A BESTA BELA DE RAVENSBRÜCK: O Rosto Feminino do Terror Nazista

Nem sempre iremos abordar sobre heroínas ou a superação das mulheres; também temos que contar o lado ruim e a face cruel da humanidade. Este texto buscou expor a transformação de uma jovem camponesa alemã em uma das mais sádicas guardiãs da história. Para acessar mais documentos sobre Dorothea Binz e entender o sofrimento silencioso de 132 mil mulheres à beira do lago Schwedtsee.


O lago Schwedtsee reflete um céu cinzento e indiferente no norte da Alemanha. A noventa quilômetros de Berlim, a paisagem bucólica esconde cicatrizes que a terra jamais conseguirá digerir completamente. Foi neste cenário de falsa tranquilidade, que a humanidade tropeçou e caiu de joelhos. Ravensbrück não era apenas um ponto no mapa; era o epicentro de um inferno particular, desenhado exclusivamente para mulheres. E entre os barracões superlotados e o cheiro constante de cinzas, caminhava uma figura que desafiava a compreensão. Ela não era um monstro de contos de fadas, mas uma jovem de carne e osso. Seu nome era Dorothea Binz.

Nascida em 1920, em Duster Lake, Dorothea cresceu entre as árvores da Brandemburgo florestal. Filha de um técnico florestal, sua infância cheirava a pinho e terra úmida, longe das trincheiras da Grande Guerra que haviam marcado a geração anterior. Nada em seus primeiros anos, passados sob a tutela de uma mãe que cuidava de viveiros, sugeria o abismo que ela se tornaria. No entanto, a Alemanha ao seu redor mudava. A retórica do ódio infiltrava-se nas escolas, substituindo o pensamento crítico pela obediência cega. Aos treze anos, ela viu Hitler ascender; aos dezoito, seu compasso moral já apontava para o norte magnético da suástica.

187897319_5db22b6d-0061-4e92-a49a-409e2d0b4079-1-300x300 A BESTA BELA DE RAVENSBRÜCK: O Rosto Feminino do Terror Nazista

O verão de 1939 trouxe o calor e a guerra. Enquanto a Europa prendia a respiração, Dorothea tomou uma decisão pragmática que selaria o destino de milhares. Recusando-se a sujar as mãos de graxa nas fábricas de munição, ela buscou emprego nas cozinhas de um novo campo de detenção. Não havia vagas na cozinha. Havia, contudo, uma vaga para vigiar seres humanos. Aos dezenove anos, ela vestiu o uniforme.

A transformação foi visual e visceral. A garota da floresta aprendeu a arte da crueldade com mentoras como Maria Mandl. O que começou com a vigilância de detentas na lavanderia ou na quebra de pedras evoluiu para algo muito mais sinistro. Em 1940, ela já detinha as chaves do “Bunker”, a prisão dentro da prisão, um bloco de celas onde a luz do sol era proibida e os gritos eram a única música. Ali, a tortura deixou de ser uma ferramenta de disciplina para se tornar um passatempo.

As sobreviventes descrevem Binz não apenas como uma carcereira, mas como uma presença espectral. Ela percorria o campo com um pastor alemão treinado para rasgar carne humana. Uma mulher exausta cai durante o trabalho forçado; Binz não a levanta. Ela dá o comando. O cão ataca. A poeira sobe, misturada ao sangue, enquanto a supervisora observa com um distanciamento gélido, como se estivesse avaliando a poda de uma árvore.

Há relatos que desafiam o estômago. Dagmar Hájková, uma sobrevivente tcheca, narra o dia em que Binz, insatisfeita com o ritmo de trabalho de uma prisioneira, a derrubou com um tapa. Não satisfeita, tomou um machado. O som do metal contra o osso ecoou pelo pátio. Depois, a supervisora limpou suas botas nas vestes da morta, montou em sua bicicleta e pedalou para longe, a saia balançando ao vento como se fosse um domingo no parque.

A perversidade de Binz encontrou um parceiro em Edmund Bräuning, oficial da SS. Juntos, eles formaram um casal moldado na aberração. Passeavam de braços dados pelo campo, trocando carícias enquanto assistiam ao açoitamento de mulheres despidas no cavalete de tortura. O sofrimento alheio era o cenário de seu romance; os gritos, a trilha sonora de seus encontros. Essa desconexão completa da realidade, a capacidade de jantar romanticamente após espancar um ser humano até a morte, ilustra a fragmentação psíquica exigida pelo regime.

5fa52edf3a110-1-219x300 A BESTA BELA DE RAVENSBRÜCK: O Rosto Feminino do Terror Nazista

O campo de Ravensbrück viu passar 132 mil mulheres. Polonesas, russas, judias, francesas. Mais de 90 mil não voltaram. Elas morreram de tifo, de fome, de frio nos intermináveis apelos matinais onde ficavam horas estáticas sob a neve. Morreram nas câmaras de gás improvisadas em 1945, para as quais Binz, agora promovida e temida, selecionava as vítimas com um movimento de dedo. O “tratamento especial”, eufemismo burocrático para assassinato, era distribuído por ela com a eficiência de quem carimba formulários.

Mas a máquina de guerra nazista começou a engasgar. Em 1945, com o Exército Vermelho marchando no horizonte e os bombardeiros aliados rasgando o céu, o medo mudou de lado. Dorothea Binz, a mulher que se portava como uma deusa da morte, despiu o uniforme. Tentou desaparecer. Fugiu para Hamburgo, misturando-se à massa de refugiados, uma civil qualquer em meio aos escombros de um império falido.

A justiça, no entanto, tem uma memória longa. Em 3 de maio de 1945, soldados britânicos a capturaram. Reconhecida por ex-prisioneiras, a máscara de anonimato caiu. O Julgamento de Ravensbrück, iniciado em dezembro de 1946 em Hamburgo, trouxe à luz os horrores que ela tentara enterrar.

No banco dos réus, Binz manteve a postura fria. Negou os assassinatos. Admitiu, com uma arrogância desconcertante, ter distribuído “apenas uns tapas” para manter a ordem. Quando questionada sobre a brutalidade, respondeu que as prisioneiras preferiam apanhar a ficar sem comida. Uma lógica distorcida de quem já não pertencia à raça humana. As testemunhas, porém, eram implacáveis. Mulheres com os corpos marcados e as almas feridas apontaram para ela, descrevendo o sadismo, o cão, as seleções, o riso durante as torturas.

A sentença foi inevitável: morte por enforcamento. O pedido de clemência, alegando sua juventude e a lavagem cerebral nazista, foi rejeitado. A realidade finalmente perfurou sua armadura de indiferença quando, de volta à cela, ela tentou cortar os pulsos. O medo da forca era maior que sua lealdade à ideologia. Os médicos a salvaram apenas para que a justiça pudesse ser cumprida.

Em 2 de maio de 1947, na prisão de Hameln, o carrasco britânico Albert Pierrepoint aguardava. Dorothea Binz, com 27 anos, caminhou para a forca sem dizer as últimas palavras. O capuz preto cobriu seu rosto. O alçapão se abriu. A corda esticou.

O corpo foi sepultado anonimamente, sem lápide, no pátio da prisão. Não houve luto. Apenas o silêncio. Hoje, Ravensbrück é um memorial. As cinzas foram varridas, mas a memória permanece impregnada nas pedras e no lago. A história de Binz serve como um alerta perpétuo: o mal não precisa de garras ou presas; ele pode ter o rosto de uma jovem comum, moldada pelo ódio e pela indiferença, capaz de transformar o sofrimento alheio em rotina.


Descubra mais sobre Portal Segunda Guerra Brasil

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta