Histórias da FEB: O Batismo de Fogo nos Apeninos

A história do soldado Vicente Pedroso da Cruz e seu batismo de fogo nos Apeninos. O erro de rota, o encontro na casa branca e a coragem sob fogo inimigo.


Vicente Pedroso da Cruz era apenas um rapaz de vinte e dois anos quando o mundo deixou de ser as colinas familiares de Guaxupé para se tornar uma cratera de vulcão extinto na Itália. Ali, no acampamento de Astronia, próximo a Nápoles, o soldado da 8ª Companhia do 6º Regimento de Infantaria teve seu primeiro encontro com a realidade brutal que o aguardava. Não foi o estrondo de um canhão nem o grito de um oficial que marcou aquele momento inicial. Foi o silêncio de capacetes de aço perfurados e estacas cravadas no chão, indicando onde outros homens, tão jovens quanto ele, haviam terminado seus dias. Aquele choque visual foi o fim da inocência e o início do amadurecimento forçado de quem precisa deixar de se espantar com o horror para conseguir sobreviver a ele.

A guerra, no entanto, não é feita apenas de tragédia imediata. Ela tem seus momentos de estranha normalidade e aprendizado. Antes de subir para a linha de frente, Vicente e seus companheiros passaram por Vada, onde as parreiras carregadas de uvas se misturavam às barracas militares. Foi lá que conheceram a figura de John Teixeira, um sargento americano de ascendência portuguesa que, com a sabedoria dos veteranos da África, ensinava a tropa a se portar em combate. Teixeira divertia os brasileiros com sua pronúncia peculiar, chamando as missões de reconhecimento de “petrolha”, o que arrancava risos da turma que perguntava se ele se referia a petróleo. Mas por trás da brincadeira linguística estava a instrução vital de quem sabia que a teoria da caserna não bastava para enfrentar a prática do front.

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Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial

O verdadeiro teste, aquele que os soldados chamam de batismo de fogo, veio nas proximidades de Camaiore. O pelotão de Vicente recebeu ordens para avançar e alcançar um ponto determinado no terreno acidentado dos Apeninos. A geografia italiana era um inimigo à parte, com suas elevações que subiam como degraus e terminavam em picos agudos, onde o barro e as pedras faziam os homens escorregarem a cada passo. Em meio a um silêncio inquietante e sob uma chuva intensa, o grupo cometeu um erro de navegação. Deveriam ter se mantido à direita, junto à 9ª Companhia, mas o vale quebrou para a esquerda e eles seguiram o fluxo do terreno, entrando sem saber na retaguarda alemã.

A cena que se seguiu parecia ter sido montada para um filme, mas era a realidade crua e perigosa do combate. Ao descerem, encontraram uma casa típica italiana, caiada de branco, com um picadeiro de pedras e uma castanheira no quintal. A tensão do momento foi brevemente quebrada por uma cena quase surreal: um soldado brasileiro encontrou um guarda-chuva italiano, com as cores branca, vermelha e verde, e começou a brincar com o objeto em meio à guerra. Na crista da elevação, vultos observavam de binóculos. A tropa brasileira, confundida pela geografia, imaginou que fossem os amigos da 9ª Companhia.

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Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial

O engano durou pouco. Os observadores na crista desapareceram repentinamente e a resposta veio em forma de chumbo. Um “vespeiro” de balas desabou sobre o telhado da casa branca e sobre os homens expostos no terreno. Não eram tiros comuns. Eram balas traçantes que riscavam o ar como um braseiro vivo, passando rente ao sargento Samuel, que tentava desesperadamente regular sua metralhadora. O susto foi terrível, paralisante para alguns, mas revelador para Vicente. Ali, sob o fogo inimigo, ele descobriu que o medo, quando controlado, é o pai da coragem.

Vicente não era um homem de pânico. Sua natureza o fazia observar tudo com uma calma analítica, uma característica que seus superiores, como o Capitão Lessa e o Tenente Gerson, logo notaram e passaram a valorizar. Enquanto o tiroteio comia solto, sua mente não vagava pelo terror, mas focava na sobrevivência e nos companheiros. Naquele batismo, a primeira vez que os alemães viam o uniforme verde-oliva dos brasileiros, diferente do cáqui americano, a sorte jogou a favor dos mineiros. Apesar da desvantagem tática e do erro de percurso, eles conseguiram recuar e se reorganizar.

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Aquele episódio na “casa bianca” foi apenas o início de uma longa jornada pelos Apeninos, onde o perigo tinha muitos nomes, desde o temido canhão 88mm alemão, que os instrutores alertavam com o sotaque “atente otanta oto”, até as minas traiçoeiras escondidas no solo. Mas foi ali, vendo o braseiro das traçantes cortar o céu cinzento da Itália, que o jovem de Guaxupé entendeu que sobreviver à guerra exigia mais do que apenas saber atirar. Exigia a frieza de aceitar o medo e a humanidade de se preocupar com quem estava ao lado, pois no front, o soldado não pensa em si mesmo, mas no amigo que não pode deixar na mão. Vicente voltou, trazendo consigo não apenas a Medalha de Campanha, mas a certeza de que havia cumprido seu dever mantendo-se, acima de tudo, um homem íntegro.

Fonte:  CRUZ, Vicente Pedroso da. Depoimento. In: História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial. Tomo 5. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2002.


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