O Consulado de Genebra e a Resistência de Papel: A Operação do Coronel José Arturo Castellanos, 1942-1945

Em meio à neutralidade suíça e ao cerco nazista na Hungria, o diplomata salvadorenho José Arturo Castellanos orquestrou uma massiva emissão de documentos de cidadania que garantiu a sobrevivência de milhares de famílias judias durante a fase final do extermínio europeu.

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Genebra, 1942. A cidade suíça mantinha uma fachada de normalidade burocrática enquanto a Europa ardia além de suas fronteiras. No número 10 da rue de Lausanne, o Consulado Geral de El Salvador operava sob a direção do Coronel José Arturo Castellanos. Militar de carreira nascido em 1893, Castellanos havia sido transferido de Liverpool para a Suíça, trazendo consigo uma compreensão pragmática das engrenagens militares e, crescentemente, uma percepção aguda do destino reservado às populações civis sob o domínio do Terceiro Reich.

A neutralidade da Suíça servia como um posto de observação privilegiado. Foi neste contexto que Castellanos estreitou laços com György Mandl, um empresário judeu romeno que adotara o nome de George Mandel-Mantello para evitar a perseguição antissemita. Mandl, fugindo do avanço do totalitarismo, encontrou em Castellanos não apenas um diplomata, mas um estrategista disposto a subverter as regras consulares em favor da vida humana.

Castellanos O Consulado de Genebra e a Resistência de Papel: A Operação do Coronel José Arturo Castellanos, 1942-1945
Coronel José Arturo Castellanos

A primeira ação decisiva ocorreu quando Castellanos nomeou Mandl como “Primeiro Secretário” do consulado. Era um cargo fictício, criado à margem das instruções oficiais de San Salvador, mas conferia a Mandl e sua família a imunidade diplomática necessária para permanecer na Suíça. No entanto, a ambição da operação logo transcendesse a proteção de um único círculo familiar.

Em 19 de março de 1944, a Wehrmacht lançou a Operação Margarethe, a ocupação militar da Hungria. Até aquele momento, a comunidade judaica húngara, composta por cerca de 800.000 pessoas, havia sobrevivido em relativa, embora precária, segurança. Com a chegada de Adolf Eichmann a Budapeste, a deportação sistemática para Auschwitz-Birkenau iniciou-se com eficiência industrial. Os relatórios que chegavam a Genebra, trazidos por correios clandestinos e fugitivos, detalhavam o processo de guetização e o embarque diário de milhares de seres humanos em vagões de gado.

Diante da iminência do extermínio total na Hungria, Castellanos e Mandel-Mantello expandiram a operação de emissão de documentos. A estratégia baseava-se numa brecha jurídica e no princípio da reciprocidade internacional. Os documentos emitidos não eram vistos de trânsito ou passaportes comuns, mas certificados de cidadania salvadorenha. Estes papéis declaravam que o portador era, para todos os efeitos legais, um cidadão de El Salvador.

Sob a Convenção de Genebra e os acordos diplomáticos vigentes, os cidadãos de países neutros (ou não beligerantes no teatro europeu) não poderiam ser deportados para campos de extermínio. Eles deveriam ser mantidos em campos de internação ou protegidos sob a tutela de seus representantes consulares. Castellanos instruiu sua equipe a produzir esses documentos em massa.

O escritório na rue de Lausanne transformou-se em uma linha de produção de salvaguardas. Milhares de formulários em branco foram preenchidos com nomes de famílias inteiras que jamais haviam pisado na América Central. As fotos eram anexadas, os carimbos oficiais pressionados com tinta azul e, crucialmente, a assinatura do Coronel validava o artifício jurídico. Para aumentar a eficácia, os documentos eram frequentemente retrodatados, sugerindo que aquelas famílias possuíam a nacionalidade salvadorenha muito antes da ocupação nazista.

