O Diário de Yoshida Mitsuru: O Sacrifício do Yamato

O sol de abril de 1945 não iluminava apenas o aço cinzento do couraçado Yamato; ele incidia sobre o limite final da carne e do espírito. No convés da maior fortaleza flutuante já concebida pelo homem, o jovem aspirante Yoshida Mitsuru observava o horizonte com a lucidez cortante de quem já não pertence ao mundo dos vivos. Para ele, e para os 3.332 homens a bordo, o mar do Japão não era um caminho, mas um altar. A Operação Ten-Go não buscava a vitória tática — impossível sob o peso da supremacia aérea americana — mas a realização da “morte nobre”, o sacrifício que funde a beleza da forma com a destruição absoluta.

Yoshida, um estudante de Direito da Universidade Imperial de Tóquio convocado para a faina de oficial de radar, encontrava-se no epicentro de uma tragédia geométrica. O Yamato era o corpo do Império: imponente, musculoso com seus canhões de 18 polegadas, e destinado à ruína. O estilo de vida do oficial, rigorosamente documentado em seus diários posteriores, era uma coreografia de disciplina samurai sob o rito da guerra moderna. Não havia espaço para o medo vulgar. O que existia era o *Gyokusai* — a filosofia de “estilhaçar-se como uma joia”. Para Mitsuru, a destruição do navio era a moldura necessária para que a existência atingisse sua pureza máxima.

A Partida de Tokuyama: O Ritual do Não-Retorno

Em 6 de abril de 1945, quando o Yamato suspendeu âncora de Tokuyama, a atmosfera não era de desespero, mas de uma serenidade febril. Yoshida descreve a quietude que antecede a tempestade como uma forma de arte. O navio carregava combustível apenas para uma viagem de ida até Okinawa. A missão era suicida: encalhar na costa e servir como uma bateria costeira até ser obliterado. Era o fim da era dos couraçados e o nascimento de um mito de sangue.

Yoshida-Mitsuru2 O Diário de Yoshida Mitsuru: O Sacrifício do Yamato

Yoshida Mitsuru, em seu posto na ponte de comando, observava seus superiores e subordinados através de uma lente estética. Ele via nos rostos jovens a transfiguração do destino. O treinamento rigoroso, as refeições partilhadas em silêncio e o polimento obsessivo do metal eram preparativos para o grande espetáculo da morte. Para ele, o corpo humano era uma extensão do navio; ambos eram máquinas de guerra destinadas ao fundo do oceano. A tradição samurai, destilada em cada ordem de comando, exigia que o fim fosse tão glorioso quanto a construção.

O Massacre sob o Céu de Abril

Às 12h32 de 7 de abril, o horizonte foi rasgado por 386 aeronaves da Força-Tarefa 58 dos Estados Unidos. O que se seguiu foi uma sinfonia de violência que Yoshida registrou com precisão anatômica. As bombas não eram apenas explosivos; eram pincéis que pintavam o convés de carmesim. O Yamato, sob o comando do Almirante Seiichi Ito, começou sua dança final.

Yoshida relata o impacto dos torpedos com uma objetividade que beira o místico. Ele via os corpos dos marinheiros serem desintegrados pela metralha, mas sua narrativa foca na dignidade da queda. Não havia gritos desordenados, apenas a execução mecânica do dever até o último suspiro. O sangue misturava-se à água salgada nos compartimentos inferiores, criando uma amálgama de vida e oceano. A carne humana, tão frágil diante do aço americano, tornava-se sagrada no momento da laceração. Cada oficial que caía em seu posto realizava a estética da destruição que Yoshida tanto admirava: a transição do ser para o nada através de um ato de vontade heróica.

A Anatomia do Naufrágio: O Fim do Gigante

Quando o Yamato adernou criticamente para bombordo, a ordem de abandonar o navio nunca foi dada formalmente pela liderança, mas o destino impôs sua lei. Yoshida Mitsuru viu o impensável: o “invencível” submergindo. Às 14h23, o depósito de munições da torre de vante explodiu, criando uma coluna de fumaça que subiu a seis mil metros de altura, visível de Kyushu. Foi o ápice do sacrifício. O navio não apenas afundou; ele se incinerou em uma apoteose de fogo e pressão.

