Morfina, Luxo e Traição: Por Dentro da Mente Quimicamente Alterada de Hermann Göring

Hermann Göring não era apenas o número dois do regime nazista; ele era a face ostensiva, luxuosa e, acima de tudo, medicada do Terceiro Reich. Entre as décadas de 1930 e 1940, o homem que comandava a Luftwaffe e detinha o título exclusivo de Reichsmarschall transformou a Alemanha em um laboratório de poder e excessos. Enquanto Hitler se fechava em bunkers, Göring desfilava em uniformes desenhados por ele mesmo, escondendo sob as condecorações uma química interna em frangalhos.

A história clínica de sua queda começa muito antes das bombas aliadas. Em 1923, durante o fracassado Putsch da Cervejaria em Munique, uma bala atingiu a virilha de Göring. O ferimento, infeccionado e doloroso, foi o portal para uma dependência que ditaria o ritmo de sua vida: a morfina. O que começou como um analgésico para um revolucionário ferido tornou-se a muleta de um dos homens mais poderosos do mundo. A biologia de Göring foi sequestrada pelo ópio.

Durante os anos dourados do nazismo, ele acumulou cargos como quem coleciona obras de arte saqueadas. Era o sucessor designado do Führer, o responsável pelo Plano de Quatro Anos e o mestre das caças do Reich. Mas, por trás da fachada de vigor germânico, o metabolismo de Göring estava em colapso. Ele engordou de forma alarmante, um efeito colateral tanto da gula quanto do desequilíbrio endócrino causado pelo uso contínuo de drogas. Ele vivia em uma névoa de euforia química enquanto planejava a destruição de cidades inteiras.

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O contraste surreal de um líder militar brincando com ferromodelismo gigante em sua mansão isolada enquanto a guerra acontece lá fora.

A Luftwaffe, sua joia da coroa, começou a falhar. Na Batalha da Inglaterra, a arrogância de Göring chocou-se contra a realidade técnica da RAF. Ele prometeu que nenhuma bomba cairia sobre Berlim, mas o céu alemão logo ficou escuro com as fortalezas voadoras aliadas. Enquanto o povo se escondia em abrigos, Göring se retirava para sua suntuosa propriedade, Carinhall, onde se perdia em trens elétricos em miniatura e banhos de sais, consumindo pílulas de paracodina — um derivado da codeína — como se fossem doces.

A relação com Hitler deteriorou-se conforme a guerra avançava. O ditador, ele próprio um usuário de coquetéis químicos administrados por Theodor Morell, passou a ver em Göring um homem fraco e indolente. No crepúsculo do regime, em abril de 1945, Göring tentou assumir o controle total do Estado, acreditando que Hitler estava incapacitado em Berlim. A resposta foi rápida: ele foi destituído de todos os cargos e preso pela SS sob ordens de um Führer paranoico.

Quando os americanos o capturaram em maio de 1945, encontraram um homem que carregava consigo malas repletas de pílulas de paracodina. Ele era uma sombra obesa e trêmula do guerreiro que um dia alegou ser. Foi levado para o centro de detenção em Mondorf-les-Bains e, posteriormente, para Nuremberg. Lá, ocorreu uma transformação fascinante e raramente discutida sob a ótica biológica: a desintoxicação forçada.

Privado de sua química habitual e colocado em uma dieta rigorosa, Göring perdeu quilos de gordura e recuperou uma lucidez mental que não exibia há décadas. Nos tribunais de Nuremberg, ele se tornou o réu mais formidável. Sem a névoa da morfina, ele defendeu o nazismo com uma inteligência agressiva, tentando dominar o processo e ridicularizar os promotores. Ele não mostrava remorso pelo Holocausto ou pelas cidades arrasadas; sua única lealdade era à própria imagem histórica.

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O julgamento em Nuremberg, mostrando o ex-marechal mais magro e sóbrio no banco dos réus, usando fones de tradução

O veredito, porém, era inevitável. Culpado de conspiração, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, ele foi condenado à forca. O Reichsmarschall solicitou ser fuzilado, um privilégio militar que o tribunal negou. Ele não aceitaria o laço do carrasco. Em 15 de outubro de 1946, poucas horas antes da execução, Göring consumiu uma cápsula de cianureto que havia escondido com sucesso durante meses.

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O desfecho solitário na cela da prisão, focado na cápsula de veneno que selou o destino do condenado antes da forca.

O homem que viveu sob o efeito de substâncias escolheu a química para sua saída final. O colapso de Hermann Göring não foi apenas militar ou político; foi a falência de um organismo que tentou sustentar um império de terror sobre uma fundação de vício e negação. Ele morreu no chão de uma cela fria, deixando para trás o rastro de um regime que, tal como seu herdeiro, foi movido por uma perigosa mistura de delírio e dopagem.

Fonte

  • OHLER, Norman. Blitzed: Drugs in the Third Reich. Houghton Mifflin Harcourt, 2017.
  • MANVELL, Roger; FRAENKEL, Heinrich. Goering: The Rise and Fall of the Notorious Nazi Leader. Skyhorse Publishing, 2011.
  • EVANS, Richard J. O Terceiro Reich em Guerra. Planeta, 2014.
  • KERSHAW, Ian. Hitler. Companhia das Letras, 2010.

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