Histórias da FEB: Pés de Jornal, Corações de Aço e uma Cruz Alemã

Um mergulho no inverno brutal da Itália em 1944, onde o Capitão Ventura testemunhou o improviso do soldado brasileiro contra o frio e a honra inesperada concedida pelo inimigo alemão. Uma crônica sobre sangue, gelo e humanidade.

Não se tratava apenas de um oficial enviando estranhos para a morte. O homem que comandava a Companhia de Obuses do 6º Regimento de Infantaria, o então Capitão Domingos Ventura Pinto Júnior, carregava um peso singular nos ombros e no coração. Aquele oficial nascido no estado do Rio de Janeiro e formado na Escola Militar do Realengo não olhava para sua tropa como uma lista de números de matrícula anônimos. Ali, sob suas ordens, estavam seus parentes de sangue e de afeto. Ele havia escolhido seus homens a dedo quando o Coronel Delmiro de Andrade lhe dera a liberdade de formar a subunidade. Ventura levara para o inferno europeu dois cunhados e um irmão, todos sargentos, além de velhos colegas de banco escolar do ginásio Santo Antônio. A guerra, para ele, era um assunto de família.

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Esse traço pessoal tornava a experiência no fronte algo mais do que tática militar; era uma vivência doméstica transportada para a linha de fogo. Ventura, um atleta que jogava basquete e vôlei pelo Clube do Remo em Belém antes da guerra e que impressionava generais com sua disposição física, agora via seus amigos de infância e seus irmãos de sangue enfrentarem algo que nenhum treinamento no Brasil poderia ter simulado. Eles aprenderam a lidar com seus canhões já em solo italiano, sob a tutela do Coronel Souza Carvalho e do Capitão Valmiki, mas havia um inimigo para o qual não existia manual de instrução ou ordem de serviço capaz de conter.

O Abraço Mortal do Gelo

A guerra possui seus generais de carne e osso, mas na Itália de 1944 e 1945, o comandante supremo atendia pelo nome de Inverno. Os termômetros despencaram sem piedade, marcando dezoito graus abaixo de zero. A paisagem, antes verde e acidentada, tornou-se um lençol branco e impiedoso que cobria vivos e mortos com a mesma indiferença. O frio não era apenas desconfortável; era uma ameaça tática tão letal quanto a artilharia germânica.

Nesse cenário de brancura cegante, a tecnologia americana encontrou o limite da resistência humana. O equipamento fornecido pelo Tio Sam, embora superior ao que se conhecia no Brasil, não bastava. Os “combat boots”, as botas de combate americanas, eram forradas e projetadas para suportar o clima temperado, mas o frio dos Apeninos era uma lâmina que penetrava o couro e a borracha. Foi então que surgiu aquela engenhosidade que só o desespero e a criatividade brasileira conseguem produzir.

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Os soldados da companhia de Ventura não aceitaram passivamente o congelamento. O perigo do “pé-de-trincheira“, a gangrena causada pela umidade e frio constantes, rondava cada buraco no chão. A solução encontrada não veio dos manuais de intendência, mas das páginas de notícias. Os homens passaram a envolver os pés com jornal e papel antes de calçar as botas. Aquela camada extra de celulose, amassada e improvisada, criava o isolamento térmico que a indústria militar não previra. Ventura observava seus comandados, aqueles mesmos rapazes que ele conhecia de casa, manterem os pés secos e saudáveis graças a esse artifício simples. Eles enfrentavam a neve com papel e coragem, e venciam.

A Rigidez de Quem Comanda

A vida nas trincheiras geladas exigia uma disciplina férrea, e o General Zenóbio da Costa era a encarnação dessa exigência. Não era um homem de ficar protegido no Posto de Comando, longe das balas. Ele ia à frente, visitava as posições mais perigosas como a Torre de Nerone, onde bastava colocar a cabeça para fora para atrair morteiros inimigos. Zenóbio ignorava os avisos de perigo com um desdém que beirava a temeridade, dirigindo seu jipe pelas áreas varridas pelo fogo no Dia da Bandeira, chamando de medrosos aqueles que tentavam protegê-lo.

