A Rotina Mecanizada e o Testemunho de Kim Hak-sun nas Estações de Conforto

O relato detalhado sobre o sistema de exploração sexual militar japonês na China revela a organização logística e o cotidiano brutal enfrentado por mulheres como Kim Hak-sun sob a guarda do Exército Imperial.


A poeira amarela da estrada que liga Pequim às províncias do sul da China encobre os comboios de caminhões militares que transportam mais do que munição e mantimentos. Entre as caixas de madeira e os soldados recém-alistados viajam mulheres jovens. Elas não usam uniformes nem carregam rifles. Kim Hak-sun é uma dessas figuras civis arrastadas para a engrenagem burocrática da guerra. Nascida na Manchúria e criada em meio à instabilidade da ocupação. ela tinha apenas dezessete anos quando o destino a colocou na caçamba de um veículo militar sob falsas promessas de trabalho.

A realidade que aguardava Kim e outras jovens coreanas não era uma fábrica têxtil ou um posto de cozinha. O destino final era um edifício de tijolos cercado por arame farpado e sentinelas armados perto de uma base do Exército Imperial Japonês. O local operava com a precisão de um quartel. Não havia caos administrativo. Havia horários. tabelas e uma hierarquia rígida que transformava seres humanos em suprimentos de guerra. A estrutura era conhecida eufemisticamente pelos oficiais como “estação de conforto”.

O alojamento de Kim consistia em um cubículo minúsculo separado das outras garotas por divisórias finas de madeira ou tecido. O espaço mal comportava um catre e uma bacia com água. O cheiro predominante não era o da pólvora das linhas de frente. mas uma mistura acre de desinfetante fenol. tabaco barato e suor acumulado. A logística para a manutenção dessas mulheres seguia protocolos estritos. Médicos militares visitavam o local regularmente. não para garantir o bem-estar das ocupantes. mas para inspecionar a “mercadoria” e prevenir que doenças venéreas se espalhassem para as tropas e comprometessem a capacidade de combate do imperador. As injeções de “Número 606” ou Salvarsan eram administradas com eficiência dolorosa.

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A rotina diária de Kim Hak-sun expõe a natureza industrial do abuso. Os soldados formavam filas do lado de fora dos cubículos. A espera era organizada. Os homens, muitas vezes cobertos de lama e exaustos das patrulhas, seguravam bilhetes ou tíquetes distribuídos pelo comando. A patente militar ditava o horário e a duração. Oficiais durante a noite. soldados rasos durante o dia. Kim relata que em dias de grande movimentação de tropas ou antes de grandes ofensivas. o número de homens que passava por seu quarto chegava a trinta ou quarenta. A porta abria e fechava em um ritmo mecânico. O som das botas pesadas no assoalho de madeira tornou-se a trilha sonora de sua existência.

Não havia espaço para recusa. A tentativa de fuga era punida com violência imediata. Kim descreve a presença constante de um “mestre” da estação. um civil japonês ou coreano que administrava o local sob a supervisão militar. A comida era escassa. muitas vezes apenas restos das rações dos soldados. arroz misturado com cevada e sopa rala. A fome era uma constante tão presente quanto o medo. As roupas que trouxeram de casa desgastavam-se e eram substituídas por trajes simples. muitas vezes cedidos pelo próprio exército ou improvisados.

A desumanização estendia-se à identidade. Kim Hak-sun foi forçada a adotar um nome japonês. Aiko. O uso da língua coreana era proibido ou desencorajado na presença dos oficiais. Elas eram tratadas como peças de equipamento. necessárias para elevar o “moral” da tropa após batalhas sangrentas. A violência não se limitava ao ato sexual forçado. Havia espancamentos com bainhas de espadas e chutes quando as mulheres demonstravam exaustão ou resistência. O corpo de Kim carrega as marcas físicas dessa disciplina militar imposta sobre civis.

A movimentação geográfica de Kim acompanhou o avanço e os recuos do exército. De Pequim para Xangai. e depois descendo para o calor úmido de Cantão. O transporte era feito em trens de carga ou navios militares. onde as mulheres eram mantidas nos porões. longe dos olhos de qualquer observador externo. Em cada nova cidade. a estrutura se repetia: o arame farpado. os exames médicos frios e a fila interminável de homens uniformizados.

O relato de Kim sobre o fim de sua provação na década de 40 ilustra o caos do colapso japonês. Não houve uma libertação formal. Com a aproximação das forças aliadas e o recuo desordenado das linhas japonesas. as estações foram abandonadas. Muitas mulheres foram deixadas para trás nas ruínas de cidades bombardeadas. sem dinheiro. documentos ou meios de voltar para casa. A sobrevivência dependia da sorte e da caridade de estranhos em uma terra hostil.

A história de Kim Hak-sun nas estações de conforto não é um incidente isolado de violência de guerra. É o retrato de um sistema institucionalizado onde o corpo feminino foi anexado à logística militar com a mesma frieza com que se calculava o uso de munição ou combustível. O silêncio que imperou sobre essas instalações durante décadas contrasta com o barulho ensurdecedor da rotina que ela descreve: o bater das portas. as ordens gritadas em japonês e o choro abafado nas divisórias vizinhas. Este despacho busca registrar não apenas a dor. mas a estrutura operacional que permitiu tal realidade funcionar à vista de todo um exército.


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