O mundo em 1939 era um mercado de alta volatilidade e baixíssima liquidez moral. De um lado, o Reich operava em uma economia de comando, oferecendo marcos de compensação que inundavam o mercado brasileiro de manufaturados alemães. Do outro, as democracias ocidentais assistiam, paralisadas, ao avanço do eixo sobre suas zonas de influência. No meio desse fogo cruzado, Getúlio Vargas, o CEO da “Holding Brasil”, sabia que a neutralidade tinha um preço, e ele estava disposto a vendê-la caro. A peça-chave dessa operação de arbitragem geopolítica era Oswaldo Aranha. Ele não foi a Washington para falar de democracia; ele foi para fechar o balanço.
A Missão Aranha, lançada em fevereiro daquele ano, foi o “IPO” (Oferta publica inicial) do Brasil no cenário internacional. Aranha, um liberal convicto operando dentro de um regime autoritário, entendia a linguagem do capital. Ele sabia que o Departamento de Estado americano estava desesperado para expulsar a influência comercial alemã da América Latina. O Brasil era o maior ativo dessa região. O que Aranha fez foi apresentar um plano de negócios: o Brasil oferecia exclusividade no fornecimento de materiais estratégicos e alinhamento político em troca de oxigênio financeiro. Dinheiro vivo. Crédito de longo prazo para comprar a nossa industrialização.
O Balcão de Negócios em Washington
Quando Aranha desembarcou nos Estados Unidos, a pauta era densa. O Brasil estava sufocado por dívidas externas atrasadas e pela falta de dólares. O chanceler sentou-se à mesa com Cordell Hull e Sumner Welles com uma proposta agressiva. Ele não pediu ajuda; ele propôs uma parceria de risco. O resultado foi a abertura de uma linha de crédito de US$ 19,2 milhões via Export-Import Bank (Eximbank) para a compra de produtos americanos e, mais importante, a promessa de apoio para a criação de um Banco Central e para a estabilização da moeda brasileira.

Mas o grande “asset” da negociação não era apenas o fluxo de caixa imediato. Era o aço. Aranha lançou as bases para o que viria a ser a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Para os americanos, financiar uma usina siderúrgica no Hemisfério Sul parecia contraproducente para suas próprias exportações, mas o argumento de Aranha era imbatível: se os EUA não financiassem a produtividade brasileira, a Krupp alemã o faria. Foi o uso magistral do “custo de oportunidade”. Ou Washington capitalizava o Brasil, ou perdia o mercado para Berlim.
Produtividade sob Fogo Cruzado
Enquanto as notas diplomáticas eram trocadas, o cheiro de pólvora já cruzava o Atlântico. Aranha operava com o relógio contra si. Ele sabia que, assim que a guerra estourasse, o mercado de capitais fecharia e as cadeias de suprimento seriam destruídas. O Brasil precisava se mecanizar antes que o frete marítimo se tornasse uma roleta russa de submarinos.

A Missão Aranha garantiu que o Brasil não fosse apenas um exportador de sobremesa — café e açúcar — mas um player industrial em potencial. O acordo de 1939 foi o divórcio oficial com os marcos de compensação alemães. Aranha convenceu Vargas de que o capital americano era mais “limpo” e tecnologicamente superior. Foi uma decisão de portfólio. O Brasil abandonou uma moeda de ocupação (o marco) por uma moeda de reserva global (o dólar).
O Risco Brasil e o Retorno Americano
Não se enganem, os americanos não foram benevolentes. Eles eram credores exigentes. A Missão Aranha impôs ao Brasil o compromisso de retomar o pagamento da dívida externa, o que gerou chiadeira nos setores nacionalistas do Rio de Janeiro. No entanto, Aranha via o quadro geral: para atrair investimento direto estrangeiro e tecnologia, o Brasil precisava de credibilidade. Ele estava limpando o nome do país no Serasa internacional da época para poder tomar empréstimos maiores depois.

O sucesso da missão foi o que permitiu ao Brasil, anos depois, negociar a construção de Volta Redonda em troca das bases aéreas no Nordeste. Sem o “approach” financeiro de 1939, o Brasil teria chegado em 1942 como uma economia agrária falida e vulnerável a qualquer proposta de Berlim. Aranha comprou tempo. Ele comprou máquinas. Ele comprou a infraestrutura que permitiria ao Brasil, no futuro, ter uma voz ativa na reorganização do mundo no pós-guerra.
O Veredito do Mercado
Ao final da missão, em março de 1939, o Brasil havia garantido não apenas dólares, mas um seguro contra a insolvência. Oswaldo Aranha retornou ao Rio de Janeiro tendo provado que a diplomacia é, em última análise, a gestão da escassez. Ele transformou a nossa fraqueza econômica em uma alavanca de negociação. Se o Brasil conseguiu manter sua soberania enquanto o mundo se despedaçava, foi porque, antes dos canhões dispararem, nossos negociadores já tinham garantido que o crédito brasileiro estava aprovado em Washington.
A Missão Aranha foi o triunfo do pragmatismo sobre o romantismo diplomático. Foi o Brasil entendendo que, na mesa dos grandes, quem não tem capital vira mercadoria. E naquele 1939, o Brasil decidiu ser o sócio, não o estoque.
Descubra mais sobre Portal Segunda Guerra Brasil
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