Yoshida-Mitsuru3 O Diário de Yoshida Mitsuru: O Sacrifício do Yamato

Yoshida foi lançado ao mar, sugado pelo vácuo do gigante em agonia. Sob as águas negras, ele descreve a sensação de paz — o abraço do oceano que reivindicava os guerreiros. Ele era um dos poucos destinados a sobreviver para testemunhar o que viu. Dos milhares a bordo, apenas 276 foram resgatados. A sobrevivência de Yoshida não foi celebrada por ele como uma vitória, mas como um fardo estético. Ele havia retornado do reino dos mortos para narrar a beleza do *Gyokusai*.

O Diário de Okinawa: A Escrita como Cicatriz

Após o conflito, a vida de Yoshida Mitsuru foi dedicada a lapidar a memória daquele 7 de abril. Em sua obra magistral, “Senkan Yamato-no Saigo” (O Fim do Couraçado Yamato), ele não se limita a relatar fatos; ele esculpe a narrativa da destruição naval. Ele via o Yamato como o símbolo de um Japão que preferia a aniquilação à desonra. O texto de Yoshida é denso, carregado de uma melancolia que não busca piedade, mas reconhecimento da glória intrínseca ao fracasso absoluto.

Ele detalha como, no meio do caos, os oficiais discutiam a filosofia da morte. “Como devemos morrer para que nossa morte tenha significado?”, questionavam-se enquanto o céu escurecia com aviões inimigos. Para Yoshida, a resposta estava na integridade do gesto. A morte em combate não era um fim biológico, mas a conclusão de um poema épico escrito em pólvora e sangue. A obsessão pela “estética da destruição” permeia cada parágrafo de suas memórias, transformando o aço retorcido do Yamato em um monumento espiritual.

O Conflito entre a Vida e a Morte Heróica

Yoshida Mitsuru personificou o dilema dos intelectuais japoneses de sua geração. Educado nos valores ocidentais de Direito e lógica, ele foi tragado pelo misticismo imperial do sacrifício. Essa dualidade é o que torna seu relato único na história da Segunda Guerra Mundial. Ele não era um fanático cego, mas um observador consciente da própria imolação. Ele via a beleza na eficiência dos ataques americanos e na resiliência desesperada dos artilheiros japoneses.

Yoshida-Mitsuru4 O Diário de Yoshida Mitsuru: O Sacrifício do Yamato

Sua narrativa remove a camada de propaganda e expõe a medula óssea da guerra: o corpo humano em confronto com a tecnologia industrial de extermínio. O sacrifício dos jovens cadetes, muitos de sua idade, era visto como a “floração das flores de cerejeira” — um desabrochar efêmero seguido de uma queda inevitável. A morte nobre era a única forma de arte que não podia ser corrompida pelo tempo, pois era instantânea e absoluta.

O Silêncio das Profundezas

Hoje, o Yamato repousa a 340 metros de profundidade, partido em dois, um mausoléu de aço no fundo do Mar da China Oriental. Yoshida Mitsuru, que faleceu em 1979, passou suas décadas de pós-guerra em um estado de vigília constante sobre essas águas. Ele nunca abandonou verdadeiramente o convés do navio. Para o historiador e para o jornalista, a vida de Yoshida é o testemunho de que a Segunda Guerra Mundial não foi apenas um conflito de fronteiras, mas uma conflagração de visões de mundo.

Yoshida-Mitsuru5 O Diário de Yoshida Mitsuru: O Sacrifício do Yamato

A destruição naval descrita por ele é o ápice da tragédia humana. Ao fundir a beleza da máquina de guerra com o horror da carniçaria, Yoshida Mitsuru criou um registro que é, ao mesmo tempo, um documento histórico rigoroso e uma meditação profunda sobre a finitude. Ele provou que, no crepúsculo do Império do Sol Nascente, a maior glória não estava na conquista, mas na forma digna e estética com que se aceitava a destruição total. O Yamato permanece, através da pena de Yoshida, não como um destroço, mas como a joia estilhaçada que brilha na escuridão da história militar.


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