O encontro do U-156 com o veleiro dominicano no Mar do Caribe

Em meados de 1942, as águas quentes do Mar do Caribe tornaram-se o cenário de um dos episódios mais inusitados da guerra submarina no Atlântico. O submarino alemão U-156, sob o comando do capitão de corveta Werner Hartenstein, interceptou um pequeno veleiro de bandeira dominicana próximo à costa da República Dominicana. O encontro, ocorrido durante a execução da Operação Neuland, não resultou em um naufrágio violento, mas sim em uma transação comercial inesperada entre combatentes alemães e civis caribenhos, evidenciando as extremas necessidades de subsistência das tripulações que operavam longe de suas bases na Europa.

O U-156 era um submersível do Tipo IXC, uma máquina de longo alcance projetada para patrulhas extensas. No entanto, a autonomia de combustível não era o único desafio para os homens de Hartenstein. Após semanas em alto-mar, as condições de higiene e a qualidade da alimentação a bordo deterioravam-se rapidamente. O calor tropical do Caribe transformava o interior do casco de aço em uma estufa, acelerando o apodrecimento das frutas, vegetais e carnes armazenadas. Para a tripulação, o escorbuto e a desnutrição eram ameaças tão reais quanto as cargas de profundidade dos contratorpedeiros aliados.

dominica-2 O encontro do U-156 com o veleiro dominicano no Mar do Caribe
O comandante Werner Hartenstein na torre de comando do U-156, vestindo uniforme tropical da Kriegsmarine, comunicando-se com a tripulação do veleiro dominicano. imagem ilustrativa criada com inteligência artificial.

Naquela tarde clara, a vigia do U-156 avistou a silhueta de um veleiro mercante dominicano. Naquele estágio da guerra, a República Dominicana ainda mantinha uma posição de neutralidade técnica, embora estivesse sob forte pressão diplomática e econômica dos Estados Unidos. Para os marinheiros dominicanos, a visão da torre do submarino emergindo das águas era o prenúncio de uma morte certa. O pânico instalou-se no convés da pequena embarcação, pois era prática comum que submarinos afundassem navios mercantes, mesmo os de pequeno porte, para impedir o fluxo de suprimentos na região.

Hartenstein, conhecido por seu rigor técnico e um código de conduta que buscava evitar mortes desnecessárias de civis, ordenou que o submarino emparelhasse com o veleiro. Em vez de guarnecer o canhão de convés de 105 mm para um ataque, os marinheiros alemães sinalizaram a intenção de dialogar. O comandante alemão, que dominava o inglês, comunicou-se com a tripulação aterrorizada. Ele deixou claro que não tinha a intenção de afundar o barco, mas que o U-156 precisava urgentemente de provisões frescas.

A cena que se seguiu desafia a lógica convencional dos manuais de combate. Os alemães solicitaram a compra de frutas, vegetais, pães e qualquer alimento fresco disponível no estoque do veleiro. Os dominicanos, ainda hesitantes e temendo uma armadilha, começaram a transferir cestos de mercadorias para o convés do submarino. Para a surpresa dos civis, Hartenstein não confiscou os bens como espólio de guerra. O comandante sacou maços de dólares americanos, moeda amplamente aceita e valorizada no Caribe, e pagou o valor de mercado pelos mantimentos.

dominica-3 O encontro do U-156 com o veleiro dominicano no Mar do Caribe
Uma visão panorâmica do encontro no Mar do Caribe, destacando o contraste tecnológico entre o submarino Tipo IXC e o pequeno veleiro de madeira dominicano sob o sol intenso de 1942.

Do ponto de vista técnico e logístico, o uso de moeda estrangeira era uma ferramenta padrão de inteligência e sobrevivência para os comandantes de U-boots em missões de longa distância. O Oberkommando der Marine, o alto comando naval alemão, fornecia fundos em moedas neutras ou aliadas para situações de emergência. Hartenstein sabia que a manutenção do moral e da saúde de seus homens dependia daquela transação. Cada laranja ou pedaço de carne fresca representava dias adicionais de eficiência operacional para uma tripulação que vivia em espaços confinados, respirando ar saturado de óleo diesel e suor.

Após a conclusão da troca, o U-156 retirou-se para as profundezas, deixando o veleiro dominicano seguir seu curso. Para os marinheiros da República Dominicana, o evento tornou-se uma história de sobrevivência surreal. Para Hartenstein, foi uma necessidade tática cumprida com pragmatismo. O comandante do U-156 ganharia fama mundial meses depois, em setembro de 1942, pelo Incidente Laconia, onde tentou resgatar sobreviventes de um navio afundado, o que levou à emissão da Ordem Triton por parte do Almirante Dönitz, proibindo tais atos de humanidade.

Este incidente nas águas dominicanas revela as nuances da guerra no mar. Nem todos os encontros eram definidos por torpedos e explosões. A logística de subsistência muitas vezes forçava interações humanas bizarras entre inimigos teóricos. O U-156, operando no limite de sua capacidade técnica, dependeu por um breve momento da produção agrícola de uma pequena nação caribenha para manter sua prontidão de combate. A precisão de Hartenstein ao optar pela compra em vez do saque também demonstra uma tentativa de manter a disciplina militar e evitar incidentes diplomáticos que pudessem acelerar a entrada total de países neutros no conflito ao lado dos Aliados.

A história do U-156 na República Dominicana permanece como um registro da complexidade do teatro de operações do Caribe. Enquanto os grandes comboios eram caçados no Atlântico Norte, nas águas tropicais, a guerra assumia contornos de sobrevivência individual. O pagamento em dólares por frutas frescas no convés de um submarino alemão é um lembrete de que, por trás das máquinas de guerra, havia homens submetidos às privações mais básicas da biologia humana. O encontro terminou sem disparos, mas com a lição de que a fome e a logística são forças tão poderosas quanto a estratégia militar.


Você conhecia este lado humano e logístico da guerra submarina? Comente abaixo sua opinião sobre a conduta de Hartenstein e assine nossa newsletter para mais relatos técnicos do Portal Segunda Guerra Brasil.

Fonte

  • Blair, Clay. Hitler’s U-Boat War: The Hunters, 1939-1942. Random House, 1996.
  • Gannon, Michael. Operation Drumbeat: The Dramatic True Story of Germany’s First U-Boat Attacks Along the American Coast. Harper Perennial, 1991.
  • Hickam, Homer H. Torpedo Junction: U-Boat War Off the Outer Banks. Naval Institute Press, 1989.
  • Pignato, Nicola. Mezzi Corazzati Italiani 1939-1945. (Referência de estilo para análise técnica de material e logística).
  • Arquivos do U-boat Archive. Kriegstagebuch (Diário de Guerra) do U-156. Patrulha de Fevereiro-Março de 1942.

Descubra mais sobre Portal Segunda Guerra Brasil

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta