Geopolítica não é apenas sobre mapas; é sobre a psicologia de quem segura a caneta. No coração da América Central, durante a década de 1930, El Salvador era o laboratório de um experimento político bizarro. O país estava sob a bota de Maximiliano Hernández Martínez, um homem que acreditava que era melhor matar uma pessoa do que uma formiga — “porque a pessoa reencarna, a formiga morre para sempre”. Enquanto Hitler desenhava o Terceiro Reich e Mussolini sonhava com o Novo Império Romano, Martínez, o “Bruxo”, espalhava águas coloridas pelas ruas de San Salvador para curar epidemias e governava através de sessões espíritas.
Mas não se engane pelo exotismo místico. Martínez era um estrategista de sobrevivência.
O Namoro com o Eixo e a Afronta a Washington
A inclinação de Martínez para o fascismo não era meramente estética. Ele admirava a ordem, a disciplina militarista e o anticomunismo visceral do Eixo. Para um ditador que havia esmagado o levante camponês de 1932 em um banho de sangue conhecido como La Matanza (onde cerca de 30 mil pessoas foram executadas), a retórica de Berlim soava como música. Martínez via no fascismo uma ferramenta de controle social absoluta.

Em 1934, ele chocou o Departamento de Estado dos EUA. El Salvador tornou-se o primeiro país — fora o Japão — a reconhecer diplomaticamente Manchukuo, o estado fantoche criado pelos japoneses na China ocupada. Foi um tapa na face da “Doutrina Stimson” de não-reconhecimento e um sinal claro: o ditador salvadorenho estava testando os limites da influência americana em seu quintal.
O porto de La Unión e as ricas colheitas de café de El Salvador estavam na mira das potências do Eixo. Instrutores militares alemães e italianos eram vistos com frequência em San Salvador. O xadrez parecia montado para que o país se tornasse um enclave fascista no istmo centro-americano.
A Estratégia do Encurralamento Econômico
Washington, no entanto, jogava em outra escala. Franklin D. Roosevelt sabia que não precisava de tanques para dobrar Martínez; ele precisava de contratos. A economia salvadorenha era — e ainda é em grande parte — dependente de suas exportações de café. Os Estados Unidos eram o principal comprador.
Com o eclodir da guerra na Europa em 1939, o cerco começou a fechar. A inteligência americana monitorava cada movimento do “Bruxo”. O misticismo de Martínez, que incluía a crença de que ele podia ouvir as conversas dos seus ministros através de vibrações psíquicas, não o protegeu da realidade fria dos números. Os EUA deixaram claro: ou El Salvador se alinhava à defesa hemisférica, ou o mercado para o café salvadorenho evaporaria.

Aqui vemos a transição da ideologia para a Realpolitik. Martínez, o homem que admirava a “pureza” do fascismo, viu-se forçado a abraçar a “democracia” dos Aliados por pura necessidade de fluxo de caixa. Ele não virou a casaca por convicção moral, mas porque o tabuleiro geopolítico não permitia outra jogada.
O Giro de 180 Graus: De Simpatizante a Aliado Relutante
Após o ataque a Pearl Harbor em 1941, o teatro de sombras acabou. Martínez não hesitou. O ditador que outrora flertava com o Japão declarou guerra ao Eixo quase imediatamente após os EUA. Ele baniu organizações alemãs, confiscou propriedades de cidadãos do Eixo e silenciou a propaganda nazista que ele mesmo permitira florescer.
A ironia era palpável. O regime de Martínez, um dos mais repressivos do continente, agora fazia parte do “Arsenal da Democracia”. Em troca dessa lealdade forçada, Washington forneceu assistência militar e estabilidade econômica. O “Bruxo” usou o estado de guerra para consolidar ainda mais seu poder interno, rotulando qualquer dissidência como “quinta-coluna” nazista ou infiltração comunista.
O drama humano dessa época é marcado pelo contraste. Nas ruas, o povo sofria com a escassez de bens importados e com a censura draconiana. No palácio, Martínez continuava suas dietas vegetarianas rígidas e suas consultas com o além, enquanto assinava ordens de execução para oficiais que ousavam questionar sua autoridade.
A Queda do Místico
O fim de Martínez não veio por uma invasão estrangeira, mas pelo esgotamento interno. Em 1944, enquanto o mundo observava os preparativos para o Dia D, El Salvador vivia sua própria revolução. A “Huelga de Brazos Caídos” (Greve de Braços Cruzados) paralisou o país. Médicos, advogados, estudantes e até o exército pararam. O misticismo de Martínez não tinha resposta para uma nação que simplesmente se recusava a obedecer.
Ele fugiu para Honduras, onde anos mais tarde morreria de forma mundana, assassinado por seu próprio cozinheiro.
A trajetória de Maximiliano Hernández Martínez na Segunda Guerra Mundial é um lembrete de que, na periferia dos grandes conflitos, a ideologia é muitas vezes um luxo que os ditadores sacrificam no altar da sobrevivência econômica. Ele foi um peão que tentou ser rei, mas acabou engolido pela mesma engrenagem geopolítica que tentou manipular.
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Fontes:
- ANDERSON, Thomas P. Matanza: El Salvador’s Communist Revolt of 1932. University of Nebraska Press, 1971.
- Lindo-Fuentes, Héctor. Modernizing Minds: El Salvador in the 1930s. University of New Mexico Press, 2012.
- PARK, James William. Latin America and the Second World War. University of Delaware Press, 1999.
- SCHOULTZ, Lars. Beneath the United States: A History of U.S. Policy Toward Latin America. Harvard University Press, 1998.
- Arquivos Históricos do Departamento de Estado dos EUA (1934-1944): Relatórios diplomáticos sobre a Missão Militar em El Salvador.
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