Os certificados eram contrabandeados para Budapeste através de redes de resistência, correios diplomáticos simpáticos à causa e contatos na Cruz Vermelha Internacional. Na capital húngara, a operação ganhou um aliado vital no Vice-Cônsul suíço Carl Lutz. Lutz, responsável por representar os interesses de nações que haviam rompido relações com a Hungria, aceitou a validade dos papéis de Castellanos. Ele emitiu cartas de proteção (Schutzpass) baseadas na “cidadania salvadorenha” dos portadores, estendendo a proteção diplomática suíça a esses indivíduos.

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Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial

A burocracia nazista, obcecada pelo legalismo, viu-se momentaneamente travada. As autoridades alemãs e seus colaboradores húngaros da Cruz Flechada hesitavam em deportar indivíduos que, no papel, pertenciam a uma nação soberana estrangeira, temendo represálias contra alemães internados nas Américas. Esse atraso foi vital.

Durante o verão e o outono de 1944, enquanto os fornos de Auschwitz operavam em capacidade máxima, os detentores dos papéis de Castellanos permaneceram, em sua maioria, em Budapeste. Muitos foram alojados na “Casa de Vidro” (Üvegház) e em outras casas seguras sob proteção suíça. Estima-se que mais de 40.000 documentos foram emitidos e distribuídos. Cada folha de papel representava uma barreira física entre uma família e as câmaras de gás.

A correspondência diplomática da época revela a tensão constante. Castellanos recebia questionamentos de Berna e de San Salvador sobre a súbita explosão demográfica de “salvadorenhos” na Europa Oriental. O Coronel respondia com evasivas burocráticas ou silêncio calculado, mantendo a operação ativa até que o Exército Vermelho cercasse Budapeste no final de dezembro de 1944.

A geografia do resgate estendeu-se para além da Hungria, embora em menor escala, atingindo judeus na Bulgária, Tchecoslováquia e Romênia. O trabalho de Castellanos não envolveu disparos de artilharia nem manobras de infantaria, mas foi uma batalha travada com tinta, papel e carimbos consulares. A precisão administrativa foi a arma utilizada para sabotar a logística do genocídio.

Após a guerra, o Coronel José Arturo Castellanos retornou a uma vida discreta. Ele não buscou publicidade para seus atos em Genebra. Em 1945, foi enviado para Londres e aposentou-se posteriormente, vivendo em El Salvador até sua morte em 1977. Durante décadas, a magnitude de sua intervenção permaneceu conhecida apenas pelos sobreviventes e por um círculo restrito de historiadores.

Foi somente em 2010 que o Yad Vashem, a Autoridade de Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto em Israel, reconheceu oficialmente o Coronel Castellanos como “Justo entre as Nações”. O dossiê de reconhecimento detalha como a ação de um único diplomata, operando a partir de um escritório modesto na Suíça, alterou o destino de dezenas de milhares de pessoas.

A história de Castellanos demonstra que a resistência ao terror totalitário nem sempre se manifestou através da luta armada. No silêncio de um consulado, a recusa em aceitar a desumanização do outro e a utilização criativa da autoridade estatal salvaram gerações inteiras da extinção. A assinatura de Castellanos nos certificados de nacionalidade permanece como um testemunho documental da capacidade humana de preservar a vida diante da barbárie industrializada.

O número exato de vidas salvas continua sendo objeto de estudo demográfico, mas os registros indicam que a “ação salvadorenha” foi uma das maiores operações de resgate individual da Segunda Guerra Mundial. A sobrevivência dessas 40.000 pessoas não foi um acidente estatístico; foi o resultado direto da vontade de um homem em utilizar sua posição para proteger indefesos, desafiando protocolos em nome de um imperativo moral superior.


Acesse nosso acervo digital no portal Segunda Guerra Brasil para examinar as cópias digitalizadas dos certificados de nacionalidade emitidos pelo consulado de Genebra e ler os depoimentos dos sobreviventes resgatados por esta operação.


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