Sangue no Rio Litani: A Aliança de Fogo entre Comandos Australianos e o Palmach

Em junho de 1941, soldados australianos e a vanguarda judaica do Palmach lutaram ombro a ombro contra as forças de Vichy no Líbano. Um relato de coragem sob o sol do Levante, onde Moshe Dayan perdeu um olho e heróis anônimos garantiram a vitória.


Eles eram homens de mundos diferentes unidos pela necessidade da guerra e pela poeira sufocante do Levante. De um lado estavam os australianos da 7ª Divisão. Eram voluntários. Eram altos e bronzeados. Usavam seus chapéus de feltro com a aba levantada e carregavam a irreverência típica dos rapazes do interior de Queensland ou das docas de Sydney. Do outro lado estava um grupo de irregulares judeus. Eram guias e batedores. Eles conheciam cada ravina e cada leito seco de rio daquela terra bíblica. Eram o Palmach. A força de ataque. A elite não oficial que mais tarde formaria a espinha dorsal das Forças de Defesa de Israel.

Era junho de 1941. A Operação Exporter tinha começado. O objetivo era simples e brutal. Invadir o Líbano e a Síria controlados pela França de Vichy para impedir que os aeródromos caíssem nas mãos da Luftwaffe alemã. O inimigo não era alemão nem italiano. Eram franceses. Soldados profissionais da Legião Estrangeira e tropas coloniais argelinas e senegalesas bem treinadas e bem equipadas. Eles conheciam o terreno e tinham a artilharia posicionada nas colinas.

O obstáculo imediato era o Rio Litani.

O Major-General Arthur “Tubby” Allen sabia que precisava daquela ponte. Sem ela seus tanques e caminhões ficariam presos na margem sul sob a mira dos canhões franceses de 75mm. Ele confiou a missão à 21ª Brigada sob o comando do Brigadeiro Jack Stevens. Para guiar seus homens através da escuridão e sabotar as posições francesas antes do ataque principal ele precisava de olhos locais. Foi aí que entrou o esquadrão do Palmach.

Operacao-Exporter-2 Sangue no Rio Litani: A Aliança de Fogo entre Comandos Australianos e o Palmach
Imagem ilustrativa criada com iteligência artificial

Entre eles estava um jovem oficial de 26 anos chamado Moshe Dayan. Ele e seus homens falavam árabe. Conheciam os caminhos de cabras. A missão deles era infiltrar-se à frente da 21ª Brigada. Deviam tomar a ponte Qasmiye antes que os franceses a explodissem.

Na noite de 7 de junho a escuridão cobria o avanço. Os homens do Palmach e uma equipe de comandos australianos avançaram silenciosamente. O plano dependia da surpresa. O som das botas no cascalho era o único ruído. O cheiro de sálvia selvagem misturava-se com o óleo de armas e o suor nervoso. Eles chegaram perto da ponte. Mas a guerra raramente segue o roteiro dos generais. Os franceses estavam alertas. Uma carga de demolição detonou com um rugido que sacudiu o vale. A ponte desabou nas águas rápidas do Litani.

A missão de captura falhou. Agora restava a luta pela sobrevivência e pela transposição do rio sob fogo.

O dia amanheceu com um calor impiedoso. O sol do verão libanês transformou o vale em um forno. Do outro lado do rio os franceses estavam entrincheirados em casamatas de concreto e posições de metralhadora bem camufladas. Eles tinham a vantagem da altura. Os australianos do 2/16º e do 2/27º Batalhões olharam para a água barrenta e para a encosta íngreme do outro lado. Sabiam o que tinham que fazer.

forcas-de-Vichy Sangue no Rio Litani: A Aliança de Fogo entre Comandos Australianos e o Palmach
Imagem ilustrativa criada com iteligência artificial

O Tenente-Coronel Arnold Brown do 2/16º Batalhão ordenou o avanço. Não havia barcos suficientes. Alguns homens encontraram pequenos botes de lona. Outros simplesmente pularam na água e nadaram. As balas traçantes rasgavam a superfície do rio. Homens gritavam. A água ficou tingida de vermelho. O sargento gritava ordens para manter o espaçamento. “Não se aglomerem! Espalhem-se seus bastardos ou vão morrer todos aqui!”

Enquanto o corpo principal da infantaria australiana lutava para ganhar a margem norte o grupo de Dayan travava sua própria batalha desesperada em um posto policial perto da costa. Eles haviam tomado o prédio mas estavam cercados. Os franceses despejavam fogo pesado sobre eles. As granadas explodiam contra as paredes de pedra. A munição estava acabando.

Foi nesse momento que a liderança de combate se provou. Dayan subiu ao telhado do posto policial para observar as posições francesas com seus binóculos. Ele precisava localizar a origem do fogo de morteiro que castigava seus homens. Ele levantou os binóculos. O sol brilhou nas lentes. Um atirador francês viu o reflexo. A bala atingiu o binóculo, estilhaçou o vidro e penetrou no olho esquerdo de Dayan.

