Al Schmid: o fuzileiro cego que continuou atirando em Guadalcanal

Na madrugada de 21 de agosto de 1942, a guerra no Pacífico ainda parecia favorecer o Japão. O império de Tóquio avançara da China às ilhas do sul, derrotando forças britânicas, holandesas, americanas e australianas. Guadalcanal, no arquipélago das Salomão, tornou-se o lugar onde essa confiança encontrou resistência. Dentro de uma posição feita com troncos, sacos de areia e folhagem, o soldado Albert Andrew Schmid, de 21 anos, descobriu quanto custaria manter aquela linha.

Schmid não era militar de carreira. Nascido em 20 de outubro de 1920, na Filadélfia, trabalhava como aprendiz na Dodge Steel Company. Dois dias depois do ataque japonês a Pearl Harbor, alistou-se no Corpo de Fuzileiros Navais. Treinou em Parris Island, na Carolina do Sul, e em New River, na Carolina do Norte. Foi incorporado à 11ª Esquadra de Metralhadoras da Companhia H, 2º Batalhão, 1º Regimento de Marines, da 1ª Divisão.

Em 7 de agosto de 1942, os americanos desembarcaram em Guadalcanal. Era a primeira grande ofensiva dos Estados Unidos contra o Japão. O objetivo imediato era capturar o campo de aviação que os japoneses construíam perto de Lunga Point. A pista, depois chamada Henderson Field, poderia ameaçar as rotas entre os Estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia. Para Washington, perder a ilha ampliaria a capacidade japonesa de isolamento estratégico no Pacífico Sul.

A resposta veio sob o comando do coronel Kiyonao Ichiki. Seu destacamento desembarcou a leste do perímetro americano e avançou em direção ao curso d’água que entrou na história como rio Tenaru, embora o combate tenha ocorrido junto ao Ilu, também conhecido como Alligator Creek. Ichiki acreditava enfrentar uma força pequena e desorganizada. Estava errado.

Na posição de Schmid havia uma metralhadora Browning M1917A1, calibre .30, refrigerada a água. A equipe era formada por Schmid, pelo cabo Leroy Diamond e pelo soldado de primeira classe John Rivers. Pouco depois das três da manhã, soldados japoneses avançaram pela faixa de areia e pelas margens do rio. Os fuzileiros esperaram até que entrassem no campo de tiro.

Rivers abriu fogo. A metralhadora atingiu a primeira concentração inimiga, mas a posição americana tornou-se um alvo evidente. Rajadas japonesas alcançaram o abrigo. Rivers foi morto. Schmid afastou o corpo do companheiro e assumiu a arma. Diamond passou a alimentá-la com cintas de munição e a indicar os alvos na escuridão.

O combate transformou-se numa operação quase mecânica. Disparar, trocar a cinta, controlar o superaquecimento e voltar a disparar. Diamond foi ferido no braço e perdeu a capacidade de carregar a arma normalmente. Schmid passou a executar mais de uma função. O reservatório de água da Browning foi perfurado. Mesmo assim, a metralhadora continuou funcionando.

Durante mais de quatro horas, os três homens, primeiro juntos e depois reduzidos a dois feridos, sustentaram aquele setor. A cifra tradicional de cerca de 200 japoneses mortos diante da posição foi atribuída ao grupo e depois associada sobretudo a Schmid. Não existe contagem individual capaz de transformar esse número em precisão matemática. Os documentos confirmam, porém, que a resistência da equipe ajudou a impedir a ruptura do perímetro.

Uma granada japonesa explodiu dentro ou junto ao abrigo. Fragmentos atingiram o rosto, o ombro, o braço e a mão de Schmid. Um olho foi destruído e o outro sofreu graves danos. Incapaz de enxergar, ele voltou à metralhadora. Diamond, também ferido, orientava os disparos pela voz e pelo toque.

A história parece ultrapassar o limite do provável, mas está registrada em relatos contemporâneos e estudos posteriores. Schmid continuou atirando sem visão enquanto a ofensiva japonesa perdia força. Ao amanhecer, unidades americanas contra-atacaram pelos flancos. O primeiro escalão do destacamento Ichiki foi praticamente destruído. A tentativa inicial de recuperar Henderson Field terminara em derrota.

Schmid foi retirado numa manta e levado para tratamento. Em 20 de outubro de 1942, chegou ao Hospital Naval de San Diego, onde passou por operações para remover fragmentos e preservar alguma visão. Em 18 de fevereiro de 1943, recebeu a Navy Cross por heroísmo extraordinário e devoção ao dever. Rivers e Diamond também foram condecorados.

A guerra, porém, não terminou quando Schmid deixou Guadalcanal. Ele precisou aprender a viver com cicatrizes e deficiência visual. Ruth Hartley, sua noiva, recusou a ideia de abandoná-lo. Os dois se casaram em abril de 1943. Sua experiência foi publicada por Roger Butterfield no livro Al Schmid, Marine, de 1944, e chegou ao cinema em 1945 com Pride of the Marines, estrelado por John Garfield.

Por trás da propaganda havia um homem que não se reconhecia na palavra herói. Schmid recuperou pequena parcela da visão em um olho, participou de campanhas públicas e foi dispensado honrosamente em dezembro de 1944. Morreu de câncer ósseo em dezembro de 1982 e foi sepultado no Cemitério Nacional de Arlington. Sua história permanece ligada àquela madrugada em Guadalcanal, quando três fuzileiros e uma posição improvisada ajudaram a deter um ataque que o comando japonês acreditava ser fácil.


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