Na manhã de terça-feira, 20 de janeiro de 1942, quinze homens de alta patente do regime nazista e da SS estacionaram seus veículos em frente a uma mansão de veraneio no número 56-58 da rua Am Großen Wannsee, no sudoeste de Berlim. O encontro, convocado por Reinhard Heydrich, chefe da Polícia de Segurança e do SD, tinha um objetivo estritamente técnico: coordenar a implementação da “Solução Final para a Questão Judaica na Europa”. Em pouco menos de noventa minutos, entre taças de conhaque e documentos timbrados, a burocracia estatal alemã selou o destino de milhões de seres humanos, transformando o assassinato em massa em uma operação logística de escala continental.
O convite para a reunião havia sido enviado semanas antes. Heydrich portava uma autorização assinada por Hermann Göring, datada de julho de 1941, que o encarregava de apresentar um plano organizacional e financeiro para a eliminação da presença judaica na esfera de influência alemã. O que ocorreu naquela manhã não foi a decisão de iniciar o extermínio — que já estava em curso por meio dos fuzilamentos em massa dos Einsatzgruppen no Leste — mas sim a harmonização dos esforços entre os ministérios civis e o aparato repressivo da SS.

Sentados à mesa estavam representantes do Ministério do Interior, da Justiça, das Relações Exteriores e do Plano de Quatro Anos. Oito dos quinze presentes possuíam doutorados acadêmicos. Não eram soldados de infantaria ou fanáticos de rua, mas administradores, advogados e diplomatas. Adolf Eichmann, o especialista em assuntos judaicos da Gestapo, servia como secretário, encarregado de redigir a ata que passaria à história como o Protocolo de Wannsee.
Heydrich abriu a sessão estabelecendo sua autoridade absoluta sobre o projeto. Ele apresentou uma lista estatística meticulosa, preparada pelo escritório de Eichmann, que enumerava a população judaica de cada país da Europa. O documento dividia as vítimas em dois grupos: “A”, países sob controle direto ou ocupação alemã, e “B”, países aliados, neutros ou ainda não conquistados. Os números eram ambiciosos. A lista incluía 5 milhões de judeus na União Soviética, 700 mil na Hungria, 330 mil na Inglaterra e 200 na Albânia. O total final projetado para a “Solução Final” era de 11 milhões de pessoas.

O protocolo detalhava o método com uma frieza gramatical que evitava palavras como “assassinato” ou “morte”, preferindo termos como “tratamento apropriado” ou “evacuação”. Heydrich explicou que os judeus seriam levados para o Leste em grandes colunas de trabalho. “Uma grande parte será eliminada por causas naturais”, registrou a ata, referindo-se ao esgotamento físico. Os sobreviventes, descritos como o “núcleo mais resistente”, precisariam ser “tratados em conformidade”, pois, se libertados, representariam a semente de um novo renascimento judaico.
A discussão técnica fluiu sem objeções morais. O subsecretário de Estado Martin Luther, das Relações Exteriores, expressou preocupações sobre as complicações diplomáticas de deportações em massa em países como a Dinamarca, sugerindo que o foco inicial deveria ser o sudeste e o oeste da Europa. Wilhelm Stuckart, do Ministério do Interior, debateu as complexidades jurídicas envolvendo os Mischlinge — pessoas de ascendência mista — e como as leis de Nuremberg deveriam ser aplicadas para simplificar o processo de esterilização ou deportação.

Josef Bühler, secretário de Estado do Governo Geral (a Polônia ocupada), foi enfático ao pedir que a “Solução Final” começasse em seu território. Ele argumentou que o transporte não seria um problema e que a maioria dos judeus naquela região já era considerada “incapaz para o trabalho”. Sua prioridade era remover o que chamava de “ameaça epidêmica” o mais rápido possível.
O clima na mansão era de eficiência profissional. Enquanto os garçons serviam almoço e bebidas, os homens discutiam a capacidade dos trens da Deutsche Reichsbahn e a coordenação entre as autoridades de ocupação e Berlim. Heydrich buscava, acima de tudo, a cumplicidade de toda a estrutura estatal. Ao sair de Wannsee, ele possuía o que queria: o reconhecimento de que a SS detinha o comando, mas que todos os ministérios seriam engrenagens ativas no processo de extermínio.
Adolf Eichmann recordaria anos mais tarde, durante seu julgamento em Jerusalém, a atmosfera de alívio que sentiu ao observar seus superiores. “Naquele momento, senti algo como uma satisfação de Pilatos, pois me senti livre de qualquer culpa”, afirmou. Se os líderes mais brilhantes e influentes do Estado estavam de acordo e ansiosos para colaborar, quem seria ele para questionar?
Após o encerramento da conferência, Eichmann permaneceu com Heydrich e Heinrich Müller junto à lareira da mansão. Em um momento de descontração após o “trabalho bem-feito”, Heydrich, que raramente fumava, acendeu um cigarro e bebeu conhaque. O Protocolo de Wannsee foi posteriormente impresso em trinta cópias e distribuído aos participantes sob o selo de “Assunto Secreto de Estado”.

A execução das decisões tomadas na vila foi imediata. Na primavera de 1942, as câmaras de gás de Belzec, Sobibor e Treblinka começaram a operar em plena capacidade, inseridas na Operação Reinhard, batizada em homenagem ao anfitrião de Wannsee após seu assassinato em Praga, meses depois. O que foi escrito naquela ata tornou-se a realidade física de milhões de deportados que, amontoados em vagões de carga, atravessaram o continente em direção aos centros de extermínio.

Wannsee não foi o local onde o ódio nasceu, mas o local onde o ódio foi codificado em atas, tabelas e fluxogramas. O documento sobreviveu por acaso. Em 1947, investigadores americanos encontraram a cópia número 16, pertencente a Martin Luther, nos arquivos do Ministério das Relações Exteriores. O texto permanece como o registro mais incriminador da colaboração burocrática necessária para realizar um crime de dimensões industriais. Ali, a morte deixou de ser um evento impulsivo para se tornar uma rubrica orçamentária, discutida com polidez em uma tarde fria de janeiro.
O Protocolo de Wannsee é a prova documental da barbárie organizada. Explore outros documentos originais e análises detalhadas sobre a estrutura do Terceiro Reich aqui no Portal Segunda Guerra Brasil.
Fontes
- GERMANY. Protocol of the Wannsee Conference, January 20, 1942. House of the Wannsee Conference Memorial and Educational Site.
- GILBERT, Martin. The Holocaust: A History of the Jews of Europe During the Second World War. Henry Holt & Co, 1985.
- ROSEMAN, Mark. The Villa, the Lake, the Meeting: Wannsee and the Final Solution. Penguin Books, 2002.
- LONGERICH, Peter. Wannsee: Hitler’s Blueprints for the Final Solution. Oxford University Press, 2021.
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