O Plano Cínico da Argentina para Sacrificar Marinheiros por Armas Americanas

Buenos Aires, 22 de julho de 1943. O inverno portenho trazia uma névoa úmida do Rio da Prata, penetrando nos sobretudos de lã e nos corredores do Palácio San Martín. Ali, longe do cheiro de cordite e sangue que impregnava a Europa, travava-se uma guerra de sussurros, onde a moralidade era tão fluida quanto a lealdade de um espião duplo. O protagonista desta tragédia burocrática era o Vice-Almirante Segundo Storni, Ministro das Relações Exteriores da Argentina, um homem que observava com inveja mal disfarçada o fluxo de maquinário bélico norte-americano que atracava nos portos do Rio de Janeiro.

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O Poderio Brasileiro.
Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial. (Art7 imagens)

O Brasil, já beligerante e alinhado aos Aliados, recebia caças P-40 Warhawk e tanques leves M3 Stuart. A Argentina, presa em sua neutralidade orgulhosa e simpatias pelo Eixo, via suas Forças Armadas tornarem-se obsoletas. Storni precisava de uma saída. E a saída que ele propôs, numa conversa privada que faria qualquer homem de honra estremecer, foi registrada com frieza nos telegramas diplomáticos.

A Roleta Russa no Mar

O documento 404 do volume V do Foreign Relations of the United States (FRUS) de 1943 detalha o encontro. Storni confidenciou ao embaixador brasileiro, José de Paula Rodrigues Alves, uma estratégia que beirava o suicídio assistido. A proposta era revogar o decreto que proibia navios argentinos de entrarem na zona de perigo do Atlântico Norte e despachar um petroleiro ou cargueiro — possivelmente da frota da YPF — direto para Nova York.

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Não era uma missão comercial. Era uma isca.

Storni sabia o que espreitava naquelas águas. As “alcatéias” de submarinos alemães, equipadas com os letais U-Boots Tipo IXC, patrulhavam as rotas de comboio. Com autonomia para cruzar o oceano e armados com torpedos G7e de propulsão elétrica, esses predadores de aço não hesitariam. Um navio argentino, iluminado ou não, seria um alvo fácil na mira periscópica de um capitão da Kriegsmarine ansioso por tonelagem.

O Cinismo de um Almirante

O embaixador Rodrigues Alves, um diplomata experiente que conhecia os jogos de poder sul-americanos, ficou atônito. Em seu relato ao embaixador norte-americano Norman Armour, Alves não poupou adjetivos. Classificou a ideia de Storni como “cínica”.

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O plano era simples e brutal: enviar marinheiros argentinos para a morte provável. Se o navio fosse torpedeado e a tripulação dizimada nas águas geladas ou consumida pelo óleo em chamas, a comoção pública em Buenos Aires seria incontrolável. Storni teria, então, a justificativa política — o casus belli — para romper com o Eixo, declarar guerra e, finalmente, estender a mão para Washington exigindo o mesmo armamento moderno que o Brasil recebia.

Era a realpolitik em sua forma mais grotesca: sangue de compatriotas em troca de obuseiros e destróieres.

O Veredito Silencioso

Norman Armour, ouvindo o relato de Alves, compreendeu imediatamente a gravidade da situação. A Argentina não queria lutar pela liberdade ou pela democracia; queria apenas manter a paridade balística com o Brasil. O governo de Ramírez estava disposto a jogar seus próprios navios contra os torpedos alemães como peões num tabuleiro de xadrez viciado.

A resposta americana, que viria na forma da famosa carta brutal de Cordell Hull semanas depois, rejeitaria as súplicas de Storni por armas, selando o destino do ministro. Mas naquele dia frio de julho, a proposta ficou pairando no ar esfumaçado de Buenos Aires.

Não houve o ataque provocado. O navio isca não zarpou para seu destino fatal sob aquelas ordens específicas. Mas a simples existência do plano revela a natureza daquela “guerra neutra” na América do Sul: um lugar onde a vida de um marinheiro valia menos que a promessa de um carregamento de fuzis M1 Garand. Storni caiu, mas a sombra de sua aposta cínica permanece nos arquivos, um lembrete de que, na guerra, a traição muitas vezes veste uniforme de almirante.


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Fontes

  • Documento Primário: Foreign Relations of the United States (FRUS), 1943, Volume V, The American Republics, Document 404. Telegrama do Embaixador na Argentina (Armour) para o Secretário de Estado, 22 de julho de 1943.
  • Literatura Histórica: Conn, Stetson; Byron Fairchild. The Framework of Hemisphere Defense. Center of Military History, U.S. Army, 1960.
  • Arquivos Diplomáticos: Correspondência diplomática do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty) referente à missão de José de Paula Rodrigues Alves em Buenos Aires (1943).
  • Dados Técnicos: U-boat Archive e especificações da Kriegsmarine para U-Boot Tipo IXC e torpedos G7e.

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