O retrato visceral dos Alpini na Segunda Guerra Mundial. Entre montanhas geladas e ordens vazias, resta a fraternidade de quem nasce e morre no cume. Uma crônica sobre a honra de corpo em uma guerra sem glória e a dignidade na derrota.
O frio não pede licença. Ele se instala na medula, transforma o suor em agulhas de gelo e torna o fuzil um peso morto nas mãos de quem já não sente os dedos. Vi homens fortes, criados no granito das Dolomitas, chorarem como crianças enquanto o vento da cordilheira do Pindo uivava uma canção de morte que nenhum general em Roma seria capaz de compreender. Para o Estado-Maior, eram apenas números, divisões movidas em mapas coloridos sobre mesas de carvalho. Para a montanha, eram apenas carne e lã, submetidos à lei mais antiga do mundo: a sobrevivência do grupo ou a aniquilação solitária.
Eles usavam a penna mozza no chapéu com um orgulho que beirava o sagrado. Aquele pedaço de pena de corvo não era um adorno. Era o sinal de um pacto. O Alpino não é um soldado comum, recrutado em cidades barulhentas e jogado no front por um sorteio burocrático. Ele é o filho das alturas. O recrutamento regional garantia que o homem à sua esquerda fosse o vizinho de pasto, e o da direita, o primo que compartilhava o vinho na taberna da aldeia. Quando a ordem de ataque vinha, confusa e desprovida de sentido tático, eles não avançavam pela glória de Mussolini ou pela expansão de um império de papel. Avançavam porque não podiam fraquejar diante de seus próprios irmãos. A coesão interna era o único material que não congelava naquelas noites de 1940.

A campanha na Grécia foi o batismo de lama. O que deveria ser uma marcha triunfal transformou-se em um pesadelo de logística inexistente e mulas morrendo de exaustão em precipícios sem nome. A Divisão Julia, a “Milagrosa”, foi estraçalhada não apenas pelo inimigo, que defendia seu lar com a fúria dos antigos, mas pela incompetência criminosa de quem planejou uma guerra de montanha no outono, sem roupas adequadas, sem mantimentos, sem alma. Vi soldados com os pés gangrenados, envoltos em trapos, recusando-se a abandonar a linha de frente. Havia uma dignidade estoica naqueles rostos queimados pelo sol e pelo gelo. Era a honra de corpo manifestada no silêncio. Um Alpino não reclama. Ele apenas olha para o cume e continua a subir, mesmo que o cume seja a própria morte.
As ordens políticas eram um emaranhado de contradições. Ora aliados, ora ocupantes, ora traídos. No meio desse nevoeiro moral, a identidade Alpina permanecia como o único farol. “Somos Alpini”, diziam, e essa frase encerrava qualquer discussão. Era uma redoma de vidro contra a sujeira da política. Se Roma falhava, se o Rei fugia, se os tanques eram latas de conserva inúteis, o regimento ainda existia. A fraternidade das cordas, aprendida na paz, tornava-se a corrente que impedia o colapso total da moral durante as retiradas mais humilhantes.

A Rússia foi o capítulo final da tragédia. Nas estepes infinitas, onde a montanha era apenas uma memória distante, o espírito de corpo foi levado ao limite absoluto. O rio Don tornou-se o túmulo de uma geração. Enquanto as divisões de infantaria comum se dispersavam no caos da retirada, os Alpini mantinham a formação. Caminhavam quilômetros sob temperaturas que transformavam o hálito em cristal, carregando seus feridos, dividindo a última côdea de pão mofado. Não havia glória ali. Não havia medalhas que justificassem o horror de ver os companheiros de infância virarem estátuas de gelo à beira da estrada. O que restava era o “sentimento de montanha”, uma solidariedade primitiva que ignora a política e foca apenas no batimento cardíaco do homem ao lado.
Lembro-me do cheiro da lã molhada e do tabaco ruim que tentávamos acender com mãos trêmulas. O som das lagartas dos tanques soviéticos ao longe era como um trovão constante, prometendo o fim. Mas, mesmo diante do inevitável, o Alpino ajustava o chapéu. Havia uma elegância fúnebre na maneira como se preparavam para o último combate. Eles sabiam que a guerra estava perdida, que os objetivos eram estúpidos e que a pátria que os enviara estava em ruínas. Nada disso importava mais. O que importava era que nenhum Alpino seria deixado para trás enquanto houvesse alguém vivo para carregá-lo.

Essa coesão interna era a sua força e, paradoxalmente, a sua condenação. Por serem tão confiáveis, foram usados como bucha de canhão para cobrir as retiradas de quem tinha mais pressa em salvar a própria pele. O sacrifício alpino não foi um ato de fanatismo, mas um ato de amor ao grupo. Uma guerra sem glória exige um tipo especial de coragem, uma que não busca o aplauso das massas, mas o aceno silencioso de aprovação do seu capitão.
Hoje, quando olho para as fotografias daqueles rostos jovens envelhecidos precocemente, sinto o peso da perda. Não é a perda de território ou de poder político. É a perda de uma pureza de propósito que só existe na adversidade extrema. Eles foram os guardiões de uma honra que seus líderes nunca possuíram. Morreram em nomes de vales que nunca mais veriam, por uma causa que nunca entenderam, mas mantiveram-se íntegros. A montanha ensina que a queda é certa se a corda romper. Eles garantiram que a corda, feita de sangue e tradição, permanecesse esticada até o último suspiro.
O eco das botas na neve ainda ressoa para quem sabe ouvir. Não fala de vitória, pois a vitória foi uma mentira contada em palácios distantes. Fala de algo muito mais profundo e doloroso. Fala sobre ser homem quando tudo ao redor convida à bestialidade. Os Alpini voltaram para casa com os olhos vazios, trazendo apenas a amargura de quem viu a flor da juventude ser ceifada pelo descaso. Mas, nas pequenas aldeias, quando dois velhos se cruzam e veem a penna mozza, o mundo para. Eles sabem. Eles estiveram lá. E isso, por si só, é a única vitória possível em uma guerra que nunca deveria ter acontecido.
A história não é feita apenas de datas, mas do suor e do sangue de homens que não tiveram voz. Se você sente o peso dessa memória e deseja que esses relatos não se percam no gelo do tempo, junte-se a nós. Compartilhe esta crônica e ajude a manter viva a chama daqueles que, mesmo na derrota, nunca perderam a dignidade. O que você faria se sua única bússola fosse a lealdade ao homem ao seu lado? Comente abaixo.
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