Conheça a Operação Postmaster: o audacioso ataque pirata britânico em águas neutras da Guiné Equatorial que humilhou o Eixo e inspirou a criação de James Bond.
O calor na ilha de Fernando Pó era uma entidade física, uma massa úmida que sufocava a razão e apodrecia o couro das botas. No porto de Santa Isabel, as luzes da cidade espanhola refletiam-se nas águas paradas do Golfo da Guiné, onde a neutralidade de fachada do regime de Franco servia de escudo para a máquina de guerra de Hitler. Ali, ancorado com a arrogância de quem se sabe intocável, o navio italiano Duchessa d’Aosta pulsava silenciosamente. Ele não era apenas um cargueiro; era um centro nervoso, um nódulo de comunicações que guiava os lobos cinzentos da Kriegsmarine em sua caça implacável pelos comboios aliados.

A quilômetros dali, em Londres, a diplomacia era um jogo de xadrez estéril. Mas no número 64 da Baker Street, a sede do Special Operations Executive (SOE), o jogo era outro. Winston Churchill dera a ordem: “Incendeiem a Europa”. E Gus March-Phillipps, um homem cujos olhos carregavam o brilho febril de quem nasceu para o perigo, decidiu que o incêndio começaria na África.
A Operação Postmaster não foi uma manobra naval convencional. Foi um ato de pirataria pura, destilada e executada com a precisão de um cirurgião bêbado de adrenalina. O plano era de uma simplicidade suicida: infiltrar-se em um porto neutro, abordar três navios armados, cortar suas correntes de âncora com explosivos e rebocá-los para o mar aberto antes que a guarnição espanhola pudesse terminar seu jantar.
March-Phillipps liderava a Maid Honor Force, um grupo de homens que pareciam saídos de um pesadelo de decoro militar. Entre eles estava Geoffrey Appleyard, o cérebro tático, e Anders Lassen, um dinamarquês que matava com a eficiência de um predador silencioso. Eles não viajavam em destróieres da Marinha Real, mas em um pequeno rebocador e uma lancha, disfarçados para evitar suspeitas.

A tensão na noite de 14 de janeiro de 1942 era quase elétrica. A inteligência britânica, mestre na manipulação psicológica, organizou um jantar de gala em terra para os oficiais alemães e italianos. Enquanto o champanhe fluía e as risadas ecoavam nos salões coloniais espanhóis, pequenas sombras deslizavam pela água do porto. O suor escorria pelos rostos pintados de negro dos comandos. Cada batida de remo contra o casco parecia um tiro de canhão no silêncio da noite tropical.
O ataque foi um raio em céu limpo.
Os comandos abordaram o Duchessa d’Aosta com ganchos e cordas. Não houve tempo para gritos. Sentinelas foram neutralizadas no escuro, o aço frio encontrando a carne antes que qualquer alarme pudesse ser acionado. Enquanto isso, equipes menores atacavam os rebocadores alemães Likomba e Bibundi. O som que rompeu a noite não foi o de metralhadoras, mas o estrondo seco e controlado de cargas explosivas cortando as pesadas correntes das âncoras.

Em menos de trinta minutos, o impensável aconteceu. Os navios começaram a se mover. Não sob o comando de seus motores, mas arrastados pela audácia britânica. Da costa, os soldados espanhóis, confusos e despertados pelo barulho das explosões, começaram a disparar suas baterias antiaéreas para o céu vazio, acreditando estarem sob um bombardeio aéreo. Eles não podiam conceber que o inimigo estava ali, a poucos metros, roubando sua soberania e seus hóspedes de guerra sob o manto da escuridão.
Ian Fleming, na época um jovem oficial da Inteligência Naval, acompanhava os relatórios da missão com um fascínio que beirava a obsessão. Ele via em March-Phillipps o protótipo do herói moderno: um homem que operava fora das regras, que combinava o charme aristocrático com uma brutalidade necessária e quase poética. A imagem dos comandos subindo pelas bordas dos navios, a mistura de tecnologia clandestina e coragem bruta, os jantares de fachada e as explosões silenciosas — tudo isso se tornaria a matéria-prima para a criação de James Bond. O 007 não nasceu nos cassinos de Monte Carlo, mas no calor úmido e no cheiro de pólvora e óleo de Fernando Pó.
A repercussão diplomática foi um incêndio por si só. A Espanha protestou furiosamente contra a “violação ultrajante” de sua neutralidade. O Almirantado Britânico, mantendo a clássica poker face inglesa, negou qualquer envolvimento, sugerindo cinicamente que os navios haviam sido capturados por uma força desconhecida em alto mar, fora das águas territoriais. Era a mentira perfeita para uma operação perfeita.

Para o esforço de guerra, o Postmaster foi vital. Os documentos capturados a bordo do Duchessa d’Aosta revelaram códigos e rotas de suprimento que ajudaram a quebrar a espinha dorsal da ofensiva submarina alemã no Atlântico Sul. Mas para além dos mapas e cifras, a operação provou que a guerra não seria vencida apenas por exércitos em massa, mas por pequenos grupos de homens determinados a fazer o impossível.
Gus March-Phillipps não sobreviveria à guerra para ver sua fama crescer. Ele morreria em outra missão clandestina meses depois. Mas naquela noite em janeiro de 1942, ele e seus homens foram fantasmas que humilharam dois impérios. Eles foram os piratas de Churchill, os precursores de uma nova era de sombras onde a linha entre o soldado e o espião desapareceu para sempre no horizonte negro do Golfo da Guiné.
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Fonte:
- LETT, Brian. Ian Fleming’s Secret Agents: The Plot to Steal the Duchessa d’Aosta. Pen & Sword Military, 2012.
- RANKIN, Nicholas. Churchill’s Wizards: The British Genius for Deception 1914-1945. Faber & Faber, 2008.
- FOOT, M.R.D. SOE: The Special Operations Executive 1940-1946. Pimlico, 1999.
- LEWIS, Damien. The Ministry of Ungentlemanly Warfare. Quercus, 2014.
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