Histórias da FEB: O Avanço Silencioso do 1º Esquadrão de Reconhecimento nos Apeninos

A neve encobre as minas e o medo na estrada 64. O texto documenta o rastro das viaturas M8 Greyhound e Jeeps do Esquadrão Pitaluga em uma patrulha onde cada curva representa um risco iminente.


O final de 1944 castiga os Apeninos e o inverno italiano não perdoa a pele exposta dos homens do 1º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado. A luz da manhã apresenta-se difusa e cinzenta. O brilho fraco mal consegue penetrar a neblina densa que cobre o Vale do Rio Reno. O silêncio domina o ambiente. Apenas o ronco metálico e engasgado dos motores em marcha lenta quebra a quietude branca da paisagem.

O Capitão Plínio Pitaluga observa o terreno à frente. Seus olhos estreitam-se contra o vento cortante. O oficial ajusta o capacete e sente a textura do aço gelada ao toque. Ao seu redor, a tropa prepara-se para mais uma missão de reconhecimento. A ordem consiste em avançar pela estrada desconhecida, mapear as posições inimigas e atrair o fogo para revelar onde os alemães esconderam as metralhadoras e os temidos canhões 88mm. O cenário configura um jogo de xadrez onde as peças são feitas de carne, osso e lataria blindada.

A viatura M8 Greyhound, batizada de “Leão”, aguarda o sinal. Seus pneus de combate, com sulcos profundos, encontram-se parcialmente submersos na lama viscosa conhecida pelos italianos como fango. Essa mistura de terra, gelo derretido e óleo forma uma cola que segura as botas dos soldados e ameaça prender os veículos mais pesados. Um mecânico, com as mãos sujas de graxa preta, desfere as últimas batidas no chassi. O som seco do metal ecoa. Ele verifica a torre aberta do blindado. O artilheiro posicionado ali em cima ficará exposto a tudo: granadas, atiradores de elite e o frio capaz de congelar os dedos no gatilho da metralhadora .50.

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Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial

Mais atrás, um Jeep Willys posiciona-se na coluna. O veículo não serve apenas ao transporte, mas funciona como uma ferramenta de sobrevivência adaptada. Na frente do radiador, uma barra de ferro soldada aponta para cima. O motorista explica com um gesto rápido que o dispositivo serve para cortar fios de aço esticados pelos alemães na altura do pescoço. Trata-se de uma armadilha invisível e mortal para quem trafega com o para-brisa abaixado. O chão do Jeep também recebe atenção especial. Sacos de areia empilhados tentam oferecer alguma proteção contra a explosão de minas terrestres. A blindagem é improvisada, enquanto a necessidade de avançar permanece absoluta.

A coluna inicia o movimento. As rodas giram devagar e o gelo estala sob a borracha. A estrada serpenteia entre colinas mortas e árvores esqueléticas despidas pelo bombardeio constante. Não se ouvem pássaros. O mundo parece esvaziado de vida e restam apenas os homens de uniforme verde-oliva e suas máquinas de guerra. A lente imaginária foca no rosto de um cabo. Ele masca um pedaço de fumo. Seu maxilar move-se ritmicamente enquanto seus olhos varrem as encostas à procura do brilho não natural de um binóculo inimigo ou o movimento sutil de um arbusto.

O perigo mantém-se iminente e invisível. O relato que circula entre os pelotões menciona um companheiro perdido em novembro. O soldado tentou desbordar uma posição de metralhadora alemã durante uma patrulha semelhante e o fogo inimigo o atingiu. O corpo permaneceu no local. A neve caiu e cobriu tudo como um lençol branco e indiferente. O resgate tornou-se impossível naquele momento. Ele integrou-se à paisagem congelada e só será encontrado meses depois, em abril, quando o sol da primavera derreter o gelo e uma habitante local avistar o uniforme brasileiro emergindo da terra. Essa imagem assombra a patrulha, pois nenhum homem deseja ser o próximo a ficar para trás.

A estrada descreve uma curva fechada à direita. O M8 da ponta interrompe a marcha. O silêncio retorna mais denso que antes. O rádio emite chiados e vozes distorcidas trocam códigos. O comandante do carro de combate levanta a mão em sinal de alerta. Algo na pista chama a atenção. Pode ser terra revolvida indicando uma mina Teller ou apenas um buraco de morteiro antigo. A dúvida acompanha constantemente o reconhecimento. O artilheiro gira a torre e o canhão de 37mm aponta para uma casa de pedra sem teto a duzentos metros. As janelas vazias assemelham-se às órbitas de uma caveira a observar a estrada.

Um grupo de partigiani surge na encosta lateral. Eles vestem roupas civis misturadas com peças de uniformes e carregam rifles antigos. Os guerrilheiros gesticulam para os brasileiros. A comunicação flui com dificuldade, pois o dialeto local mistura-se com o italiano aprendido às pressas pelos soldados. O grupo avisa sobre movimentação alemã na próxima crista. A informação chega fragmentada. A guerra de guerrilha constitui-se de sombras e boatos. Pitaluga sabe da necessidade de verificar a situação com os próprios olhos.

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Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial

A ordem de avançar soa novamente. O motor do M8 ruge e cospe fumaça azulada. O cheiro de diesel queimado inunda o ar frio. A patrulha segue metro a metro. O medo permanece controlado e guardado no bolso junto com a foto da família. A missão é clara: ver sem ser visto, ou ver e sobreviver para relatar. O registro visual captura o instante em que a roda dianteira do Jeep toca a neve intocada da curva. A luz reflete no metal molhado. O soldado no banco de trás segura o rifle com força e os nós dos dedos ficam brancos. A história escreve-se ali, na lama, no gelo e na tensão de homens transformados em ponta de lança.

O sol começa a baixar e pinta o céu de um tom roxo. A temperatura cai ainda mais. Os veículos precisam retornar antes da escuridão total, pois a noite pertence aos patrulheiros a pé e aos perigos ocultos. O retorno carrega a mesma tensão da ida. O rastro deixado na neve funciona como um mapa para a artilharia inimiga. Mas, naquele dia, a sorte caminhou ao lado do Esquadrão. Eles trazem as coordenadas e a certeza da presença inimiga. Amanhã, quando o gelo cobrir o para-brisa novamente, a estrada os aguardará.

Fonte: História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial, Tomo 1. Biblioteca do Exército Editora, 2001.


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