OBS: As imagens foram criadas com Inteligência Artificial para ilustrar o texto.
A tensão em Guanela e a melodia metálica dos estilhaços em Casa di Cristo revelam a face humana e solitária do fronte italiano vivido pela FEB.
A guerra possui uma sonoridade própria que não se limita ao estrugido das explosões ou ao sibilar das balas, pois nos Apeninos ela compunha uma música estranha e surreal. Na posição de Casa di Cristo, o ponto mais avançado de todo o dispositivo da Artilharia Divisionária naquelas montanhas geladas, o Tenente Helio Mendes conheceu uma sinfonia que parecia debochar do perigo. Era o inverno de 1944 e a paisagem branca e cinzenta servia de palco para um espetáculo onde a morte flertava com a ironia.
A rotina de fogo em Casa di Cristo obedecia a uma coreografia perigosa e calculada. Um pelotão de tanques recebera a missão de ocupar uma crista à retaguarda da linha de fogo brasileira. A ordem era clara e o jogo de gato e rato se repetia exaustivamente. Sempre que a bateria brasileira disparava, os tanques iniciavam seu próprio tiroteio imediatamente. O objetivo era mascarar o som dos canhões brasileiros e confundir a localização exata das peças para os observadores alemães. Assim que cessavam o fogo, os blindados deslocavam-se rapidamente pela crista para outra posição. A resposta alemã vinha na forma de bombardeios furiosos sobre o local onde os tanques estavam segundos antes, mas eles já haviam partido e deixavam para trás apenas a terra revolvida.
Durante esses duelos de artilharia, um fenômeno acústico transformava o horror em algo quase lírico. Paralelamente às posições das peças de artilharia, existiam postes de madeira que sustentavam fios de cobre desencapados de uma antiga linha de alta tensão desativada. Quando a contrabateria alemã tentava atingir os brasileiros e os tiros “encristavam”, explodindo nas elevações próximas que serviam de proteção, os estilhaços voavam e golpeavam aqueles fios suspensos. O impacto do metal contra o cobre tenso produzia um som vibrante e melódico, semelhante ao dedilhar de um instrumento de cordas gigante. No auge do bombardeio, enquanto a terra tremia e o cheiro de pólvora invadia os pulmões, aquele som ecoava pelo vale como se um grande violão tocasse um fundo musical para a batalha. Aquele concerto de aço e cobre marcou a memória dos homens ali entrincheirados.
Mas a guerra nos Apeninos não era feita apenas de sons, mas também de silêncios angustiantes e solidão. Antes de chegar a Casa di Cristo, o Tenente Mendes viveu o desamparo na posição de Guanela. Ele atuava temporariamente como substituto junto ao II Grupo de Artilharia e apoiava a 4ª Companhia do 11º Regimento de Infantaria. A rotina de substituição de tropas, que normalmente implicava na troca de posições homem a homem, falhou de maneira silenciosa e perigosa.
Houve um reajuste na frente de combate e a área de Guanela não foi incluída na ocupação pela nova tropa que chegava. Ao amanhecer do dia seguinte à saída da infantaria, o tenente percebeu que o silêncio ao redor era absoluto. Ele estava sozinho naquela imensidão hostil, acompanhado apenas de seus dois cabos, o radioperador e o telefonista. A infantaria partira e esquecera os olhos da artilharia para trás.
A situação exigia nervos de aço. Mendes alertou o Oficial de Ligação sobre o isolamento, mas a ordem que recebeu foi curta e seca: aguardar novas instruções na posição. O dia arrastou-se com uma lentidão torturante. Sem comida, sem água e sem qualquer apoio, o grupo permanecia vigiando o nada. Os cabos, inquietos, questionavam o oficial se nenhuma ordem havia chegado do Grupo. O tenente, mantendo a postura de comando, recusava-se a solicitar novamente a retirada. Ele temia que qualquer insistência fosse interpretada como medo ou covardia diante do inimigo. Preferia a fome e o risco a ter sua coragem questionada pelos superiores.
O perigo em Guanela era real e cronometrado. A posição, que já fora palco de destruição tanto por fogo amigo quanto inimigo, recebia a atenção metódica da artilharia alemã. Os alemães bombardeavam a área religiosamente a cada duas horas, sempre nas horas pares, castigando o solo e quem ousasse permanecer nele.
A noite caiu sobre as montanhas por volta das cinco da tarde, trazendo consigo a escuridão total e o frio intenso do inverno. Somente então o rádio crepitou com a ordem de abandonar Guanela. Mas a ordem tardia trazia novos perigos. Retrair no escuro, em um terreno onde as linhas de frente eram fluidas e formadas por núcleos de defesa isolados, era um convite ao desastre. O tenente não conhecia o novo dispositivo das tropas amigas e, pior ainda, desconhecia a senha do dia da infantaria para se identificar.
Caminhar naquelas condições significava correr o risco de topar com uma patrulha alemã ou, tragicamente, ser alvejado por uma sentinela brasileira nervosa. Diante do risco iminente, o oficial ponderou com o comando e decidiu que só se moveriam ao clarear do dia. A noite foi passada em claro, em vigília constante, tremendo de frio e tensão, aguardando a luz cinzenta da manhã para finalmente recolher o material e escapar daquela armadilha de silêncio e esquecimento.
Fonte: Historia Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial
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