Era uma noite de agosto. O calendário marcava o dia trinta e um do ano de mil novecentos e trinta e nove. O mundo, alheio ao que se passava nos bastidores sombrios do poder, dormia seus últimos instantes de uma paz frágil. Mas, na escuridão daquela noite, uma senha sinistra ecoou pelas linhas telefônicas secretas do comando nazista. Uma frase curta. Banal. Mas carregada de morte: “A avó morreu”.
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Esta foi a ordem. O gatilho para o abismo.
Quem estava por trás dessa trama macabra? Nos arquivos da história, surge um nome que personifica a audácia e a falta de escrúpulos do regime que mergulharia o planeta em sangue. Alfred Helmut Naujocks. Ele não era um general de cabelos brancos debruçado sobre mapas. Era jovem. Um ex-estudante de filosofia que havia abandonado a lógica dos pensadores para abraçar o fanatismo da SS e a brutalidade da polícia secreta. Naujocks era o homem de confiança para o trabalho sujo. Um aventureiro que a Gestapo acionava quando a realidade precisava ser distorcida à força.
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| Alfred Helmut Naujocks |
A missão dele naquela noite não era combater. Era encenar.
Semanas antes, a decisão já havia sido tomada em gabinetes fechados. Adolf Hitler queria a guerra. A Polônia era o alvo. Mas o Führer precisava de uma justificativa. Precisava de um motivo que, aos olhos da opinião pública, transformasse a agressão em defesa. Ele encarregou Heinrich Himmler de criar esse pretexto. Himmler, por sua vez, passou a tarefa a Heydrich. E Heydrich escolheu Naujocks.
O plano recebeu o nome de “Operação Himmler”. O objetivo? Simular um ataque polonês contra a Alemanha.
Naquela noite fatídica, Naujocks e seu grupo de homens da SS moveram-se pelas sombras nos arredores de Gleiwitz, uma localidade a poucos quilômetros da fronteira. Eles não vestiam seus uniformes negros. Estavam disfarçados. Vestiam uniformes do exército polonês e portavam armas falsas ou capturadas. Eram atores em um palco de horror.
O alvo era a estação de rádio local.
Eles aguardaram em seu esconderijo. O tempo passava lento. A tensão no ar era palpável. Até que o telefone tocou. Era Heydrich. A voz do comando. A senha foi dita. “A avó morreu”. A farsa deveria começar.
Com a precisão de um relógio, os falsos soldados polacos invadiram a emissora. Gritaram. Fizeram barulho. Ameaçaram os funcionários com suas armas em punho. O objetivo era claro: tomar o microfone. Em meio ao caos planejado, uma voz leu uma mensagem em polonês. Palavras hostis. Um discurso inflamado contra a Alemanha. Uma declaração de guerra forjada para ser ouvida por quem sintonizasse a frequência naquele momento.
Mas para que a mentira fosse perfeita, o cenário precisava de sangue. O realismo exigia vítimas.
E aqui a história revela sua face mais cruel. Segundo os relatos preservados, a encenação não poupou vidas. Para convencer o mundo de que aquilo era um ataque real, os invasores não hesitaram em abrir fogo. Cidadãos alemães, pessoas comuns que, em sua inocência e boa-fé, tentaram reagir ou se defender daqueles que acreditavam ser invasores estrangeiros, foram abatidos. Seus corpos ficaram ali. Estendidos no chão frio da estação. Eram a prova macabra que Hitler desejava. Cadáveres usados como peças de um jogo político perverso.
A missão estava cumprida. Naujocks e seus homens, após semearem a morte e a mentira, desapareceram na noite, fingindo uma fuga em direção à fronteira polonesa.
Horas depois, a máquina de propaganda entrou em ação. De Berlim, a voz de Adolf Hitler trovejou pelo rádio para milhões de ouvintes. Ele anunciou que tropas regulares polonesas haviam violado o território sagrado do Reich. Disse que o fogo havia sido aberto. E, com o cinismo dos tiranos, proclamou que a Alemanha, desde as quatro e quarenta e cinco da manhã, estava apenas “respondendo ao ataque”.
Era mentira.
Mas foi uma mentira que mobilizou cinquenta e oito divisões. Foi a mentira que fez os bombardeiros Stukas levantarem voo na madrugada de primeiro de setembro. Foi a mentira que lançou os tanques Panzer contra uma Polônia que, em sua ingenuidade patriótica, acreditava poder vencer.
O que aconteceu em Gleiwitz não foi uma escaramuça. Foi o primeiro ato de uma tragédia que consumiria milhões de vidas. Naujocks, o ex-filósofo transformado em executor, foi apenas o instrumento. Mas o sangue derramado naquela estação de rádio manchou para sempre a história da humanidade.
Hoje, ao olharmos para trás, para aquela noite de agosto de 1939, restam o silêncio das vítimas e a frieza dos documentos. Resta a memória de como a verdade foi assassinada antes mesmo do primeiro soldado cair no front. E diante de tudo isso, fica a pergunta que ecoa através das décadas, a pergunta que não quer calar:
“Como uma única mentira, forjada na escuridão de uma noite de agosto, condenou 50 milhões de pessoas à morte?”
Fonte: Crônica Militar e Politica da Segunda Guerra Mundial
OBS: Imagens criadas com Inteligência Artificial
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