O Pequeno Gigante nos Campos de Sangue

Nas alturas vertiginosas da Eritreia, a Batalha de Keren definiu o destino do império de Mussolini. Um relato visceral sobre a resistência italiana e o heroísmo das tropas indianas em um dos confrontos mais brutais e esquecidos da Segunda Guerra Mundial.


O sol da Eritreia não nasce; ele ataca. Em fevereiro de 1941, aquela luz branca e impiedosa revelava aos soldados do Império Britânico uma visão que desafiava a lógica militar. À frente deles, erguia-se um anfiteatro natural de picos de granito, onde a cidade de Keren repousava como uma fortaleza protegida por deuses antigos. Não havia flancos para contornar. Não havia espaço para a manobra elegante de tanques. Restava apenas a subida vertical contra um inimigo que, do alto, observava cada movimento com a paciência dos carrascos.

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Mussolini acreditava que o destino do seu novo Império Romano seria decidido nas areias do Egito, mas foi naquelas cristas desoladas que a realidade desmoronou. Os italianos, tantas vezes ridicularizados pela propaganda britânica como combatentes relutantes, lutavam ali com uma ferocidade desesperada. Sob o comando do General Carnimeo, os batalhões de Bersaglieri e os Granadeiros da Saboia transformaram cada fenda na rocha em um ninho de metralhadora. Eles sabiam que, se Keren caísse, a estrada para Asmara e o porto de Massaua estaria escancarada.

O cheiro no vale era uma mistura nauseante de suor, mulas mortas e o odor metálico de sangue seco sob o calor de quarenta graus. Para os homens da 4ª e 5ª Divisões de Infantaria Indiana, a guerra tinha se tornado uma questão de polegadas. Esses soldados, recrutados nas planícies do Punjab e nas colinas do Nepal, carregavam o peso da ofensiva britânica. Eles escalavam as encostas de Sanchil e Brig’s Peak sob uma chuva constante de granadas de mão. As granadas italianas “Red Devils” não apenas matavam; elas mutilavam com estilhaços que ricocheteavam nas rochas, multiplicando o horror de cada explosão.

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A logística era um pesadelo de ferro e couro. Cada gota de água, cada cartucho de munição e cada fardo de provisões precisava ser carregado encosta acima por homens e mulas, muitas vezes sob fogo direto. À noite, o frio das montanhas substituía o calor do dia, e os feridos, presos em saliências estreitas, gritavam por socorro que raramente chegava a tempo. O silêncio da escuridão era periodicamente quebrado pelo clarão das explosões e pelo som seco das baionetas batendo no metal.

Em março, o impasse parecia eterno. O comando britânico, sob o General Platt, percebeu que a força bruta não seria suficiente. Era necessário um golpe psicológico e tático no ponto de articulação das defesas italianas: o desfiladeiro de Dongolaas. O bombardeio preparatório foi um dos mais intensos vistos fora do teatro europeu até então. O estrondo da artilharia ecoava pelas gargantas das montanhas como um trovão contínuo, cobrindo Keren com uma mortalha de poeira cinzenta e fumaça de cordite.

Os homens da 11ª Brigada Indiana avançaram pelo desfiladeiro, movendo-se entre carcaças de veículos e rochas estilhaçadas. A resistência era fanática. Soldados eritreus, leais aos seus oficiais italianos, lutavam com uma bravura que forçava o respeito até dos mais céticos generais britânicos. Não era uma guerra de ideologias abstratas naquele momento; era uma luta primitiva pela sobrevivência em um terreno que rejeitava a vida humana. O som das lagartas dos tanques Matilda, tentando manobrar nas estradas bloqueadas por escombros, rangia como dentes mastigando ossos.

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O ponto de ruptura finalmente veio após cinquenta e três dias de cerco. A exaustão física e a falta de suprimentos começaram a dobrar a vontade italiana. Quando as tropas imperiais finalmente romperam as defesas no desfiladeiro e os tanques começaram a subir a estrada sinuosa em direção à cidade, o moral dos defensores colapsou. A visão das bandeiras brancas surgindo entre as ruínas de Keren não trouxe celebração imediata, apenas um profundo e pesado alívio.

Keren foi uma carnificina silenciosa que a história oficial muitas vezes prefere ignorar em favor das glórias de El Alamein. No entanto, as perdas foram assustadoras. Os italianos sofreram mais de dez mil baixas, enquanto as forças britânicas e indianas deixaram milhares de seus melhores homens naquelas encostas malditas. A vitória em Keren destruiu a presença italiana na África Oriental, eliminando a ameaça ao Mar Vermelho e permitindo que Churchill respirasse, sabendo que as rotas de suprimento para o Egito estavam seguras.

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Caminhar hoje por aquelas montanhas é sentir o peso daquele esforço colossal. As marcas de balas ainda estão gravadas no granito, e os restos de fortificações de pedra permanecem como cicatrizes na paisagem. Aqueles que lutaram ali não o fizeram por glória barata, mas porque as ordens os colocaram contra a geografia mais hostil do mundo. Keren permanece como um monumento à tenacidade do soldado de infantaria, aquele homem comum que, carregando trinta quilos nas costas, é forçado a conquistar o impossível.

O triunfo foi amargo. Quando as tropas entraram na cidade, encontraram um lugar fantasmagórico, onde o cheiro da morte ainda pairava nos pátios das casas de estilo colonial. A vitória não tinha o brilho das paradas em Londres ou Roma; tinha o gosto de poeira e o silêncio dos cemitérios que rapidamente brotaram na base das montanhas. A guerra seguiria seu curso sangrento em outros fronts, mas para os homens que sobreviveram a Keren, nenhuma outra batalha jamais seria tão pessoal, tão vertical e tão cruel.


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Fontes e Bibliografia

  • BEEVOR, Antony. A Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Record, 2012.
  • PLAYFAIR, I. S. O. The Mediterranean and Middle East: The Early Successes Against Italy. London: HMSO, 1954. (Official History of the Second World War).
  • MACKSEY, Kenneth. Keren 1941: The Battle for the Gateway to Asmara. London: Cassell, 1970.
  • National Archives (UK): War Diaries of the 4th and 5th Indian Divisions, East African Campaign (1940-1941).
  • Archivio Storico Diplomatico: Relatórios do Comando Supremo das Forças Armadas na África Oriental Italiana (AOI).

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