O ATAQUE A DIEPPE: UM SACRIFÍCIO NECESSÁRIO?

Por José Martiniano

Nos brancos rochedos do litoral inglês, centenas de pessoas silenciosas e com olhar fixo no horizonte, observam a movimentação dos esquadrões de caças “SpitfiresSpitfires”, “Hurricanes” e de alguns bombardeiros britânicos numa corrente contínua em direção à França. Os esquadrões desaparecem na espessa neblina que se forma no estreito e ouvem-se explosões e fortes estrondos vindos da costa francesa entre “Calais” e “Boulogne”. Estas pessoas estavam assistindo a movimentação dos 68 esquadrões que a Força Aérea Real (RAF) conseguiu reunir, a maior força desde Batalha da Inglaterra, para dar apoio aéreo a corajosa incursão de “Comandos”, a operação “Jubileu”, na cidade costeira de Dieppe. Era 19 de agosto de 1942.

map-english-channelEste audacioso ataque veio quase que imediatamente após a conferência de Moscou, onde Stalin exigiu a abertura de uma segunda frente na Europa para diminuir a pressão dos alemães sobre o Exército Soviético, que até então estavam sofrendo significativas derrotas. Stalin ofendia os seus aliados chamando-os de covardes, argumentava que milhões de soviéticos foram mortos pelos alemães, e que a Inglaterra e os Estados Unidos tinham medo de enfrentar os nazistas na Europa.

Enquanto os soldados canadenses e britânicos estavam sendo varridos das praias, a rádio de Moscou transmitia aos franceses: “A conferência de Moscou soergue as esperanças dos povos oprimidos de toda a Europa. Aqueles que não desejam a sujeição animal, na França ocupada e não ocupada, devem unir as suas forças. A conferência de Moscou é um apelo para que correis fileiras com os sabotadores e patriotas. Discursões históricas dão nova orientação a estratégia da guerra Aliada. França ergue-te e luta pela tua liberdade! ” (Diário da Bahia 1942, pela “Reuters”). Quase que simultaneamente a BBC de Londres “advertia a população francesa de que não era uma invasão, sendo repetida muitas vezes pelo locutor em voz pausada” (Diário da Bahia 1942, pela “Reuters”). Entretanto a possibilidade de um levante armado por parte dos franceses na crença de que se tratasse de uma segunda frente pareceu que estava além da capacidade restritiva da advertência.

dieppe_commandos-rn-lstAs fontes militares no dia do ataque declararam que “as nossas tropas não poderiam permanecer em terra, à luz do dia, a menos que fossem em número considerável, e sem que estivessem ­ –­ como estão sendo ­­­­– protegidas por considerável força aérea. Não se trata de uma incursão de 20 ou 50 homens. É natural supor que o seu objetivo seja a destruição de algumas importantes instalações militares. De qualquer forma, o certo é que há de haver nesse ataque mais do que uma busca de informações valiosas quanto a localização e poderio das defesas inimigas. ” (Diário da Bahia – “Reuters”, 1942)

De certo que um dos objetivos do ataque realmente seria ver “in loco” a capacidade de reação dos alemães alojados na costa francesa. As metas foram assim divulgadas posteriormente:

  1. Destruição das defesas inimigas na vizinhança de Dieppe;
  2. Destruição das instalações do campo de pouso perto de Dieppe-Saint-Aubin;
  3. Destruição das estações de rádio, de força, das docas, das ferrovias e dos postos de gasolina das vizinhanças;
  4. Utilização das barcas de desembarque alemãs para uso próprio (estas barcas seriam utilizadas pelos nazistas na “Operação Leão Marinho” – a invasão da Inglaterra);
  5. Remoção de documentos secretos do quartel general de Arques-la-Bataille;
  6. Captura de prisioneiros.

dieppecamhighO plano inicial tinha o codinome de “Rutter”, foi arquitetado pelo Comitê de Planejamento do Quartel General das Forças Combinadas. Lorde Mountbatten não participou das reuniões iniciais, estava nos Estados Unidos num encontro com Viacheslav Molotov, chanceler soviético, que reiterava o pedido de urgência para a abertura de uma segunda frente. Após semanas de treinamentos insatisfatórios e com um tempo que não melhorava, o plano “Rutter” estava comprometido, a operação foi cancelada.