Ele caiu para trás com o rosto em sangue. Não houve gritos de pânico. Apenas a ação rápida de seus companheiros que o arrastaram para a segurança relativa do interior do prédio. Mesmo ferido gravemente ele continuou a tentar coordenar a defesa até que a dor e a perda de sangue o silenciassem. Aquele ferimento definiria sua imagem para o resto da vida mas naquele momento era apenas mais um soldado ferido esperando que os australianos chegassem.

E eles chegaram.

Os homens do 2/16º Batalhão conseguiram firmar uma cabeça de ponte. Molhados e cobertos de lama eles fixaram baionetas. O som do aço sendo encaixado nos rifles Lee-Enfield ecoou pelo vale. Eles subiram a encosta. Era o tipo de ataque frontal que os manuais desencorajam mas que a coragem do soldado cidadão torna possível. Eles avançaram de pedra em pedra. Usaram granadas Mills para limpar os ninhos de metralhadoras Hotchkiss.

O combate foi corpo a corpo. O som era ensurdecedor. Explosões de artilharia misturadas com gritos em inglês, francês e hebraico. Os australianos admiraram a tenacidade dos judeus que mantiveram sua posição contra probabilidades impossíveis. Os homens do Palmach viram a ferocidade disciplinada da infantaria australiana.

A batalha pelo Litani não foi decidida por grandes manobras estratégicas desenhadas em mapas em um quartel-general distante. Foi decidida por cabos e soldados rasos. Foi decidida pelo soldado que viu seu amigo cair e continuou atirando. Foi decidida pela equipe de morteiro que acertou o ângulo exato para silenciar uma casamata francesa.

Ao cair da tarde os franceses começaram a recuar. A posição estava tomada. Os engenheiros australianos logo começaram a trabalhar para lançar uma ponte flutuante para que os tanques pudessem passar. O custo foi alto. Corpos de jovens de Melbourne e Perth jaziam ao lado de rapazes dos kibutzim da Galileia.

O Capitão do Palmach Yigal Allon que também participou da campanha olhou para os soldados australianos limpando seus rifles e partilhando cigarros. Havia um respeito mútuo nascido no fogo. Eles eram todos voluntários. Eram cidadãos que pegaram em armas porque era necessário.

A batalha do Rio Litani muitas vezes é esquecida nos livros de história que preferem focar em El Alamein ou na Normandia. Mas para os homens que estiveram lá aquele rio foi o centro do universo. Foi onde aprenderam que a coragem não tem nacionalidade. Foi onde o futuro Ministro da Defesa de Israel perdeu um olho e ganhou uma lição sobre a guerra moderna.

Operacao-Exporter-3 Sangue no Rio Litani: A Aliança de Fogo entre Comandos Australianos e o Palmach
Imagem ilustrativa criada com iteligência artificial

Os australianos continuaram seu avanço rumo a Beirute. O Palmach continuou sua luta nas sombras. Mas naquela margem de rio sangrenta em 1941 eles foram uma só força. Eles comeram a mesma ração enlatada. Beberam da mesma água morna. E sangraram a mesma cor na terra seca do Líbano. É assim que a guerra une os homens. Não pelos discursos dos políticos. Mas pela experiência compartilhada de sobreviver quando tudo ao redor tenta matá-lo.

A ponte foi reconstruída. Os caminhões passaram. A guerra seguiu seu curso. Mas a memória daqueles dias permaneceu gravada na mente de cada sobrevivente. Eles sabiam o que tinham feito. Eles tomaram o Litani.

FONTES :

Long, Gavin. Greece, Crete and Syria. Australia in the War of 1939–1945. Series 1 – Army. Vol. II. Canberra: Australian War Memorial, 1953.

Teveth, Shabtai. Moshe Dayan: The Soldier, the Man, the Legend. Houghton Mifflin, 1973.

Arquivos Nacionais da Austrália (NAA): War Diary, 2/16th Infantry Battalion, June 1941.

Bar-Zohar, Michael. The Armed Prophet: A Biography of Ben Gurion. (Referências às operações do Palmach no Líbano)


O combate no Rio Litani foi apenas um dia em uma guerra que durou seis anos. Para compreender a totalidade deste conflito, acesse os demais artigos no portal Segunda Guerra Brasil. Temos análises táticas e narrativas reais sobre outras batalhas decisivas esperando por sua leitura.

#OperaçãoExporter #RioLitani #MosheDayan #21ªBrigadaAustraliana #CampanhadaSíria #ForçasdeVichy #Palmach #2/16ºBatalhão, #General Lavarack


Descubra mais sobre Portal Segunda Guerra Brasil

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta