Histórias da FEB: O dia em que o tenente morreu de medo

OBS: Os nomes reais foram omitidos para preservar a identidade dos envolvidos.

O Tenente A. A. C. L. recebeu sua primeira missão real de combate no Vale do Serchio, na Itália, durante o inverno de 1944, com a ordem expressa de restabelecer as comunicações telefônicas em uma ponte sob bombardeio. O oficial de transmissões do 6º Regimento de Infantaria precisava garantir que o fluxo de ordens não fosse interrompido pelas explosões que castigavam a geografia acidentada dos Apeninos. Aquele dia marcaria sua memória não pelo heroísmo de folhetim, mas pela descoberta física e brutal do medo.

A geografia do perigo

O cenário operacional da Força Expedicionária Brasileira naquelas semanas era o Vale do Rio Serchio. A região apresentava um desafio técnico imediato para as equipes de transmissão. O terreno montanhoso e as ravinas profundas bloqueavam as ondas de rádio e tornavam a comunicação sem fio ineficaz e instável. A guerra ali dependia do fio.

O comando precisava de linhas físicas estendidas por quilômetros de terra irregular para coordenar os movimentos da tropa. O Tenente e seus homens carregavam a responsabilidade de manter esse sistema nervoso do exército funcionando. Quando a artilharia alemã cortava um fio, a infantaria ficava cega e surda. Era preciso ir lá fora e emendar o cobre, independentemente do que estivesse caindo do céu.

O som da artilharia no vale

A ordem chegou de forma direta. O sistema telefônico precisava passar por uma ponte específica que havia se tornado alvo prioritário dos observadores avançados alemães. As granadas de artilharia explodiam com regularidade matemática sobre a estrutura e seus arredores.

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O Tenente deslocou-se para a zona de impacto. Ao se aproximar da ponte, o som das explosões mudou. Deixou de ser um ruído distante de batalha para se tornar uma presença física que sacudia o chão. Ele precisava entrar na vegetação densa ao lado da via para puxar a linha e fazer a conexão necessária.

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O tenente entrou no mato sozinho naquele momento. Foi ali, longe dos olhos de seus comandados e protegido apenas pela folhagem rala, que a realidade da guerra atingiu seu sistema nervoso. Ele ouvia o zunido dos estilhaços cortando as folhas ao seu redor. O metal rasgava a vegetação com uma violência que antecipava o que faria com a carne humana.

A reação incontrolável do corpo

O relato do oficial sobre aquele momento ignora a bravata comum aos contos militares. Ele descreve uma reação fisiológica que sua mente não conseguia dominar. Suas pernas começaram a tremer. A tremedeira era tão intensa e descontrolada que ele mal conseguia se manter de pé.

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O “frio na barriga” descrito por ele não era uma metáfora para ansiedade, mas uma sensação visceral de pânico. Ele estava vivendo o que os veteranos chamam de batismo de fogo. A consciência da morte iminente paralisava os músculos enquanto o dever exigia movimento. Ele estava apavorado.

No meio daquele bombardeio, algo caiu próximo a ele. Um pedaço irregular de aço, recém-saído da carcaça de uma granada detonada. Alexandrino olhou para o objeto. Ele se abaixou e pegou o estilhaço do chão. O metal ainda estava quente. A temperatura do aço era a prova física da energia destrutiva que os cercava.

A primeira morte

O tenente guardou o pedaço de metal quente no bolso. Aquele gesto simples serviu como uma âncora para a realidade. Ele continuou seu trabalho, conectou o que precisava ser conectado e saiu da zona de morte. A missão foi cumprida não pela ausência de medo, mas apesar dele.

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Anos depois, ao relatar o episódio, Alexandrino usaria uma frase dura e poética para definir o que sentiu na beira daquela ponte no Vale do Serchio. Ele costumava dizer aos netos que “morreu uma vez” naquele dia. Ele não se referia a um ferimento físico ou a uma parada cardíaca momentânea.

Tenente7 Histórias da FEB: O dia em que o tenente morreu de medo

Ele falava da morte causada pelo pavor absoluto. O homem que entrou no mato tremendo e pegou o aço quente havia deixado uma parte de sua inocência entre as folhas rasgadas pelos alemães. O oficial sobreviveu ao vale e à guerra, mas carregou para sempre a memória daquele dia em que o medo foi tão real quanto o inimigo.

Fonte: História Oral do Exército na Segunda Guerra


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