A Morte de Heinrich Himmler, o Comandante das SS

Edouard Calic narra assim em seu livro “O Império de Himmler” a morte do Demônio Nazista e Comandante da SS Heinrich Himmler:

Com a invasão dos aliados a Alemanha, Himmler resolveu deixar o norte, onde os aliados sabiam que ele se encontrava. Deu ordens para que os membros de seu séquito — agora, muito reduzido — tratassem de disfarçar-se da melhor maneira possível. A maior parte dos seguidores do Reichs-führer preferira raspar os bigodes, mudar o penteado e usar trajes civis, em lugar de usar as fardas de altos funcionários de uma po­lícia agonizante. A partir daquele momento, Himmler passava a viver na ilegalidade.

Terminava a época em que o Delfim do Führer e sua corte ocupavam mansões e castelos. Esgueiravam-se de uma localidade para outra, deslocando-se individualmente nos quatro automóveis que cons­tituíam os restos do imenso parque de viaturas do Reichsführer. Estavam disfarçados com uniformes de soldados da Wehrmacht ou em trajes civis. Não mais ousavam apresentar-se nos hotéis e pen­sões; dormiam ao relento, muitas vezes misturados à população e às tropas em êxodo. Enquanto alguns mantinham guarda junto aos car­ros, os outros se deitavam nos bancos das estações ferroviárias, a fim de conseguir alguns instantes de repouso.

Himmler continuava a comandar os doze fugitivos que, munidos de documentos falsificados, pretendiam atravessar as linhas inglesas e chegar à Baviera. Atingindo o Elba, abandonaram os automóveis; disfarçados em habitantes da região, preocupados com o avanço dos russos, misturaram-se à massa humana que caminhava penosamente para oeste. No grupo estavam o Professor Gebhardt, Ohlendorf, Rudolf Brandt, secretário de Himmler, os oficiais SS Werner e Grothmann, além de Heinz Macher.

Himmler raspara o bigode e ocultara o olho esquerdo com uma venda de pano preto. Julgara de bom alvitre usar documentos que o identificavam como Heinrich Hitzinger, Feldwebel (cabo) daGeheime Feldpolizei (Polícia Secreta de Campanha). A escolha da identidade fora bastante sutil: caso fosse aprisionado e interrogado a respeito de seu chefe e das atividades que este desenvolvera du­rante a guerra, poderia responder sem despertar maiores suspeitas. Es­quecera-se completamente, porém, de que os Aliados consideravam a Geheime Feldpolizei um órgão extremamente perigoso.

A partir de maio de 1942, a Feldpolizei, que anteriormente de­pendera do Abwehr, passara a desempenhar as funções da Gestapo nas frentes de combate.Hugo Jaeger-038

A despeito de tudo, “Hitzinger” e seu grupo conseguiram pas­sar pelo primeiro posto de controle estabelecido pelos britânicos. Entretanto, ao chegarem a Meistadt, entre Hamburgo e Bremerhaven, os doze componentes do grupo foram presos e enviados ao campo de Bremenvoerde, de onde foram transferidos para Zeelos e, fi­nalmente, para Westertinke.

A 23 de maio, os prisioneiros chegaram ao Campo de Interro­gatório Britânico nº 031, nas proximidades de Luneburgo. Passaram-se algumas horas. Três dentre eles, interrogados pelo Capitão Selvester, demonstraram um nervosismo tão evidente que o oficial inglês resolveu apertar o interrogatório e acareá-los entre si. Repentina­mente, um dos três homens arrancou a venda negra que lhe dis­farçava o rosto e declarou em tom bastante tranquilo:

6851daa9e10b50dab053aca155ef92c6— “Sou o Reichsführer SS Heinrich Himmler. Desejo falar imediatamente com o General Montgomery”.

Selvester não esperava realizar uma captura de tamanha im­portância. Reforçou a guarda dos prisioneiros e solicitou a presen­ça de outro oficial do serviço de informações britânico.

Quando o outro oficial chegou, Selvester solicitou ao homem que dizia ser Himmler que apusesse sua assinatura em um pedaço de papel, a fim de poder compará-la com as existentes nos arquivos do Intelligence Service. Himmler recusou-se. Seguiu-se uma acirrada dis­cussão a respeito da assinatura, que seria a última da vida do Reichsführer.

