O salto desesperado de Müller nas montanhas curdas

Na madrugada de 16 de junho de 1943, quatro homens da Abwehr saltaram de um quadrimotor Focke-Wulf Condor sobre as silhuetas irregulares do Curdistão iraquiano. O Tenente Gottfried Müller liderava a Operação Mammut, uma missão de sabotagem e insurreição destinada a incendiar os campos de petróleo de Kirkuk e unir as tribos curdas contra a presença britânica. O que deveria ser um golpe cirúrgico de inteligência alemã transformou-se, em poucos dias, em uma agonia física por terrenos que não aceitavam estrangeiros.

O impacto contra o solo pedregoso foi apenas o início da desintegração. O equipamento dispersou-se pelo vale. Rádios quebrados, recipientes de suprimentos perdidos no abismo e o silêncio opressor de uma terra que os britânicos já monitoravam com olhos atentos. Müller sentiu o peso do fracasso antes mesmo de disparar o primeiro tiro. A poeira entrava nos pulmões, o calor do dia fritava a pele e o frio da noite nas altitudes dos Zagros transformava o suor em uma camada de gelo sobre o uniforme. Não havia glória, apenas o ranger de dentes e a busca por oxigênio.

A marcha era um exercício de masoquismo. O grupo avançava por trilhas de cabras, com os pés inchados e as botas desintegrando-se nas rochas afiadas. Müller descreveria mais tarde a sensação de ser um animal caçado. O plano original de encontrar o líder nacionalista Mahmud Barzani tornou-se uma miragem. Em vez de um exército de rebeldes, encontraram pastores desconfiados e a sombra constante dos batedores da cavalaria britânica e da polícia local. A fome tornou-se uma presença física, uma dor aguda no estômago que nublava o julgamento tático.

O cansaço era absoluto. Os homens dormiam em pé, encostados em paredes de cavernas úmidas, segurando pistolas-metralhadoras MP40 com dedos trêmulos. A disciplina militar da Wehrmacht derretia sob o sol do deserto e a pressão psicológica de saber que o inimigo estava em todo lugar e em lugar nenhum. Müller via seus homens definharem. A pele tornava-se couro; os olhos, fendas injetadas de sangue. Cada subida era uma batalha contra a gravidade e o desespero.

A traição selou o destino da Mammut. Informantes locais, movidos por ouro britânico ou simples instinto de sobrevivência, entregaram a posição dos alemães. O cerco fechou-se em uma zona de desfiladeiros onde a retirada era impossível. Não houve um último combate épico de cinema. Houve a exaustão final. Quando os oficiais britânicos e os batedores curdos finalmente os cercaram, Müller e seus homens eram esqueletos cobertos de trapos cinzas, incapazes de sustentar o peso das próprias armas.

A captura trouxe um tipo diferente de tormento: o interrogatório e a percepção do isolamento total. Enquanto eram transportados para o Cairo, Müller olhava para as montanhas que quase o mataram. A Operação Mammut terminava não como um levante estratégico, mas como um registro de resistência humana levada ao limite do absurdo. O Curdistão permanecia imóvel, indiferente aos mapas e às ambições de Berlim, enquanto os restos da unidade de Müller eram engolidos pelo sistema prisional aliado.

A guerra no Oriente Médio, para aqueles quatro homens, não foi feita de grandes manobras de tanques, mas de sede, pedras e o som de botas arrastadas no silêncio do deserto. Gottfried Müller sobreviveu para narrar o caos, mas as cicatrizes daquelas semanas nas montanhas nunca abandonaram seu relato. Foi o fim de uma ilusão técnica alemã, esmagada pela realidade geográfica e pela eficiência brutal da inteligência adversária.


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Fonte

  • MÜLLER, Gottfried. Unternehmen Mammut: S-S-Einsatz Kurdistán 1943. Berlim: Arndt-Verlag, 1995.
  • FLEURY, Antoine. La Pénétration allemande au Moyen-Orient, 1919-1939. Genebra: Institut Universitaire de Hautes Études Internationales, 1977.
  • Arquivos do MI5: The German Intelligence Services in the Middle East during WWII. National Archives, Kew.

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