Soldados Japoneses por Eles Mesmos — O último homem em guerra: Hiroo Onoda em Lubang

A partir de hoje, todos os domingos, às 11h, abrimos os diários da guerra pelo olhar de quem esteve lá. Em ‘Soldados Japoneses por Eles Mesmos’, relatos, cartas e memórias expõem disciplina, medo, honra e contradições do Exército Imperial. Sem folclore: só voz original, contexto histórico e humanidade para compreender o Japão em combate. E não podiamos deixar de começar essa série com a incrivel história do Tenente Hiroo Onoda


O Tenente Hiroo Onoda, oficial de inteligência do Exército Imperial Japonês, permaneceu em seu posto de combate na Ilha de Lubang, nas Filipinas, entre dezembro de 1944 e março de 1974. Designado pela Divisão 14 para coordenar táticas de guerrilha e sabotagem contra as forças aliadas, Onoda recusou-se a aceitar a capitulação de seu país, mantendo-se operacional nas montanhas por vinte e nove anos após o cessar-fogo oficial.

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Tenente Hiroo Onoda jovem correndo agachado através de lama densa na selva tropical de Lubang

A luz do sol em Lubang não aquece; ela revela o que deveria permanecer oculto. Quando o Major Yoshimi Taniguchi entregou as ordens finais a Onoda no final de 1944, as palavras foram definitivas: “Você está proibido de morrer pelas suas próprias mãos. Pode levar três anos, pode levar cinco, mas aconteça o que acontecer, nós voltaremos por você”. Para um homem formado na escola de inteligência de Nakano, a palavra de um superior não era um conselho, mas a própria estrutura da realidade. O Japão poderia arder, mas a ordem permanecia cristalizada no tempo.

Onoda não estava sozinho inicialmente. Ele tinha a companhia do Cabo Shimada e dos soldados Totsuka e Akatsu. O grupo vivia da palha, do coco, do roubo ocasional de gado e da vigilância constante. Eles observavam as movimentações no porto, anotavam voos e esperavam pelo contra-ataque imperial que, na mente deles, era iminente. O tempo na selva possui uma cadência diferente. Não se conta por meses, mas pela regeneração da folhagem e pelo desgaste do couro das botas.

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Onoda e três soldados (Shimada, Totsuka, Akatsu) movendo-se taticamente em fila indiana por uma crista de montanha

A deserção de Akatsu em 1949 e as mortes subsequentes de seus outros companheiros em escaramuças com a polícia local deixaram Onoda em um isolamento absoluto. O silêncio da floresta tornou-se seu único confidente. Ele encontrou panfletos deixados por aviões, leu jornais jogados por equipes de busca e ouviu transmissões de rádio que falavam de um Japão reconstruído, tecnológico e pacífico. Onoda interpretou tudo como sofisticada propaganda inimiga. Para ele, a guerra não havia terminado; ela apenas havia se tornado mais sutil, exigindo uma disciplina ainda mais feroz para não ser enganado pelas aparências de uma paz ilusória.

Existe uma dignidade austera em manter um fuzil Arisaka limpo quando não há mais generais para inspecioná-lo. Onoda polia cada peça, contava cada cartucho e remendava seu uniforme com fibras de casca de árvore. Sua guerra era técnica. Ele movia seu acampamento conforme as estações, evitava deixar rastros e mantinha um diário de observações militares. A impermanência das coisas, o conceito japonês de mono no aware, manifestava-se naquelas montanhas: o império havia caído, os deuses haviam silenciado, mas o Tenente continuava a ser o império em um exército de um homem só.

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Mãos calejadas e cicatrizadas de Onoda desmontando o ferrolho do fuzil Arisaka sobre uma pedra musgosa.

Em 1974, um jovem viajante japonês chamado Norio Suzuki decidiu que encontraria “o Tenente Onoda, um panda e o Abominável Homem das Neves”, nesta ordem. Suzuki encontrou Onoda na densa vegetação de Lubang. Diante do jovem de camiseta e meias, o oficial não baixou a guarda. Ele não aceitaria o fim do mundo por meio de um estranho. Onoda exigiu a presença de seu superior imediato. Ele precisava que o fio da obediência fosse cortado pela mesma mão que o havia atado.

O governo japonês localizou o Major Taniguchi, que agora trabalhava em uma livraria. O antigo oficial viajou até Lubang, vestiu seu traje militar e, em um encontro que desafia a lógica do século XX, leu a ordem de desmobilização. Onoda saudou a bandeira, entregou sua espada samurai, seu fuzil e seus últimos cartuchos. Não houve lágrimas imediatas, apenas o reconhecimento de que o tempo, finalmente, o havia alcançado.

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Onoda idoso (50 anos) em postura rígida de saudação militar perfeita

Ao retornar ao Japão, Onoda encontrou um país que ele não reconhecia. O lirismo trágico de sua existência residia no fato de que ele guardou um templo cujos deuses haviam partido há décadas. Ele não era um herói no sentido moderno, nem um vilão; era um remanescente de uma era onde a vontade era fundida em aço. Sua resistência não foi um ato de ódio contra as Filipinas, mas um ato de fidelidade a um conceito de dever que o mundo moderno considerava extinto.

A selva de Lubang guardou seus segredos por trinta anos. Onoda trouxe consigo a disciplina de um fantasma. Ele viveu o resto de seus dias tentando conciliar o silêncio das montanhas com o ruído de Tóquio, descobrindo que, às vezes, a parte mais difícil de uma guerra não é travá-la, mas aceitar que ela se tornou desnecessária. Ele morreu em 2014, levando consigo a última sombra de um Japão que se recusou a anoitecer.


Acompanhe a série: todo domingo, 11h, um novo relato.
Episódio 02: Shoichi Yokoi — isolamento extremo em Guam.

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