Conhecedor profundo dos métodos usados pelos serviços de contra-espionagem, Himmler sabia de que modo é possível utilizar uma assinatura falsa e, sobretudo, uma verdadeira. Declarou-se dis­posto a assinar o papel, uma vez que o único objetivo era provar sua verdadeira identidade; todavia, impunha uma condição: os oficiais ingleses deveriam prometer que o papel seria imediatamente destruído, na presença de Himmler.

O Capitão Selvester fez um detalhado exame do conteúdo dos bolsos do prisioneiro. Encontrou uma caixinha, contendo duas mi­núsculas ampolas.

Selvester não hesitou, pois sabia que as ampolas continham ve­neno: o último recurso dos nazistas. Não fazendo qualquer comen­tário e aparentando a mais completa indiferença, perguntou a Himmler para que serviam as ampolas. O Reichsführcr replicou tran­quilamente:

— “Trata-se de um remédio para os espasmos que sofro no estômago”.

Entretanto, Selvester constatara que uma das ampolas estava cheia e a outra, vazia; convenceu-se de que Himmler escondia o veneno em algum outro lugar.

Os ingleses solicitaram ao Reichsführer que se despisse. Todas as peças de roupa foram examinadas. O corpo de Himmler foi mi­nuciosamente revistado. Selvester, contudo, temendo que o Reichs­führer, vendo-se descoberto, mordesse a cápsula de veneno e engo­lisse o conteúdo, absteve-se de examinar a boca do prisioneiro.

O oficial teve uma ideia, no intuito de tranquilizar Himmler: com a maior correção de maneiras, ofereceu chá e sanduíches ao Reichsführer. Caso Himmler aceitasse, seria obrigado a tomar a pre­caução de tirar a cápsula da boca.

Enquanto Selvester observava com a maior atenção, Himmler comeu pacificamente os sanduíches e bebeu o chá. Diante disso, Selvester só tinha uma alternativa: remeter o prisioneiro aos servi­ços competentes do Quartel-General do II Exército Britânico, em Luneburgo. Sugeriu que Himmler vestisse um uniforme inglês. Te­ria duas vantagens: não haveria veneno escondido na farda inglesa e, além disso, os britânicos teriam oportunidade para fazer um exa­me mais detalhado das roupas de Himmler.

Todavia, Himmler protestou:

— “Querem vestir-me com uma farda inglesa para me aba­terem como espião! Pretendo comparecer diante de seus superiores com meu uniforme alemão”.

Himmler julgava seus adversários pelos métodos que ele próprio costumava utilizar. Por outro lado, os britânicos, que desejavam acalmar o prisioneiro nazista, acreditavam que a insistência de Himmler em continuar com o uniforme alemão indicava que o ve­neno estava escondido em algum lugar da farda.

O Reichsführer insistia em protestar:

— “Se fazem tanta questão de que eu vista um uniforme inglês, só pode ser porque desejam 917-33-wha-051-0758desacreditar-me perante os alemães e a opinião pública mundial, fotografando-me e entregando as fotos para publicação na imprensa internacional”.

Afinal, o oficial inglês declarou categoricamente que em hipó­tese alguma Himmler receberia de volta o uniforme, que deveria ser submetido a um rigoroso exame. Ameaçou o chefe nazista de ser transportado nu até o local onde ficaria detido.

Himmler terminou cedendo; aceitou uma camisa, um par de cal­ças e um par de coturnos britânicos. Recebeu um cobertor, enro­lando-se nele.

Selvester afirma que durante a discussão, que durou cerca de oito horas, Himmler comportou-se de modo correto e até mesmo jovial, demonstrando, acima de tudo, evidente preocupação com o destino de seus companheiros. ‘

Às 20 horas, Himmler foi conduzido à presença do Coronel Michael Murphy, chefe do Intelligence Service no Estado-Maior do General Montgomery. Himmler repetiu suas declarações: era o Reichsführer SS Heinrich Himmler e desejava avistar-se com o Ge­neral Montgomery, para o qual já havia preparado uma carta.

O Coronel Murphy embarcou Himmler em uma viatura mi­litar e, juntamente com um de seus oficiais, acompanhou-o até Lu-neburgo, onde o Reichsführer foi levado à prisão de Uelzenerstrasse, ocupada pelo Quartel-General do II Exército Britânico.

O coronel inglês estava convencido de que Himmler conseguira ocultar o veneno na boca, ou nas roupas.

Himmler foi colocado em uma cela, sob a vigilância do Sargento-Mor Edwin Austin, o qual não foi informado por seus superiores a respeito da identidade do prisioneiro. Após a guerra, porém, du­rante uma entrevista concedida à BBC de Londres, Austin afirmou que reconhecera perfeitamente o Reichsführer, apesar do cobertor que dissimulava seus trajes britânicos. Sua maior preocupação era evitar que o prisioneiro conseguisse suicidar-se — como havia feito anteriormente, em sua presença, o General Pruetzmann, um dos acó­litos de Himmler.

