Em agosto de 1940, enquanto Londres tremia sob o impacto das bombas da Luftwaffe, um navio aportava sob o sol escaldante de Nassau. A bordo estava o homem que, quatro anos antes, ocupava o trono mais poderoso do mundo. Eduardo VIII, agora apenas o Duque de Windsor, chegava para assumir o governo das Bahamas. O que parecia ser um posto burocrático de segunda classe era, na verdade, uma operação de isolamento estratégico. Winston Churchill precisava tirar o Duque da Europa, temendo que seu histórico de admiração por Adolf Hitler se transformasse em uma ferramenta de propaganda — ou coisa pior — para o Eixo.
O problema é que as Bahamas, longe de serem um refúgio seguro, transformaram-se em um ninho de intrigas internacionais. O Duque não estava sozinho em sua nostalgia pelo poder. Ao seu lado, Wallis Simpson, a mulher por quem ele renunciou ao trono, mantinha uma rede de contatos que fazia os serviços de inteligência dos dois lados do Atlântico perderem o sono. Para o FBI, sob o comando ferrenho de J. Edgar Hoover, o casal Windsor não era apenas uma curiosidade da nobreza, mas uma ameaça direta à segurança hemisférica.

Agentes americanos infiltrados e informantes no arquipélago começaram a enviar relatórios alarmantes para Washington. A principal preocupação atendia pelo nome de Axel Wenner-Gren. O magnata sueco, dono da Electrolux e um dos homens mais ricos do mundo, era amigo íntimo do Duque e um frequentador assíduo da residência oficial em Nassau. Wenner-Gren era suspeito de ser um canal de comunicação entre os nazistas e o ex-rei. Enquanto o Duque jogava golfe e participava de jantares, o FBI monitorava os iates luxuosos que ancoravam na costa, suspeitando que serviam de base para o reabastecimento de submarinos alemães no Caribe.
O comportamento do Duque em conversas privadas era o combustível que alimentava a fogueira da desconfiança. Relatos de diplomatas e espiões indicavam que Eduardo acreditava piamente que o Reino Unido perderia a guerra. Em seus momentos de maior imprudência, ele sugeria que um bombardeio pesado sobre as cidades inglesas poderia forçar o governo a negociar a paz. Para um ex-soberano, tais palavras beiravam a alta traição. Ele via em Hitler um baluarte contra o comunismo e, talvez, o homem que poderia devolvê-lo ao trono de uma Inglaterra derrotada e submissa.

A vigilância sobre o Duque não era paranoia. Anos depois, a descoberta dos Arquivos de Marburg confirmaria que os nazistas tinham planos reais para Eduardo. A chamada Operação Willi pretendia sequestrar o Duque na Europa para usá-lo como um fantoche político. Quando ele foi enviado para as Bahamas, o contato não cessou; ele apenas mudou de canal. O FBI registrou que Wallis Simpson mantinha comunicações constantes com figuras ligadas ao Terceiro Reich, e que o casal se sentia injustiçado pela própria família real, um ressentimento que os tornava presas fáceis para a manipulação ideológica.
Dentro das Bahamas, a administração de Eduardo foi marcada por uma negligência quase aristocrática. Enquanto ele se preocupava em reformar a mobília da casa do governo com dinheiro público, a população local enfrentava crises de abastecimento e tensões sociais que culminaram em revoltas violentas em 1942. O Duque lidou com os protestos de forma ríspida, demonstrando uma desconexão total com a realidade do povo que deveria governar. Para ele, as Bahamas eram uma jaula dourada, e seus habitantes, figurantes em um exílio que ele considerava humilhante.

A inteligência britânica, o MI5, trabalhava em conjunto com o FBI, mas com uma camada extra de complexidade: eles precisavam proteger a imagem da coroa. Era um jogo de gato e rato onde a verdade precisava ser contida a todo custo. Se o público britânico soubesse que o ex-rei estava trocando segredos com o inimigo enquanto crianças morriam no Blitz, a monarquia poderia não sobreviver. Por isso, muitos dos relatórios de Hoover foram arquivados sob sete chaves, e o Duque foi mantido sob uma vigilância que misturava proteção real com prisão domiciliar diplomática.

O mistério de Nassau reside na profundidade do envolvimento de Eduardo. Ele era um traidor consciente ou apenas um homem amargurado e politicamente ingênuo? As evidências colhidas pelo FBI sugerem uma mistura perigosa de ambos. Ele permitiu que sua residência se tornasse um ponto de encontro para simpatizantes do fascismo e nunca escondeu seu desprezo pelas instituições democráticas que o removeram do poder. Em Nassau, o Duque de Windsor não era apenas um governador; ele era o centro de uma conspiração que esperava o momento certo para redesenhar o mapa da Europa sob a sombra da suástica.
Quando a guerra terminou, o Duque e a Duquesa deixaram as Bahamas com a mesma rapidez com que chegaram, deixando para trás um rastro de documentos censurados e perguntas sem resposta. O FBI encerrou sua vigilância oficial, mas as manchas deixadas por aquela temporada no Caribe nunca foram totalmente lavadas. O ex-rei que preferiu o amor ao trono quase entregou sua honra ao inimigo, provando que, nas sombras da Segunda Guerra, até as linhagens mais nobres podiam ser infiltradas pela escuridão da traição.
Fonte:
- HART, Bradley W. Watching the Windsors: The FBI’s Surveillance of the Duke and Duchess of Windsor.
- LOWNIE, Andrew. Traitor King: The Scandalous Exile of the Duke and Duchess of Windsor.
- HIGHAM, Charles. The Duchess of Windsor: The Secret Life.
- NATIONAL ARCHIVES (UK). The Marburg Files (Records of the German Foreign Office).
- FBI VAULT. Edward VIII (Duke of Windsor) Investigative Files.
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