O Sol Tropical sobre o Arame Farpado de Pindamonhangaba

A luz crua do Vale do Paraíba recorta as silhuetas da tripulação do Windhuk e de imigrantes japoneses, transformando uma fazenda paulista em um cenário surrealista de espera, vigilância e absurdo cotidiano durante o Estado Novo.


A luz crua do Vale do Paraíba não perdoa. Ela expõe a terra vermelha, fina como talco, que tinge as botas e se agarra à pele suada dos homens sob o sol implacável. Em Pindamonhangaba, a geometria rígida das cercas de arame tenta impor ordem ao caos orgânico da vegetação brasileira. O antigo Abrigo de Menores ergue-se como um monólito institucional de janelas escuras, adaptado pelo Estado Novo como um receptáculo para os “súditos do Eixo”. A composição da cena é de uma ironia mordaz: marinheiros sem mar do luxuoso Windhuk e agricultores japoneses arrancados de suas lavouras, dispostos como peças imóveis sob a vigilância armada da Polícia Especial.

Os alemães, agora bronzeados e magros, seguram enxadas com a mesma postura técnica que usariam no convés; o trabalho braçal é a única barreira contra o vazio corrosivo do tempo. O cheiro nos alojamentos coletivos é uma mistura densa de tabaco barato, sabão de potassa e virilidade confinada. O surrealismo de guerra se manifesta nos contrastes visuais: mãos calejadas e sujas esculpem objetos de madeira delicados, pequenas provas de humanidade que destoam da brutalidade rústica do ambiente.

campo-de-pinda-2-1024x559 O Sol Tropical sobre o Arame Farpado de Pindamonhangaba

A convivência forçada gera quadros de um absurdo chocante. Uma orquestra improvisada, com metais polidos refletindo o sol, toca valsas que soam fantasmagóricas no calor de trinta graus, a música flutuando sobre as cercas para os ouvidos da população local. Em outro ponto, o silêncio imposto aos japoneses cria uma barreira quase sólida. Mulheres tentam manter a dignidade lavando roupas em tanques de cimento; a água ensaboada escorre como um rio efêmero que desaparece na terra seca, um ato de resistência doméstica vigiada.

A tensão política se dissolve em momentos de estranheza, como um jogo de futebol no campo de terra batida onde a poeira sobe como fumaça de explosão, vigiado por um guarda brasileiro que boceja, a espingarda apoiada desleixadamente. Mas o fanatismo tenta sobreviver nas sombras: a saudação romana ainda ocorre, braços estendidos numa coreografia rígida que parece ridícula cercada por bananeiras e cupinzeiros. As noites são preenchidas pela observação de fotos de família desgastadas à luz fraca. Quando a dissolução do campo finalmente acontece, não há triunfo. Os portões se abrem para uma dispersão burocrática. Homens com roupas mal ajustadas encaram a estrada de terra, sem Alemanha ou Japão para voltar, resignados a um futuro incerto no país que os encarcerou. A fotografia final é o campo vazio, uma cicatriz na paisagem.

Fonte:

  • Arquivo Público do Estado de São Paulo (Acervo DEOPS/SP).

  • “O Brasil e a Segunda Guerra Mundial” – Arquivos do Ministério das Relações Exteriores.

  • Registros históricos da Prefeitura de Pindamonhangaba sobre o Abrigo de Menores e sua utilização na década de 1940.


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