Por motivos políticos, a ação contra Dieppe foi retomada com um novo codinome, Jubileu. De todas as opções apresentadas pela comissão ao General Montgomery, convidado como consultor, ele defendeu o desembarque direto. Os informantes alemães ficaram surpresos, pois já era de conhecimento geral as intenções britânicas. As defesas em Dieppe já estavam em alerta máximo depois que os agentes apontaram para a movimentação de homens na margem oposta do Canal e a própria inteligência alemã detectou o aumento das transmissões de rádio e da grande quantidade de embarcações atracadas nos portos costeiros ao sul da Inglaterra.

dieppe-lstA guarnição que estava em Dieppe era composta por cerca de mil e quinhentos soldados. Se contarmos com os que estavam alojados nas cercanias da cidade este número sobe para aproximadamente dois mil e quinhentos homens. Podemos considera-los soldados de segunda categoria e uma boa parte era constituída de alemães étnicos, vindo da Polônia e de outros países ocupados, designados de “Osttruppen”, tinham pouca disposição para a luta. O grau de instrução militar era precário assim como o seu armamento era muito diversificado, um tormento para a logística militar. Apesar disto eles estavam taticamente bem posicionados para a defesa o que ajudou no bom desempenho em combate.

dieppe_3Foi durante a noite do dia 18 de agosto que a flotilha composta por 252 embarcações, tendo a bordo sob as ordens do General-de-Divisão John Hamilton Roberts, 6.086 homens, sendo: 298 oficiais e 4.663 soldados da 2ª Divisão de Infantaria Canadense; 65 oficiais e 992 homens dos Comandos números 3, 4 e 6; 18 oficiais e soldados do Comando Inter-Aliado (franceses) e 50 oficiais e homens do 1º batalhão “Rangers”, do Exército dos Estados Unidos, como observadores (Thompson, 1956). O comboio partiu de Portsmouth, Southampton, Shoreham-by-Sea e Newhaven no litoral inglês e reuniram-se no meio do Canal da Mancha. Formaram 13 grupos para a navegação apoiados por 68 esquadrões de caças e bombardeiros. O plano não previa o bombardeio prévio, o que descartou os navios maiores como os couraçados e os grandes cruzadores de batalha. Os estrategistas optaram por destroieres de 900 toneladas que seriam usados para dar apoio aproximado aos combatentes. A dispensa do fogo prévio seria para garantir o elemento surpresa, característica dos ataques dos Comandos, ataque de surpresa e retirada rápida.

dieppe_2A suspensão do bombardeiro prévio, naval e aéreo, foi decidida pelo Estado-Maior para preservar a vida dos civis franceses, além disso, os escombros da cidade dificultariam a movimentação dos tanques, bem como, serviriam como abrigo para os defensores. Alguns historiadores afirmam que a Marinha Real não queria arriscar os seus couraçados numa zona sem o predomínio aéreo garantido, principalmente após a perda do cruzador de batalha “HMS Repulse” e do couraçado “HMS Prince of Wales”, afundados por aviões japoneses em 10 de dezembro de 1941. Outro motivo seria que o bombardeio prévio alertaria os alemães de um desembarque iminente o que destruiria o elemento surpresa do ataque. Porém, não se consegue fazer surpresa com uma movimentação dessa envergadura. Os Comandos acostumados a ações rápidas com objetivos simples e soldados bem treinados, estavam no crepúsculo do dia 19 com quase cinco mil canadenses sem experiência alguma em combate e com objetivos complexos, este ataque seria um desastre total para os Aliados.

bundesarchiv_bild_101i-291-1213-34_dieppe_landungsversuch_deutsche_mg-stellungDesembarcaram em oito pontos diferentes (iniciou às 4h50 do dia 19) com os seguintes codinomes: áreas da cidade e porto de Dieppe eram denominadas de “Praia Branca, Vermelha e Azul”; nas cercanias eram “Praias Laranja I e II; Verde e Amarelo I e II”. Apesar de estarem em menor número os alemães da 302ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General Konrad Haase estavam bem posicionados e as suas armas cobriam toda a extensão das praias. O seu comandante imediato era um velho coronel da Primeira Guerra Mundial, Kurt Haase, 60, tinha muita experiência em combate defensivo e, depois do ataque dos Comandos em Saint-Nazaire, intensificou o treinamento dos seus homens contra desembarque.

dep9Foi um massacre nas praias de Dieppe: 3145 oficiais e soldados mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros. Os Canadenses tiveram 907 mortos, os britânicos 275 e os alemães 311 mortos. A Marinha Real perdeu 81 oficiais, 469 subalternos entre mortos, feridos, desaparecidos, além de 1 destroier, 33 lanchas de desembarque. No ar não foi diferente, os britânicos conseguiram reunir 68 esquadrões e um dos objetivos era atrair a “Luftwaffe” para uma luta de desgaste, no entanto, os ingleses ficaram numa situação similar a dos alemães durante a Batalha da Inglaterra: estavam longe de suas bases, os aviões de caça tinham pouca autonomia para ficar, por muito tempo, sobre o campo de batalha, e o resultado foi a perda de 106 aeronaves britânicas, com 153 mortos, feridos e desaparecidos, contra 48 aeronaves alemães e um pouco mais de 20 mortos, feridos e desaparecidos. Do total das perdas materiais da Luftwaffe está incluso as aeronaves destruídas em solo.

