O Martelo de Hitler: A Insana Máquina de 124 Toneladas que a História Tentou Esquecer

Em junho de 1942, o horizonte da península da Crimeia foi sacudido por um estrondo que parecia vir das entranhas da terra. Não era um fenômeno natural, mas o batismo de fogo de uma das máquinas mais extremas já concebidas pela engenharia alemã. O exército de Hitler precisava derrubar as fortalezas soviéticas em Sebastopol, e para isso enviou o Thor. Este era o quarto exemplar do Karl-Gerät, um morteiro autopropulsado de 600 milímetros desenhado com um único propósito: transformar bunkers de concreto reforçado em poeira e estilhaços.

A construção do Thor, tecnicamente designado como Gerät 040, desafiava a lógica da mobilidade militar da época. Imagine um chassi de quase doze metros de comprimento sustentando um cano curto e grosso, capaz de lançar projéteis que pesavam tanto quanto um carro popular. Para mover essa massa de 124 toneladas, a Rheinmetall-Borsig instalou um motor Daimler-Benz MB 503 de 12 cilindros. No entanto, a máquina era tão pesada que sua velocidade máxima não passava de dez quilômetros por hora. Na prática, o Thor viajava por ferrovias em vagões especiais e só usava suas próprias esteiras para se posicionar milimetricamente no campo de tiro.

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A movimentação lenta e pesada do gigante de aço através do terreno acidentado, demonstrando sua escala monumental.

O funcionamento interno do Thor era uma aula de mecânica pesada. Quando o morteiro chegava ao local de disparo, o chassi inteiro precisava ser baixado até o solo por meio de um sistema de suspensão hidropneumática. Isso era vital. Se a máquina disparasse apoiada apenas nas rodas e esteiras, a força monumental do recuo destruiria o sistema de transmissão instantaneamente. Ao tocar o chão, o ventre do veículo distribuía a energia do disparo diretamente na terra, permitindo que o enorme cano de 60 centímetros vomitasse fogo e aço com relativa estabilidade.

A logística para manter o Thor operando era um pesadelo coordenado. Cada disparo exigia uma equipe de 21 homens e o suporte de tanques modificados, chamados de Munitionsschlepper, que carregavam apenas quatro projéteis por vez. Em Sebastopol, o alvo principal eram as baterias costeiras e os fortes subterrâneos conhecidos como Maxim Gorky. Os soviéticos acreditavam estar seguros sob metros de concreto e blindagem, mas o Thor provou o contrário. Seus projéteis perfurantes de 2.170 quilos utilizavam a gravidade e uma carga explosiva interna para atravessar lajes maciças antes de detonar, criando ondas de choque que colapsavam estruturas inteiras de dentro para fora.

Durante o cerco, o Thor não estava sozinho, operando ao lado de seu “irmão” Odin. Juntos, eles dispararam centenas de vezes contra as defesas russas. A visão do projétil no ar era descrita como um barril voador que subia em um arco íngreme antes de mergulhar silenciosamente para a destruição. Apesar da eficácia destrutiva, a vida útil do cano era curtíssima. A cada disparo, a pressão interna e o calor corroíam o raiamento de aço, limitando a precisão após algumas dezenas de tiros. Isso exigia que o cano fosse frequentemente trocado ou reencamisado, uma operação de engenharia complexa realizada em plena zona de guerra.

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Operação logística complexa de municiamento utilizando um veículo de suporte blindado com guindaste para içar o projétil.

Sebastopol caiu após um bombardeio implacável, e o Thor foi celebrado como uma maravilha técnica. Mas, para o observador atento, ele também representava o excesso da mentalidade industrial alemã. Era uma arma de nicho, cara demais para produzir e lenta demais para uma guerra que se tornava cada vez mais veloz. Ele era, essencialmente, um martelo colossal para um mundo que começava a exigir precisão cirúrgica.

Mesmo assim, o legado do Thor permanece como o ápice da artilharia de cerco. Ele não era apenas um canhão, mas uma fortaleza móvel que levava a engenharia ao seu limite físico. Quando o silêncio finalmente retornou às ruínas de Sebastopol, as crateras deixadas por seus projéteis de 600mm serviam como cicatrizes permanentes, lembrando o poder bruto que o homem é capaz de projetar quando decide transformar metalurgia em ferramenta de aniquilação.


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