Através das memórias do Sargento Ilo Francisco Marques de Barros Barreto, esta reportagem de campo revela episódios omitidos pelos jornais, focando na dura realidade e na resiliência dos pracinhas na Itália.
Sob o cinza opressor do inverno italiano, onde a neve se mistura à fuligem da pólvora, a história da Força Expedicionária Brasileira era escrita com sangue e silêncio. O Sargento Ilo Francisco Marques de Barros Barreto, um observador atento dos detalhes que a censura muitas vezes barrava, trazia à luz a guerra que não aparecia nas manchetes triunfais do Rio de Janeiro. Enquanto os comunicados oficiais falavam em avanços estratégicos, Barreto descrevia a luta visceral do homem comum contra o frio que “parecia entrar nos ossos antes mesmo de atingir a pele”.
“A gente via o companheiro do lado tremendo, não de medo, mas porque o equipamento não dava conta daquele gelo todo”, recordava o sargento sobre as noites nas foxholes. Para ele, a guerra real era feita desses momentos de desamparo humano. Ele narrava como o soldado brasileiro, muitas vezes visto como improvisador, precisava de uma “coragem cega” para cruzar campos que sabiam estar infestados de minas Schü-mine alemãs, as terríveis “comedoras de pé”. Esse era um dos fatos ocultos: a tensão psicológica de um inimigo que você não via, mas que sentia em cada estalo de galho seco na floresta.
Outro ponto que os jornais da época omitiam era a complexa engrenagem da sobrevivência. Ilo Barreto mencionava que, em certos setores, a comida chegava “congelada como pedra”, e o soldado precisava aquecer a lata de ração com o próprio corpo ou pequenas piras improvisadas, sob o risco de denunciar a posição para os morteiros inimigos. “O jornal dizia que estávamos bem alimentados, mas a verdade é que a fome e o frio eram tão inimigos quanto os alemães lá no alto do morro”, observava o graduado, expondo a face nua da logística de guerra.
A relação com os civis italianos também guardava histórias que a história oficial pouco explorou. O sargento descrevia episódios onde a tropa dividia o pouco que tinha. “Eu vi pracinha tirando o pão da própria boca para dar a uma criança em uma vila destruída”, dizia ele, reforçando que a alma brasileira se mantinha intacta mesmo sob a “sinfonia da morte” da artilharia. Esse contato humano era o que mantinha o moral elevado, uma diplomacia feita de gestos simples que nenhuma propaganda de guerra conseguia fabricar.
Barreto também guardava recordações sobre os “vácuos” de comando e os momentos em que a iniciativa individual de um cabo ou soldado salvava todo um pelotão. Eram atos de bravura anônima que, por não terem testemunhas oficiais de alta patente, acabavam perdidos nos arquivos. Ele via a guerra como um mosaico de pequenas resistências. Para o sargento, a conquista de uma cota não era apenas um marco no mapa, era o resultado de “homens que mal conseguiam sentir os dedos, mas que não soltavam o fuzil por nada”.
Ao observar o horizonte dos Apeninos, o relato do Sargento Ilo Barreto se tornava um documento necessário contra o esquecimento. Ele não falava de glórias abstratas, mas de “botas encharcadas, olhos vermelhos de sono e a saudade que batia forte quando o silêncio caía sobre o vale”. A crônica dele é o testemunho daquele Brasil que foi para a Europa provar seu valor, enfrentando não apenas o exército de Hitler, mas as negligências e as durezas de um mundo em colapso. O que ele viu e narrou permanece como a fotografia mais fiel e humana da nossa passagem pela Itália.
Fonte: História Oral do Exército na Segunda Guerra
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