dieppe-raid-3O único Comando que conseguiu completar a sua missão e retornar com êxito para a Inglaterra foi nº 4 (dividido em dois grupos) sob as ordens do Lorde Lovat e Derek Mills-Robert. Após destruir a bateria costeira de canhões em Verengeville, codinome “Hess”, esses soldados estavam acompanhado por elementos do 1º batalhão dos “Rangers” do Exército dos Estados Unidos (segundo Thompson, foram 18 “Rangers” do total de cinquenta que estavam engajados na operação). De todo o “raid”, justamente esse sucesso teve a participação americana, cujo número de participantes era até então desconhecido. Por causa desta falta de informação, especulou-se também que o planejamento seria de autoria estadunidense. A imprensa Aliada ovacionou o comando nº4 esquecendo quase que por completo dos canadenses e, nos Estados Unidos da América esta vitória saiu nas primeiras páginas dos jornais com o título “American Show”, considerando a ação de sucesso como exclusiva dos “Rangers”. As agências de noticia alemãs se deleitavam, possuíam filmes e centenas de fotos do campo de batalha mostrando os equipamentos destruídos, os mortos, feridos e prisioneiros, provando a verdadeira história do ataque. No mês seguinte as agências noticiosas aliadas já informavam a gravidade da derrota e admitiam uma perda de dois a três mil homens, entre mortos, feridos e desaparecidos, porém insistiam em dizer que a campanha aérea tinha sido um sucesso com “a destruição de um terço da ‘Luftwaffe’ na Europa” (Diário da Bahia, 23 de setembro de 1942).

dieppe-raid-4Foi uma derrota contundente. O Estado-Maior Aliado declarou: “(…) do sacrifício muitas lições foram aprendidas para futuras operações”. De certo muito se aprendeu, mas a que custo? O aprendizado militar, além dos exercícios de guerra, só enriquece com o calor da batalha. Os ingleses ao tentarem pôr em prática o ataque surpresa e saída rápida com mais de seis mil homens não levaram em consideração a pouca experiência em combate dos canadenses. A “retirada rápida” foi um desastre, provocou um grande número de baixas nesse momento, enquanto os soldados corriam para os barcos o fogo cruzado das metralhadoras MG-34 derrubava-os como pinos de boliche. O terreno era inadequado para os tanques, deixando-os à mercê dos artilheiros alemães, os únicos que conseguiram adentrar na cidade foram postos fora de combate. Os soldados que não tentaram se retirar ficaram presos, imóveis em pequenas elevações nas praias esperando o momento para se renderem.

“Ao meio dia, 19 de agosto, a rádio de Berlin transmitiu novos boletins sobre as operações na costa francesa. A agência noticiosa alemã declarou que o ataque fora desfechado ‘numa ampla frente’ sendo o seu golpe principal dirigido à cidade de Dieppe. Parte da força britânica de desembarque já fora aniquilada, sendo afundados também vários navios-transporte. Acha em processo de contra-ataque e limpeza final das forças desembarcadas” (por Stanley Burch, da “Reuters” – Diária da Bahia 19 de agosto de 1942).

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Os aliados perceberam que um grande bombardeio prévio com canhões de grosso calibre, ter o domínio aéreo total, invadir praias abertas ao invés de conquistar diretamente um porto importante, pois este estaria muito bem fortificado, além de manter o sigilo total dos planos, seria a resposta a Dieppe para futuras operações de combate. A necessidade de construir veículos melhores para desembarque, aprimorar o apoio aproximado da força aérea, mais o desenvolvimento de melhores técnicas de operações combinadas provou que o sacrifício humano do ataque de Dieppe não foi em vão, os aprendizados foram utilizadas na invasão do norte da África, Sicília, Itália, Normandia e o sul da França. Os canadenses escreveram com sangue esse capitulo da historia.

 

Referencias:

  • Diário da Bahia, Salvador, BA – “Reuters” – Stanley Burch, Rio de Janeiro, RJ, 20 de agosto de 1942;
  • R.W, Dieppe at Doawn: The Story of the Dieppe Raid, 1956;
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