Como o 1º GIA e a artilharia antiaérea transformaram um rochedo vulcânico em uma fortaleza inexpugnável, lutando contra o Eixo e a maresia.
A guerra chegou a Fernando de Noronha a bordo do vapor Santarém. Não com o estrondo de batalhas, mas com o ranger de guindastes e o cheiro enjoativo de óleo diesel queimado sob o sol equatorial. Para os artilheiros do 1º Grupo Independente de Artilharia (1º GIA) e do 1º Grupo do 2º Regimento de Artilharia Antiaérea, o desembarque na ilha não foi apenas uma manobra logística; foi o início de um duelo diário entre a engenharia humana e a natureza implacável do Atlântico Sul.
O Desembarque da Fortaleza
A ilha, descrita pelos soldados como “bela e maldita”, não possuía porto. A geografia hostil exigiu que a engenharia militar improvisasse uma solução imediata: uma ponte tosca, mas robusta, de 80 metros, lançada sobre as pedras escorregadias pelos pontoneiros do Tenente César. Foi por essa artéria precária que a artilharia pesada precisou passar.
O destaque técnico dessa operação foi a movimentação dos canhões Saint-Chamond 75mm do 1º GIA. De origem francesa, essas peças de artilharia, embora veteranas, ofereciam a cadência e a precisão necessárias para a defesa de costa móvel. Retirá-las das barcaças exigiu o uso de tratores de lagarta, que rugiam nas areias fofas da praia, arrastando toneladas de aço montanha acima. O Major Aragão descreve a cena como um esforço hercúleo, onde homens e máquinas pareciam fundir-se em uma única entidade coberta de graxa e suor, lutando para posicionar as baterias nos pontos estratégicos.
A Defesa dos Picos: Alto da Floresta e Ponta da Sapata
Se a costa era território dos Saint-Chamond, o céu pertencia aos Krupp 88mm. A instalação dessas peças no Alto da Floresta e na Ponta da Sapata representou um desafio balístico e topográfico. O canhão 88mm, com seu perfil impressionante e longo tubo voltado para o firmamento, era a joia da coroa da defesa antiaérea. Sua presença nos picos mais altos permitia uma varredura de 360 graus, criando uma cúpula de proteção sobre o arquipélago.
A rotina nas guarnições desses picos era marcada pela tensão do “black-out”. À noite, a ilha mergulhava na escuridão absoluta. Qualquer chama — até mesmo a brasa de um cigarro — era proibida. O silêncio só era quebrado pelo som das sirenes em exercícios de simulação, momentos em que a “colmeia” militar entrava em frenesi. Os artilheiros corriam para seus postos, os tubos dos canhões farejavam o ar em busca de aeronaves inimigas, e os holofotes de busca rasgavam a noite tropical, criando um espetáculo visual de luz e sombra que, embora belo, lembrava a todos da ameaça constante dos submarinos e aviões do Eixo que rondavam a rota Natal-Dakar.
O Inimigo Invisível: Sal e Ferrugem
Enquanto o inimigo humano permanecia uma ameaça latente, o inimigo natural atacava sem trégua. A atmosfera salina de Noronha, saturada pela maresia, atuava como um ácido lento sobre o metal bélico. A manutenção dos Saint-Chamond e dos Krupp exigia uma disciplina quase religiosa.
Não bastava apenas lubrificar; era necessário criar uma barreira física contra a corrosão. O “material luzidio” descrito nos relatórios não era vaidade, mas sobrevivência. As guarnições passavam horas limpando culatras, mecanismos de disparo e miras ópticas, removendo a camada microscópica de sal que se depositava a cada rajada de vento. A ferrugem era tratada como sabotagem. Em um ambiente onde a água potável era racionada e trazida do continente (ou obtida em desalinizadores precários), gastar óleo e estopa na limpeza das armas era a prioridade absoluta. A sobrevivência da ilha dependia de que, no momento crucial, o percussor batesse e a carga detonasse sem falhas.
Ao final da missão, o que restou não foram apenas as casamatas de concreto hoje integradas à paisagem, mas a memória de uma operação onde a técnica militar precisou se adaptar à força bruta da natureza tropical.
Fonte: Guardando os Céus dos Trópicos
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