No outono de 1940, em uma Varsóvia sitiada por muros e arame farpado, o historiador Emanuel Ringelblum fundou o Oyneg Shabes. O nome significa “Alegria do Shabat”. O grupo operava no subsolo do Gueto de Varsóvia, coletando evidências da destruição sistemática da vida judaica. Eram arquivistas, jornalistas e rabinos. Eles não portavam fuzis. Portavam papel, tinta e a obsessão pelo detalhe técnico da barbárie.
O gueto era um experimento de privação. Ringelblum sabia que as vítimas raramente escrevem a história. Ele queria que o mundo soubesse o preço do pão, o número de corpos recolhidos nas calçadas pela manhã e a cor dos cartazes de deportação. O arquivo não buscava o épico. Buscava o concreto. Um bilhete de uma criança para a mãe. O cardápio de uma sopa comunitária que servia apenas água e cascas de batata. Um relatório médico sobre os efeitos fisiológicos da fome extrema.

As reuniões ocorriam aos sábados. No início, o foco era a vida social e cultural. Com o tempo, o tema mudou para a morte. No verão de 1942, a Grande Ação começou. Trezentas mil pessoas foram enviadas para Treblinka. O Oyneg Shabes registrou os nomes dos que partiam e o destino dos trens. Eles entrevistaram os poucos que conseguiram escapar dos campos de extermínio e retornar a Varsóvia. Os depoimentos eram secos. Gás. Fumaça. Cinzas.
Israel Lichtensztajn era o responsável por esconder o material. Ele contou com a ajuda de dois adolescentes, Dawid Graber e Nachum Grzywacz. Em agosto de 1942, enquanto a deportação avançava, eles colocaram os documentos em caixas de metal. Graber tinha 19 anos. Ele escreveu uma nota antes de selar a caixa: “O que não pudemos gritar para o mundo, enterramos no solo”. Eles esconderam o arquivo sob o prédio de uma escola na rua Nowolipki, 68.

Em fevereiro de 1943, uma segunda parte do arquivo foi colocada em duas latas de leite de alumínio. O registro incluía as atividades da Organização Judaica de Combate e os preparativos para a revolta armada. O grupo sabia que não sobreviveria. Ringelblum foi preso e executado em 1944, após a destruição do gueto. Dos sessenta membros do Oyneg Shabes, apenas três sobreviveram à guerra: Rachel Auerbach, Hersh Wasser e Bluma Wasser.
A busca pelo arquivo começou em 1946, entre os escombros de uma Varsóvia que não existia mais. Onde havia ruas, havia montanhas de tijolos pulverizados. Hersh Wasser guiou os escavadores até o local da rua Nowolipki. As dez caixas de metal foram encontradas em setembro daquele ano. Estavam danificadas pela água, mas o conteúdo era legível. As duas latas de leite foram desenterradas apenas em dezembro de 1950, por operários que limpavam o terreno para novas construções.

O material recuperado soma 35 mil páginas. Há desenhos de crianças que não chegaram aos dez anos. Há estatísticas de contrabando de comida. Há a descrição exata do funcionamento das câmaras de gás, baseada no relato de quem viu as portas se fecharem. O arquivo Ringelblum é o inventário de um desaparecimento. Não há adjetivos nos relatórios de 1942. Apenas a contagem dos que foram e o silêncio dos que ficaram para enterrar a prova.
As latas de leite permanecem como o símbolo máximo da resistência civil. Elas provam que a documentação é um ato de guerra. O Oyneg Shabes não salvou vidas, mas salvou a verdade da incineração. A história não foi escrita pelos vencedores, nem pelos carrascos. Foi escrita por aqueles que, antes de morrer, confiaram suas palavras ao solo gelado da Polônia.
Fontes:
- KASSOW, Samuel D. Who Will Write Our History? Emanuel Ringelblum, the Warsaw Ghetto, and the Oyneg Shabes Archive. Indiana University Press, 2007.
- RINGELBLUM, Emanuel. Notes from the Warsaw Ghetto. Schocken Books, 1974.
- Jewish Historical Institute (Żydowski Instytut Historyczny). The Ringelblum Archive – UNESCO Memory of the World.
- YAD VASHEM. The Warsaw Ghetto Underground Archive – Oyneg Shabes.
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