O assalto britânico a Madagascar em 1942 revelou a audácia da Royal Navy contra as forças de Vichy. Uma crônica tática sobre a primeira grande operação anfíbia aliada, onde o espírito de corpo e a precisão naval decidiram o destino do Oceano Índico.
A manhã de 5 de maio de 1942 não nasceu com a clareza esperada pelos planejadores em Londres. Sobre as águas da Baía de Diego Suarez, uma névoa persistente ocultava o que seria, até então, a mais ambiciosa manobra de desembarque da Coroa desde o desastre de Gallipoli. A Operação Ironclad não era apenas um movimento de xadrez geopolítico; era uma necessidade bruta. Churchill, com sua visão aguçada para os pontos de estrangulamento do globo, não podia permitir que a frota imperial japonesa encontrasse abrigo nos portos profundos de Madagascar, cedidos pela complacência do regime de Vichy. O Índico era a artéria vital do Império, e aquela ilha, a adaga apontada para o coração das rotas de suprimento.
O Almirante Edward Syfret, a bordo do encouraçado HMS Ramillies, observava o horizonte com a austeridade típica dos homens que carregam o peso da responsabilidade naval britânica. Sob seu comando, uma armada formidável se reunira: porta-aviões, cruzadores e uma massa de transportes de tropas carregando os homens da 29ª Brigada Independente e do Comando Número 5. O ar estava saturado com o cheiro de óleo combustível e a maresia salgada, um perfume que precedia a tempestade de aço. A precisão era a nossa única aliada. Navegar por canais minados e recifes de coral na escuridão exigia mais do que coragem; exigia uma perícia quase mística dos timoneiros.
Os homens do Comando Número 5 foram os primeiros a sentir o solo sob as botas. O desembarque na Baía de Courier foi uma peça de teatro tática executada sob o silêncio absoluto. Não houve o rugido inicial de bombardeios pesados que marcaria a Normandia anos depois. Em vez disso, o que se ouvia era o chapinhar da água nos cascos de madeira e o clique metálico dos fuzis sendo destravados. Eles escalaram penhascos que os defensores franceses consideravam intransponíveis. A surpresa foi total. O espírito de corpo desses soldados, muitos treinados nas costas acidentadas da Escócia, brilhou na escuridão africana. Eles silenciaram baterias costeiras antes que o primeiro café da manhã fosse servido nas guarnições de Vichy.
Contudo, a resistência francesa não foi o colapso imediato que alguns otimistas em Whitehall previram. O General Annet, governador da ilha, mantinha uma lealdade obstinada a Pétain. Os legionários e as tropas coloniais francesas lutaram com uma tenacidade que, embora trágica por ser direcionada contra antigos aliados, exigia respeito profissional. O terreno de Madagascar é um adversário por si só. A lama vermelha, pegajosa e profunda, transformava o avanço mecanizado em um esforço hercúleo. Os tanques leves Valentine e Tetrarch rugiam, suas lagartas rangendo enquanto tentavam encontrar tração no solo traiçoeiro, enquanto o calor úmido drenava a energia dos homens mais jovens.
Houve um momento crítico perto de Antsirane. As defesas fortificadas de Vichy seguravam o avanço da infantaria britânica com fogo cruzado de metralhadoras. O progresso estagnou. Foi aqui que a improvisação, a marca registrada da liderança militar britânica, entrou em cena. Cinquenta fuzileiros navais do HMS Ramillies foram colocados a bordo do destróier HMS Anthony. O navio, em uma manobra de audácia suicida, correu diretamente para o porto inimigo sob fogo pesado. Os fuzileiros saltaram no cais, tomaram o posto de comando de Vichy e desarticularam a defesa por dentro. Foi um golpe de mestre, uma dessas ações rápidas que decidem o destino de campanhas inteiras em questão de minutos.
A vida no front não era feita apenas de grandes assaltos. Era a miséria da malária, o zumbido incessante de insetos e a incerteza de combater homens que falavam a língua da diplomacia europeia. Os soldados britânicos sentiam o peso da ironia. Estavam ali para salvar a ilha dos japoneses, mas precisavam subjugar os franceses primeiro. A tática de Syfret e do General Sturges focava em cercar os pontos fortes, evitando o desgaste desnecessário, mas o avanço para o sul da ilha estendeu-se por meses, transformando a Ironclad em uma campanha de resistência e paciência.
A marinha desempenhou seu papel com uma elegância tática impecável. Os aviões Fairey Albacore e Swordfish, lançados dos porta-aviões Indomitable e Illustrious, realizavam ataques de precisão contra os navios de Vichy e o aeródromo. O som desses motores radiais sobre as selvas de Madagascar tornou-se o prelúdio constante do avanço aliado. O domínio do ar e do mar era absoluto, mas a terra ainda exigia o sacrifício final. Cada colina tomada era uma vitória da disciplina sobre o caos.
Ao olharmos para os mapas daquela época, percebemos que a Operação Ironclad foi o laboratório onde a vitória aliada começou a ser forjada. Aprendemos ali os perigos das comunicações falhas em operações conjuntas e a importância crítica do apoio logístico em costas hostis. Não foram apenas números de mortos e feridos que saíram de Diego Suarez, mas sim as lições que permitiriam o sucesso na Sicília e, eventualmente, nas praias da França. O soldado de infantaria britânico, com seu capacete prato e sua determinação silenciosa, provou que o Império ainda possuía dentes.
Madagascar não caiu em um dia, mas a determinação de Vichy foi corroída pela superioridade tática e pela vontade inabalável de uma marinha que se recusava a perder o controle dos mares. Quando as armas finalmente silenciaram na ilha, o caminho para o Oriente estava seguro. A ameaça japonesa de uma base no Índico evaporou-se como a névoa matinal na Baía de Courier. Foi uma vitória de profissionais, planejada com cuidado e executada com a fleuma necessária para enfrentar tanto o fogo inimigo quanto a natureza implacável.
A história militar é escrita com sangue, mas preservada pela memória de quem a estuda. Se este relato da audácia britânica em Madagascar despertou seu interesse pelo rigor tático e pelo sacrifício humano, convido você a se juntar à nossa comunidade no Portal Segunda Guerra Brasil. Comente abaixo: você acredita que a Ironclad foi o verdadeiro ponto de virada para as operações anfíbias modernas? Vamos debater os fatos.
FONTES E BIBLIOGRAFIA
- Churchill, Winston S. The Second World War: The Hinge of Fate. Houghton Mifflin, 1950. (Memórias fundamentais sobre a decisão estratégica da invasão).
- Turner, Leonard C. F. War in the Southern Oceans, 1939-1945. Oxford University Press, 1961. (Análise técnica da logística e operações navais no Índico).
- The National Archives (UK). War Diary: Operation Ironclad – WO 172/548. (Registros diários originais das unidades de comando e infantaria).
- Smith, Peter C. Jungle Assault: The Invasions of Madagascar. Pen & Sword Military, 2007. (Estudo detalhado sobre o uso de porta-aviões na operação).
- Flint, Keith. Airborne Armour: Tetrarch, Locust, Hamilcar and the 6th Airborne Armoured Reconnaissance Regiment 1938-1950. Helion & Company, 2004. (Detalhes sobre o uso de tanques leves no terreno de Madagascar).
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