A Geopolítica do Estanho e o Massacre de Catavi

A estabilidade da cadeia de suprimentos aliada exigiu sacrifícios brutais nos Andes. A aliança entre Washington e os Barões do Estanho revela a face fria da estratégia militar global onde o preço do minério valia mais que vidas.


A guerra moderna é voraz e não se alimenta apenas de pólvora ou homens. Ela exige matérias-primas que sustentem a complexa engrenagem industrial das potências beligerantes. Quando o Japão consolidou seu domínio sobre o Sudeste Asiático no início de 1942, cortando o acesso dos Aliados às reservas de estanho da Malásia e das Índias Orientais Holandesas, o tabuleiro geopolítico sofreu um abalo sísmico silencioso. O estanho não servia apenas para enlatar a comida dos soldados no front. Ele era essencial para ligas metálicas, soldas de equipamentos de rádio e componentes de motores. Sem esse minério a máquina de guerra americana travaria. Nesse vácuo de oferta os olhos de Washington se voltaram para o único lugar capaz de manter a indústria bélica operante: as altas montanhas da Bolívia.

A Bolívia da década de 1940 não era um Estado soberano no sentido prático do termo. O país funcionava como uma “company town” em escala nacional controlada por três famílias que detinham o monopólio da mineração. Eram os chamados “Barões do Estanho”: Simón Iturri Patiño, Moritz Hochschild e Carlos Víctor Aramayo. Patiño, o mais poderoso deles, vivia na Europa e operava seus negócios com uma lógica supranacional. Para esses magnatas a guerra era uma oportunidade de mercado e não uma cruzada moral. Inicialmente eles vendiam para quem pagasse melhor e isso incluía flertes comerciais com as potências do Eixo antes da consolidação do bloqueio aliado.

Aqui entra a racionalidade fria da estratégia americana. Os Estados Unidos precisavam garantir o monopólio da produção boliviana a um preço fixo e estável. Não podiam permitir flutuações de mercado ou interrupções políticas. O governo de Franklin D. Roosevelt, através da Metals Reserve Company, pressionou o governo boliviano do General Enrique Peñaranda a assinar contratos de exclusividade. O preço estipulado foi de aproximadamente 48 centavos e meio de dólar por libra-peso. Era um valor baixo considerando a demanda inflacionada pela guerra. Washington sabia que estava pagando pouco, mas a lógica era clara: maximizar recursos com o menor custo financeiro possível.

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Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial

Essa decisão macroeconômica teve um efeito cascata devastador na ponta mais fraca da cadeia. Os Barões do Estanho aceitaram o preço fixo americano mas recusaram-se a reduzir suas margens de lucro. A única variável ajustável na equação eram os custos trabalhistas. Nas minas de Catavi e Siglo XX, situadas a milhares de metros de altitude, os mineiros viviam em condições sub-humanas. A inflação na Bolívia disparava devido à escassez de produtos importados mas os salários permaneciam congelados para garantir o “preço de guerra” do minério. O sindicato dos mineiros, liderado por figuras que começavam a se aproximar do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), exigiu um aumento salarial de 100% no final de 1942.

A resposta não foi econômica. Foi militar. O General Peñaranda, agindo como um gerente local dos interesses combinados da oligarquia mineira e do Departamento de Estado americano, declarou que as greves eram atos de sabotagem nazista. Essa narrativa era conveniente e foi amplamente aceita pelos diplomatas americanos em La Paz. Rotular a demanda por pão como uma conspiração do Eixo legitimava o uso da força máxima. O governo americano, temendo qualquer interrupção no fluxo de estanho, enviou sinais claros de que a “ordem” precisava ser mantida a qualquer custo.

Em dezembro de 1942 a tensão atingiu o ponto de ruptura. Os mineiros de Catavi entraram em greve. A administração da mina, controlada pela empresa de Patiño, fechou os armazéns da empresa (pulperías), cortando o acesso dos trabalhadores à comida. O exército boliviano, comandado pelo Coronel Cuenca, cercou os acampamentos mineiros. Não houve negociação real. A ordem era quebrar a espinha dorsal do movimento operário para garantir que os carregamentos para as fundições no Texas e na Grã-Bretanha não atrasassem um único dia.

No dia 21 de dezembro de 1942 ocorreu o inevitável. Nas planícies áridas ao redor do complexo de Catavi, milhares de homens, mulheres e crianças marcharam para exigir negociações. As tropas do governo, posicionadas estrategicamente com metralhadoras e morteiros, abriram fogo contra a multidão desarmada. O número exato de mortos permanece uma incógnita estatística, variando entre dezenas e centenas, mas o evento entrou para a história como o Massacre de Catavi. Entre os mortos estava María Barzola, uma líder que marchava à frente com a bandeira boliviana e cujo nome batizaria o campo onde o sangue foi derramado.

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A análise estratégica deste evento revela a natureza paradoxal da “guerra pela democracia”. Para derrotar o totalitarismo na Europa e no Pacífico, os Aliados financiaram e sustentaram a repressão autoritária na América do Sul. O massacre garantiu que o preço do estanho permanecesse baixo até o final do conflito. O fluxo de minério continuou e as fábricas de Detroit e Birmingham não pararam. No entanto o custo político foi o colapso da legitimidade da velha ordem liberal na Bolívia. O ressentimento gerado em Catavi alimentou o nacionalismo que derrubaria Peñaranda em 1943 e culminaria na Revolução Nacional de 1952. A eficiência logística da guerra teve um preço pago em sangue andino.


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