Em abril de 1945, quando a derrota alemã se aproximava, a Força Expedicionária Brasileira enfrentou uma das batalhas mais sangrentas de sua campanha na Itália. Depoimentos de veteranos e reportagens da época revelam o preço da conquista de Montese.
Em Montese, na Itália, um pelotão brasileiro entrou na batalha com 44 homens. Ao final, restavam 27. Não são números reconstruídos para provocar emoção. São os números que o veterano Abdias de Souza registrou décadas depois, ao falar dos dias de abril de 1945. Ele se lembrava de dois companheiros mortos por uma granada de morteiro. E da sensação de que o fogo parecia chegar de todas as direções.
Faltavam poucas semanas para a rendição alemã na Itália. Ainda assim, na região dos Apeninos, a Segunda Guerra Mundial estava longe de terminar para os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Montese, pequena localidade da província de Modena, transformou-se no cenário de um dos combates mais custosos da participação brasileira no conflito.
A missão brasileira que poderia romper as defesas alemãs
A explicação começa pelo mapa.
Depois de conquistar Monte Castelo, em 21 de fevereiro, e Castelnuovo, em 5 de março, a FEB preparava-se para a ofensiva aliada da primavera. Era necessário romper as defesas alemãs da chamada Linha Gengis Khan, alcançar o vale do rio Panaro e avançar em direção à planície do Pó.
Montese e as elevações de Montello e Monte Buffone integravam aquele sistema defensivo. Para o inimigo, as alturas permitiam observação e concentração de fogos sobre os acessos.
Nas encostas de Montello, trincheiras, abrigos, depósitos de munição e posições de morteiro compunham uma rede de defesa. Restos dessas estruturas ainda são identificados pelo museu da Linha Gótica de Montese. Em abril de 1945, sua posição elevada dificultava as tentativas brasileiras de desalojar os defensores.
O general João Baptista Mascarenhas de Moraes, comandante da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, conseguiu autorização para atacar o setor Montese–Montello.
A tarefa principal coube ao 11º Regimento de Infantaria, o Regimento Tiradentes, comandado pelo coronel Delmiro Pereira de Andrade. Outras unidades brasileiras e a 10ª Divisão de Montanha norte-americana participavam da ofensiva. Do outro lado estavam combatentes alemães, incluindo homens da 114ª Divisão de Caçadores.
Antes da ofensiva, veio uma perda que marcou os brasileiros.
Em 12 de abril, o segundo-sargento Max Wolff Filho morreu durante uma missão de patrulha nas proximidades de Riva di Biscia. Conhecido entre os companheiros por comandar reconhecimentos arriscados, ele não chegaria a presenciar o ataque principal, iniciado dois dias depois.
14 de abril de 1945: a batalha que devastou Montese
A artilharia brasileira, comandada pelo general Osvaldo Cordeiro de Farias, apoiou a progressão da infantaria.
Naquela tarde, homens do 11º Regimento alcançaram Montese. A entrada na localidade, contudo, não encerrou a luta. Os alemães mantiveram resistência nas casas, nas ruas e nas posições elevadas, além de bombardear os pontos já ocupados pelos brasileiros.
Uma testemunha da guerra estava ali para escrever, não para combater.
Rubem Braga, correspondente do Diário Carioca, relatou em abril de 1945 que os tanques norte-americanos apareceram no ataque do dia 14, surpreendendo os próprios brasileiros e os defensores alemães. Segundo o jornalista, a infantaria teve apoio desses blindados, enquanto os aviões aliados atuavam em outros setores.
Sua reportagem mostra como o emprego dos carros de combate podia alterar o avanço entre encostas expostas ao fogo adversário.
O relato mais íntimo viria de Abdias de Souza, soldado da 1ª Companhia do 11º Regimento.
Cearense de Fortaleza, ele integrava o pelotão do tenente Iporan Nunes de Oliveira. Em depoimento publicado pela Biblioteca do Exército, recordou a chegada à cidade, o bombardeio alemão e as minas espalhadas pelo terreno.
Durante os combates, segundo sua lembrança, a alimentação limitou-se às rações transportadas pelos próprios homens.
Ao fim, contou 17 baixas entre os 44 integrantes do pelotão. Baixas não significam necessariamente mortos: incluem combatentes afastados do efetivo por ferimentos e outras circunstâncias.
Operação Sacrifício: o testemunho de Adhemar da Costa Machado
Adhemar da Costa Machado, veterano que chegaria a general-de-exército, destacou o papel de Iporan no avanço urbano.
Ao reconstruir a campanha, citou uma classificação atribuída ao general Castello: Camaiore como abertura, Monte Castelo como dignidade, Castelnuovo como operação militar, Montese como “operação sacrifício” e Fornovo como coroamento.
Era uma síntese militar, não uma licença para romantizar perdas humanas.
Os registros apresentam o custo da conquista: 426 baixas brasileiras, sendo 34 mortos, 382 feridos e dez desaparecidos.
Entre os mortos estavam o tenente Ary Rauen e o aspirante Francisco Mega.
Os brasileiros conquistaram a localidade em 14 de abril, mas os combates nas posições próximas prosseguiram nos dias seguintes, até a consolidação do setor.
A vitória foi importante para o avanço aliado no norte da Itália. Em 29 de abril, perto de Fornovo, forças alemãs e italianas renderam-se às tropas brasileiras. A campanha terminaria com a capitulação das forças do Eixo na Itália, efetivada em 2 de maio de 1945.
Mas Montese permaneceu como advertência à leitura triunfalista da guerra: uma vitória pode abrir o caminho para o fim do conflito sem devolver os homens que ficaram pelo caminho.
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