Apontando para um catre onde Himmler deveria deitar-se, Aus­tin solicitou ao Reichsführer que se despisse. A ordem foi decor­rente da notícia de que um médico deveria visitar a cela dentro de alguns instantes, a fim de examinar minuciosamente o corpo do pri­sioneiro.

Himmler, dirigindo-se ao intérprete, rosnou:

— “O sargento não sabe a quem está se dirigindo!” Ao que Austin replicou:

— “Já sei, já sei: você é Himmler. Para mim, porém, não faz a mínima diferença. Recebi ordens: dispa-se e deite-se no catre”.

Himmler começou a despir-se no momento em que o Coronel Murphy chegou à cela, acompanhado pelo Capitão Dr. C. J. L. Wells, médico do II Exército Britânico.

O Capitão Wells realizou um segundo exame minucioso em todo o corpo do prisioneiro. Himmler aceitou tudo, sem reclamar. Entre­tanto, quando o médico lhe ordenou que abrisse a boca, Hímmler tirou rapidamente uma cápsula minúscula, que trazia escondida entre a gengiva e a bochecha.

Wells tentou impedir o movimento e enfiou dois dedos na boca do prisioneiro. Himmler jogando a cabeça para trás, mordeu os dedos do médico até os ossos. O Coronel Murphy e o Sargento precipitaram-se sobre o Reichsführer, mas já era tarde demais.

Deitaram Himmler em decúbito ventral, no intuito de evitar que deglutisse o veneno. Tentaram obrigá-lo a vomitar. Fizeram uma la­vagem estomacal. Aplicaram respiração artificial etc. O Reichsführer perdera os sentidos. Nada mais havia a fazer. Doze minutos depois que Heinrich Himmler engoliu o cianureto, o Capitão Dr. Wells não teve outro remédio senão constatar oficialmente a morte do pri­sioneiro!

TrupO cadáver do Reichsführer jazia sobre uma poça de vomito. Seu grandioso Grossraum estava reduzido à ignóbil sujeira em que estava deitado. Um cadáver medíocre, ridiculamente vestido com uma camisa militar britânica, trazendo ainda ao nariz o eterno. pince-nez, atrás de cujas lentes os olhos — que outrora tudo pa­reciam espionar e observar — davam, agora, a impressão de fitar o vácuo; era tudo o que restava do homem que fora o porta-estandarte da ideologia da “raça superior” e construtor do Olimpo Pardo; a Ruhmeshalle. Não; as Valquírias não o transportaram para o Walhalla.. .

Para os soldados ingleses, que significado poderia ter aquela morte? Apenas mais uma, dentre tantas ocasionadas pela guerra. Todos haviam ouvido falar a respeito do grande chefe nazista, de seus crimes hediondos, mas ignoravam o imenso império secreto que ele conseguira erguer, cimentado com incalculável derramamento de sangue.

Austin, fitando o cadáver, murmurou, decepcionado:

— “Então, esse é Himmler. . .”

Jogou o cobertor sobre o corpo inerte do Reichsführer e saiu da cela.

Shakespeare teria exclamado: “Outrora, César fazia tremer o mundo; hoje, ninguém para inclinar-se diante dele!”.

440px-Himmler_DeadDesolados, os oficiais ingleses compreenderam que sua diploma­cia falhara. Haviam perdido uma bela ocasião para desvendar os segredos da Gestapo. Himmler, como um covarde, só tomara o ve­neno, quando tivera certeza de que o Quartel-General Britânico iria tratá-lo como criminoso de guerra. Preferiu a morte aos castigos que, segundo julgava, lhe seriam impostos. Qualificado pelo mundo inteiro como o mais cruel torturador que já surgiu na História, não podia conceber que os adversários deixassem de aplicar a Lei de Talião. Muitos dos segredos dos doze anos de existência do III Reich foram enterrados para sempre com ele.

No final das contas, o Reichsführer não conseguiu os três me­ses de vantagem que desejava para que os Aliados fossem procura-Io nas montanhas da Baviera e lhe pedissem para salvar o mundo do perigo do bolchevismo. . . Confiara, até a morte, nas previsões de um de seus “videntes”, o qual anunciara que a guerra terminaria na primavera de 1945 e que a Alemanha ,sofreria suas consequências, durante apenas três meses. Segundo declarações feitas por meus ami­gos suecos após a guerra, o referido “vidente” só poderia ser o mas­sagista Kersten.

