O céu sobre o Canal da Sicília, na primavera de 1943, não era um lugar para amadores. O azul profundo do Mediterrâneo servia de pano de fundo para uma das mais brutais demonstrações de atrito aéreo da Segunda Guerra Mundial. Enquanto as tropas de terra do Eixo se viam encurraladas na ponta da Tunísia, sem combustível, munição ou provisões básicas, a liderança da Luftwaffe tomou uma decisão nascida do desespero: sustentar um exército inteiro através de uma ponte aérea sob o fogo constante dos Spitfires, Kittyhawks e Lightnings aliados. Era a Operação Flax, o golpe de misericórdia contra a logística de Hitler na África.
Para os pilotos da Desert Air Force e da Nona Força Aérea dos EUA, o objetivo era claro: cortar o cordão umbilical que ligava a Sicília a Túnis. Mas entre os Junkers Ju 52, os cavalos de carga da Alemanha, surgiu uma silhueta que desafiava a lógica da engenharia da época: o Messerschmitt Me 323 Gigant. Com seis motores radiais e uma envergadura que superava os 50 metros, o Gigant era uma visão surrealista. Originalmente concebido como um planador para a invasão da Grã-Bretanha, ele havia sido motorizado para carregar canhões antiaéreos, tanques leves ou até 130 soldados equipados. Para os aliados, contudo, ele era apenas um alvo colossal e vulnerável.

O dia 22 de abril de 1943 permanece gravado nos anais da história aérea como o crepúsculo desses colossos. Naquela manhã, uma formação de 16 ou 21 exemplares do Me 323 (os números variam nos diários de combate) decolou da Itália carregados de combustível e suprimentos vitais. Eles voavam baixo, quase roçando as ondas para evitar o radar, protegidos por uma escolta de caças Bf 109. Mas a inteligência aliada, alimentada pelas interceptações do sistema Ultra, já havia traçado a rota.
O encontro ocorreu perto de Cap Bon. Esquadrões de P-40 Kittyhawks sul-africanos e australianos, cobertos por Spitfires que vigiavam as altitudes superiores, mergulharam sobre a formação alemã. O que se seguiu não foi um duelo de cavaleiros, mas um abate sistemático. O Me 323, apesar de sua construção robusta em tubos de aço e lona, era uma pira funerária voadora quando carregado de combustível.

Testemunhas descreveram a cena com uma mistura de horror e fascínio técnico. Quando as metralhadoras .50 dos Kittyhawks encontravam os tanques de combustível nas asas dos Gigants, as explosões eram tão vastas que chegavam a desestabilizar os caças atacantes. Um a um, os gigantes de seis motores mergulhavam em chamas no Mediterrâneo. Naquele único dia, quase toda a formação foi aniquilada. O mar ficou coalhado de destroços, manchas de óleo e os restos de uma logística que já não tinha como vencer a física da guerra moderna.
O impacto da Operação Flax foi imediato e catastrófico para o marechal von Arnim. Sem o reabastecimento garantido pelos Me 323 e Ju 52, as divisões blindadas na Tunísia tornaram-se estáticas, meras baterias de artilharia fixas aguardando a rendição inevitável. A Luftwaffe perdeu não apenas aeronaves insubstituíveis, mas tripulações de transporte veteranas, cujo conhecimento técnico faria falta em Stalingrado e, mais tarde, na defesa do Reich.

É preciso olhar para esses eventos com a solenidade que a memória exige. Cada Gigant derrubado levava consigo não apenas carga, mas homens presos em uma estrutura de lona e metal que não oferecia chance de escape. Os pilotos aliados, embora celebrassem a vitória estratégica, não ignoravam a magnitude do que haviam destruído. Eles haviam abatido o que de mais ambicioso a engenharia de transporte alemã produzira, e com isso, selaram o destino do Eixo no continente africano.
A Operação Flax provou que a superioridade aérea não se resumia a derrubar caças inimigos; tratava-se de negar ao adversário a capacidade de existir no campo de batalha. O Mediterrâneo, outrora chamado pelos italianos de Mare Nostrum, tornou-se o cemitério da frota de transporte alemã. Ao final de abril, a ponte aérea estava desfeita. O “Gigante” havia caído, e com ele, as últimas pretensões de domínio de Hitler sobre as areias da África. Hoje, os destroços que ainda repousam no fundo do canal são monumentos silenciosos a uma era onde a audácia técnica foi esmagada pela realidade implacável da interdição aérea total.
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