O silêncio mortal das areias de Anzio

O relógio marcava 02h00 da manhã de 22 de janeiro de 1944 quando as primeiras rampas das barcaças de desembarque beijaram o cascalho úmido das praias de Anzio e Nettuno. Sob um céu de inverno opaco, o VI Corpo de Exército, liderado pelo major-general norte-americano John P. Lucas, iniciava a Operação Shingle. O objetivo era audacioso: contornar a formidável Linha Gustav, que bloqueava o avanço aliado em direção a Roma, e forçar os alemães a abandonarem suas posições defensivas nas montanhas. O que se seguiu, contudo, não foi a cavalgada triunfal esperada por Winston Churchill, mas um dos episódios mais claustrofóbicos e estáticos da Segunda Guerra Mundial.

A frota de invasão era uma visão colossal recortada contra a escuridão do mar Tirreno. Eram 243 navios de todos os tipos, transportando 36.000 homens e 3.200 veículos. A bordo dos LSTs (Landing Ship, Tank), soldados da 3ª Divisão de Infantaria dos EUA e da 1ª Divisão de Infantaria Britânica apertavam seus fuzis M1 Garand e Enfield, esperando o inferno de fogo que haviam enfrentado em Salerno meses antes. O bombardeio naval preliminar foi curto, mas devastador, iluminando a costa com clarões alaranjados que refletiam nas janelas das vilas de veraneio desertas.

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Para a surpresa dos Rangers de William O. Darby, que saltaram nas águas geladas perto do porto de Anzio, o silêncio era absoluto. Não havia metralhadoras MG-42 latindo das dunas, nem barragens de artilharia pesada. Os poucos alemães na área — elementos da 29ª Divisão de Granadeiros Panzer que se recuperavam de combates anteriores — foram capturados ainda em seus pijamas ou em postos de observação sonolentos. Ao meio-dia, as tropas aliadas já haviam avançado alguns quilômetros terra adentro, estabelecendo um perímetro que parecia seguro demais para ser verdade.

O marechal de campo Albert Kesselring, comandante das forças alemãs na Itália, foi pego de surpresa em seu quartel-general, mas sua reação foi de uma eficiência gélida e mecânica. Enquanto os aliados consolidavam a praia, Kesselring ativava o “Caso Richard”, um plano de contingência meticulosamente desenhado para responder a desembarques anfíbios. Unidades foram desviadas da França, dos Bálcãs e da própria Linha Gustav. O que os aliados não perceberam, enquanto descarregavam toneladas de suprimentos sob o sol pálido de janeiro, era que as estradas que levavam às Colinas Albanas estavam sendo rapidamente bloqueadas por blindados e paraquedistas alemães.

 

General Lucas, um homem cuja cautela beirava a paralisia, tomou uma decisão que ecoaria negativamente nos anais da história militar. Em vez de lançar suas colunas motorizadas em direção às alturas de Campoleone e Cisterna para cortar as vias de comunicação inimigas, ele ordenou que suas tropas se entrincheirassem. “Não se estenda demais”, era o mantra que martelava em sua mente. Lucas priorizou a segurança da cabeça de praia, transformando o que deveria ser um ataque de flanco em uma fortaleza isolada. Churchill, em Londres, fumava seu charuto com crescente irritação, comentando mais tarde que esperava ter lançado um “gato selvagem” na costa, mas acabou com uma “baleia encalhada”.

A geografia de Anzio era uma armadilha natural. A planície costeira, outrora um pântano drenado por Mussolini, era dominada por terrenos elevados. Do alto das Colinas Albanas, os observadores de artilharia alemães tinham uma visão perfeita de cada movimento aliado na praia. “Eles podiam ver até a cor dos nossos olhos”, relatou um veterano da 45ª Divisão de Infantaria. O desembarque, que começou com uma facilidade quase surreal, rapidamente se transformou em uma guerra de trincheiras que lembrava o horror de 1916.

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O solo de Anzio, saturado pelas chuvas de inverno, tornou-se um lamaçal onde os tanques Sherman afundavam até o chassi. Os soldados viviam em buracos de raposa inundados, cobertos por carcaças de madeira e lona, enquanto os canhões de longo alcance alemães, apelidados de “Anzio Annie”, despejavam toneladas de aço sobre o porto. A logística tornou-se um pesadelo; cada caixa de ração K e cada galão de combustível precisava ser descarregado sob fogo direto de artilharia, transformando o porto em um cemitério de navios retorcidos.

 

A oportunidade de capturar Roma em um golpe de mão evaporou-se em menos de quarenta e oito horas. Kesselring conseguiu reunir o equivalente a oito divisões ao redor da cabeça de praia antes que Lucas fizesse qualquer movimento agressivo significativo. O contra-ataque alemão, a Operação Fischfang, estava sendo preparado com o objetivo explícito de “atirar os aliados de volta ao mar”. Hitler, obcecado com a ideia de uma vitória defensiva que servisse de exemplo para a futura invasão da França, ordenou que não houvesse recuo.

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Nas noites de Anzio, o cheiro de cordite misturava-se ao odor acre da lama apodrecida. Patrulhas de reconhecimento de ambos os lados rastejavam no “terra de ninguém”, onde o encontro com o inimigo resultava em combates brutais à faca e baioneta. A 3ª Divisão de Infantaria sofreu baixas terríveis em tentativas tardias de capturar Cisterna, onde os regimentos de Rangers foram praticamente aniquilados em uma emboscada alemã. A confiança inicial do dia 22 de janeiro foi substituída por um fatalismo sombrio.

O desembarque em Anzio e Nettuno permanece como um estudo de caso sobre o abismo entre a estratégia de alto nível e a execução tática no campo de batalha. A audácia de contornar a Linha Gustav foi anulada pela timidez do comando local e pela resiliência fenomenal da Wehrmacht. O amanhecer de 22 de janeiro, que prometia ser o início do fim da campanha italiana, tornou-se o prelúdio de quatro meses de um cerco sangrento, onde o valor do soldado individual teve que compensar os erros de seus generais.

Quando os Aliados finalmente romperam o cerco em maio, o custo em vidas humanas já havia superado qualquer previsão inicial. As cruzes brancas no cemitério de Nettuno permanecem hoje como testemunhas silenciosas daquele dia de janeiro, quando o mar estava calmo e a vitória parecia estar ao alcance de uma simples caminhada pela areia.


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Fontes

LAURIE, Clayton D.** *Anzio: The U.S. Army Campaigns of World War II*. Center of Military History (CMH), 1994.

BEEVOR, Antony.** *A Segunda Guerra Mundial*. Rio de Janeiro: Record, 2012.

ATKINSON, Rick.** *The Day of Battle: The War in Sicily and Italy, 1943-1944*. New York: Henry Holt and Co., 2007.

KATZ, Robert.** *The Battle for Rome: The Germans, the Allies, the Partisans, and the Pope, September 1943–June 1944*. Simon & Schuster, 2003.


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