Se os britânicos não houvessem tratado o ex-Reichsführer como o mais vulgar dos prisioneiros, fazendo-o vestir uma camisa inglesa e transportando-o em um caminhão militar, se o considerassem um personagem histórico, Himmler certamente lhes entregaria os do­cumentos que constituíam seu derradeiro alibi — e que ele soube esconder tão bem que, até hoje, ainda não foram encontrados.

Não há dúvida de que ele tentaria justificar os crimes que co­metera e as provocações que realizara com o auxílio de seu brain trust, mas podemos ter absoluta certeza de que não se suicidaria no momento em que o fez.

Após a capitulação final da Alemanha, um polonês gabou-se de haver reconstituído todo o trajeto da fuga de Himmler, desde sua partida de Hohen-Lüchen, até o local onde foi feito prisioneiro. Se­gundo ele, o Reichsführer trazia consigo uma maleta de documentos, que enterrou antes de tentar atravessar as linhas inglesas.

Dois dias após o suicídio de Himmler, o Sargento Austin recebeu ordens para enterrar o cadáver do ex-Reichsführer. Envolvcu-o em um cobertor, amarrou-o com fios telefónicos e transportou-o para local ignorado. Os documentos e o túmulo do monstro constituem, até hoje, o mais completo mistério.

Um denso mistério também envolve a vida inteira do Reichsfüh­rer e as duas personalidades daquele homem tão singular. Da mesma forma que o Capitão Selvester não conseguiu encontrar no compor­tamento de Himmler qualquer dos elementos característicos de um massacrador de povos, os biógrafos do Reichsführer, baseando-se nas declarações dos fiéis seguidores de Himmler e nos depoimentos das mulheres que compartilharam de sua existência, dificilmente poderiam conceber que um homem capaz de demonstrar tantas qualidades fa­miliares em sua vida particular, pudesse enveredar pêlos caminhos sombrios do crime, possuído por uma ideologia bárbara: o racismo.

img_1-3_1431603644_634_407Já no fim da vida, depois de preso, Hirnmler demonstrou bon­dade, preocupando-se com o tratamento dispensado a seus compa­nheiros; depois que passou a viver na ilegalidade, jamais cessou de atormentar-se com o possível destino de sua segunda esposa e de seus três filhos. Entretanto, nem por um só instante pareceu apiedar-se dos milhões de lares que destruíra e das inúmeras crianças que transformou em órfãos — quando não as massacrou!

Só sabia conceber o bem-estar e alegria da vida cotidiana para si e para os seus.

A vida mundana sempre teve grande importância para Himmler. Gostava dos uniformes elegantes e havia quem dissesse que seu traje de gala favorito fora aprovado pelo próprio Führcr. Mantinha um Geschenkkartei (fichário de presentes), cuidado por Fraulein Lorenz, filha de seu particular amigo Werner Lorenz. chefe do departamento encarregado da Quinta Coluna no exterior. A filha de Lorenz arqui­vava fielmente as informações sobre as pessoas que mantinham cor­respondência com Himmler. Este detalhe levou Kersten a afirmar que Himmler não passava de um “pequeno burguês”, opinião corroborada por muitos autores.

Himmler levava o formalismo até os mais exagerados extremos. Chegava a anotar em fichas individuais os títulos e formas de polidez pêlos quais devia dirigir-se às pessoas com quem se correspondia ou tratava. Registrava os presentes que enviava às pessoas de suas rela­ções, frequentemente objetos de porcelana de fábricas onde traba­lhavam prisioneiros de campos de concentração (Dachau). Cada presente e suas características eram meticulosamente fichados.

As diferentes pessoas presenteadas, tocadas pelas atenções do Reichsführer, acreditavam compartilhar do gosto de Himmler que, portanto, causava sempre uma excelente impressão a todos.

Depois da guerra, visitando as mansões de Grunewald e Dahlem, encontrei nas bibliotecas dos grandes figurões do Reich diversas obras contendo dedicatórias assinadas por Himmler; variavam desde narra­tivas de viagens por regiões pitorescas até colecões completas das obras de Fichte e Nietzsche. A filosofia racial justificava os campos de concentração, as câmaras de gás e as hecatombes nos campos de batalha.

