviera na Alemanha.
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