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Essa dureza se manifestava de forma brutal quando as coisas davam errado. Houve um episódio que marcou a memória de Ventura durante o ataque a Castelnuovo di Garfagnana. Após a conquista do objetivo e a captura de dezenas de prisioneiros, a tropa relaxou. Músicas tocavam, a guarda baixou. O contra-ataque alemão foi fulminante. Um tenente, abrigado dentro de um quarto em vez de estar junto à sua subunidade, tentou fugir pulando uma janela e foi metralhado.

O corpo daquele oficial desapareceu sob a neve que caía. Ficou lá, conservado pelo gelo como uma estátua de sua própria imprudência, durante seis meses. Quando o degelo da primavera finalmente revelou o cadáver intacto, a reação de Zenóbio não foi de piedade. Ele reuniu seus oficiais e bradou que, de cima a baixo, todos ali tinham agido como covardes. Para o general, o recuo desordenado, fruto da imaturidade e da falta de atenção de tropas que ainda não eram veteranas, era uma mancha inadmissível. Ele era duro porque a guerra não perdoava a maciez.

A Cruz no Caminho de Montese

Contudo, a guerra não é feita apenas de generais gritando e corpos esquecidos. No meio daquele inverno atroz, na terra de ninguém entre as linhas brasileiras e alemãs, floresceu um tipo estranho e solene de respeito. Aconteceu nas imediações de Montese, um complexo defensivo que incluía elevações como Montelo e Monte Bufone.

As patrulhas eram constantes. Homens vestidos com capas brancas para se camuflarem na neve saíam em missões de reconhecimento, buscando informações e prisioneiros. Em uma dessas incursões, o destino reservou um final trágico para um grupo brasileiro. Uma patrulha se desfez, e três soldados acabaram desgarrados do grupo principal. Isolados, sem munição e sem chance de recuo, eles toparam de frente com uma patrulha alemã.

O que se seguiu não foi um massacre à distância, mas um combate corpo a corpo, a forma mais primitiva e visceral de guerra. Os três brasileiros lutaram até o fim, vendendo caro suas vidas, mas acabaram sucumbindo diante da superioridade numérica ou física do inimigo.

Dias depois, quando outra patrulha brasileira passou pelo local, encontrou algo que paralisou os soldados. Não havia corpos largados ao relento para serem devorados pelos bichos ou pelo tempo. Havia uma cova fechada. E sobre a cova, fincada na terra dura e gelada, uma cruz.

A inscrição na madeira, deixada pelos soldados de Hitler, não era de escárnio. Dizia, em um reconhecimento que transcendia as ideologias e o ódio: “Aqui estão sepultados três bravos brasileiros”. O inimigo, impressionado com a fúria e a coragem daqueles três pracinhas que lutaram até o último suspiro, decidiu que eles mereciam mais do que o esquecimento. Eles mereciam a honra de soldados. Aquele gesto de humanidade e respeito ao adversário morto ecoaria muito além daquele vale gelado.

O Fim da Jornada

Esse respeito mútuo não foi um caso isolado. Ventura viu, ao longo da campanha, que a dignidade muitas vezes sobrevivia à violência. Viu a miséria da população italiana, mulheres, velhos e crianças enfrentando o frio em filas patéticas para receber as sobras do rancho dos soldados brasileiros, criando uma integração dolorosa pela fome. E viu, ao final de tudo, a rendição massiva da 148ª Divisão de Infantaria alemã, que aceitou entregar as armas incondicionalmente apenas porque sabia que estava se rendendo aos brasileiros, a quem consideravam dignos de confiança.

O Capitão Ventura, que improvisou canhões com carroças no Brasil para treinar seus homens e que viu seus irmãos de farda marcharem com jornal nos pés, retornou para casa sabendo que a vitória não foi construída apenas com pólvora. Foi forjada na neve, no sangue de companheiros perdidos e na surpreendente nobreza de uma cruz de madeira deixada por mãos inimigas no silêncio branco dos Apeninos.

Fonte: Historia Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial

OBS: Imagens criadas com Inteligência Artificial


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