No que se referia à mesa, domicílio, empregados domésticos e modo de vida — incluindo uma amante com um belo título de no­breza —, Himmler sentia-se feliz, pois era um verdadeiro grande senhor. Como um respeitável membro da alta burguesia, possuía um castelo de caça, Wustrow, ao norte de Berlim, e recomendava aos grandes dignitários das SS que seguissem seu exemplo.

No discurso que pronunciou em 1941 ante os oficiais da Leibs-tandarte SS “Adolf Hitler” (Divisão da Guarda Pessoal do Führer), o Reichsführer declarou:

“O homem que guarda os prisioneiros realiza uma tarefa mais difícil do que aquele que cumpre o seu dever militar… Proponho-me a constituir um batalhão de guarda e fazer um rodízio do efetivo a cada três meses, a fim de que todos possam tomar conhecimento da luta contra os sub-homens.”

Tal atividade era indispensável por quatro motivos:

1º — para eliminar do povo alemão os elementos perigosos;

2º — para utilizar a mão-de-obra dos escravos nas pedreiras, a fim de que o Führer pudesse erigir os fabulosos monumentos do III Reich;

3º — para que a WVHA pudesse conseguir as grandes somas necessárias à edificação de lares para as famílias numerosas, pois a vitória ou a derrota seriam decididas pela expansão demográfica do sangue alemão; se a raça germânica não se multiplicasse, o Reich não poderia dominar o mundo;

4º — para cumprir o principal dever das SS: constituir-se no instrumento da colonização da Europa e da “solução final” do pro­blema judaico.

Com a morte de Himmler, desapareceu o mais espantoso dos grandes chefes nazistas. Em seu aspecto trágico, o Reichsführer ultra­passou até mesmo o próprio Hitler, pois ofereceu milhões de cadá­veres em holocausto à nebulosa ideologia de seu chefe, num genocí­dio que até hoje permanece mal esclarecido, a despeito da abundante literatura que foi publicada a respeito. Um certo mistério continua a persistir, pois muitas forças ainda entram em choque no sentido de influenciar a análise do caso de Himmler: interesses econômicos, rancores nacionais, fanatismo doutrinário. Os doze anos de existência do “Nacional-Socialismo” e sua espada — as SS — constituirão um marco em todo o nosso século.

O cadáver de Himmler, enterrado em algum ponto de Luneburgo, permanecerá para sempre como um símbolo de uma desumanidade que o mundo jamais viu, aplicada de modo tão deliberado e violento. As vítimas de Himmler, bem como seus inimigos e seus partidários, relembrarão até a morte o pesadelo dos campos de concentração, visto sob o prisma de sua subjetividade. ..

Por esse motivo, sentirei-me feliz se, na qualidade de ex-prisioneiro de um desses campos, consegui contribuir para encontrar a verdade e atualizar a velha fórmula romana: Historia, magistra vitae.

Inúmeros são aqueles que não conseguiram avaliar em sua justa medida aquela terrível experiência. Uma prova do fato é a campanha em favor da prescrição dos crimes nazistas. Entretanto, o inundo tem plena consciência de que o atentado realizado pelos nazistas con­tra a humanidade provocou a destruição de valores que sucessivas gerações levaram séculos para constituir.

O mausoléu consagrado aos grandes dignitários do Reich, cuja construção dominava os sonhos de Himmler quando este comprou uma montanha de granito na Suécia e criou a escola de marmoristas e entalhadores de pedra em Sachsenhausen, afundou-se eo monstruo­so oceano de escombros produzidos pela guerra. As ruínas da Ruhmeshalle cobriram os ossos de 11 milhões de entes humanos que pereceram nos campos de concentração.

Trinta milhões de combatentes perderam a vida nos campos de batalha.

Trinta e cinco milhões de homens ficaram feridos ou mutilados.

O Reich, em si, perdeu seis milhões de vidas, o que equivale a um décimo de sua população antes da guerra. E, por incrível que pareça, a hecatombe foi desencadeada em nome da metafísica do sangue e da raça.

As SS, através de seus crimes, enxovalharam a honra de um povo civilizado, que já deu ao mundo tantos pensadores, escritores, pintores e músicos.

Os sonhos megalomaníacos de Himmler e seus carrascos não podem ser comparados com a grandeza da alma humana, que se manifesta em todos os povos e, evidentemente, também no povo ale­mão. Mais cedo, ou mais tarde, a grande maioria dos homens apren­derá a lição e não dará, àqueles que sonham com a renovação desse passado trágico, uma nova oportunidade para se beneficiarem da divisão, do caos e da ignorância.

Fonte: Ecos da Segunda Guerra

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