Em 1945, pilotos do 2º Grupo de Caça treinaram em aviões Curtiss P-40 para uma possível missão contra o Japão. A ordem de embarque nunca apareceu. Ficaram os nomes, as fotografias e uma história ainda incompleta.
17 de agosto de 1944. O documento era curto e não dizia nada sobre heroísmo, sacrifício ou viagens através do oceano. O Decreto-Lei nº 6.796 apenas criava novas unidades da Força Aérea Brasileira. Entre elas estava o 2º Grupo de Caça, com sede prevista na Base Aérea de Natal.
Menos de dois meses depois, em 5 de outubro, outro decreto mudou o endereço da unidade. O grupo foi transferido para a Base Aérea de Santa Cruz, no então Distrito Federal, para integrar o 1º Regimento de Aviação. Foi ali, na extensa área militar da zona oeste do Rio de Janeiro, que começou a história dos homens que a imprensa chamaria de “Os 33 do Pacífico”.
O nome não constava de decreto, boletim militar ou ordem de operações. Não era a denominação oficial de um esquadrão. Foi um título jornalístico. Forte, simples e adequado ao clima de 1945, quando a guerra terminara na Europa, mas continuava devorando homens, navios e aviões na Ásia.
O 2º Grupo de Caça recebeu aviões Curtiss P-40 das versões utilizadas pela FAB. O P-40 era um caça de estrutura resistente, empregado desde os primeiros anos do conflito por diferentes forças aéreas. Em 1945 já não era a máquina mais moderna disponível, mas continuava útil para a instrução de combate, ataque ao solo, tiro aéreo, bombardeio em mergulho e voo em formação.
A história oficial do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica informa que o 2º Grupo iniciou em Santa Cruz, em 1945, o treinamento de pilotos de caça nos P-40. Segundo essa publicação, foram formados 30 pilotos, componentes da segunda turma de caçadores formada no Brasil. O mesmo texto registra que eles não seguiram para o 1º Grupo de Aviação de Caça na Itália porque a guerra no continente europeu já havia terminado.
O Pacífico surgiu depois.
O Brasil declara guerra ao Japão
Em 6 de junho de 1945, o governo de Getúlio Vargas publicou o Decreto nº 18.811, declarando formalmente a existência do estado de guerra entre o Brasil e o Império do Japão.
O texto lembrava que as relações diplomáticas com o governo japonês estavam rompidas desde 28 de janeiro de 1942. Declarava também que, derrotadas as potências do Eixo na Europa, o poderio dos Estados Unidos e dos demais aliados seria concentrado no Oceano Pacífico.
A declaração brasileira tinha importância diplomática e política. Entretanto, o decreto não criava uma força expedicionária para a Ásia, não designava o 2º Grupo de Caça e não estabelecia data, rota ou local de emprego para aviadores brasileiros.
Essa diferença precisa ser preservada. O Brasil estava oficialmente em guerra contra o Japão. Isso não significa que uma unidade aérea brasileira tivesse recebido ordem de partir.
Para os jovens de Santa Cruz, no entanto, a declaração de guerra abriu uma possibilidade.
A Campanha da Itália havia acabado. O 1º Grupo de Aviação de Caça, comandado por Nero Moura, já escrevera sua história nos céus de Tarquínia, Pisa e do vale do Pó. Os homens do 2º Grupo permaneciam no Brasil, voando, estudando e aprendendo técnicas transmitidas por instrutores norte-americanos.
As fontes posteriores da Aviação de Caça registram que aqueles oficiais se apresentaram como voluntários para combater no Pacífico. Uma publicação da Revista Aeronáutica informa que o curso fora organizado dentro da cooperação com a United States-Brazil Air Training Unit, conhecida pela sigla USBATU. A instrução era conduzida com participação de militares da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos.
A vontade dos pilotos, porém, não era uma ordem do governo.
A visita de Salgado Filho
A narrativa conhecida ganhou forma durante uma visita do ministro da Aeronáutica, Joaquim Pedro Salgado Filho, à unidade.
Segundo a reportagem publicada posteriormente pela revista O Cruzeiro, Roberto Macedo Vinhais falou em nome dos companheiros. Os aviadores desejavam ir à guerra. Salgado Filho teria respondido que, caso o Brasil enviasse forças aéreas para combater o Japão, os homens do 2º Grupo seriam considerados para a missão.
A condição estava na própria resposta. Caso o Brasil enviasse.
Não havia ainda ordem de deslocamento. Não havia navio designado. Não havia base de destino. Também não foi encontrado, até agora, documento determinando que os brasileiros seriam incorporados a uma unidade norte-americana no Pacífico.
Mas a declaração do ministro bastava para alimentar a expectativa.
Em julho de 1945, os jornalistas David Nasser e Jean Manzon chegaram a Santa Cruz. Nasser escreveria o texto. Manzon faria as fotografias. A matéria ocupou oito páginas da edição de O Cruzeiro de 7 de julho de 1945 e recebeu o título que atravessaria as décadas: “Os ‘33’ do Pacífico”.
A reportagem mostrou os pilotos, os aviões e os exercícios. Os jornalistas acompanharam uma formação de P-40 a bordo de um bombardeiro North American B-25. Nas reconstruções da matéria, o B-25 aparece sob o comando de Ildeu da Cunha Pereira, enquanto José Veloso de Sousa comandava a formação dos caças.
A revista descreveu treinamento de tiro, bombardeio em mergulho, voo rasante, pousos e decolagens. Informou também que, antes de um possível emprego em combate, os brasileiros ainda passariam por um curto estágio de adaptação nos Estados Unidos.
Essa informação reforça um ponto essencial. Em julho de 1945, os pilotos estavam sendo preparados. Não estavam prontos para embarcar imediatamente e não possuíam missão operacional confirmada.
Quem eram os 33
A relação nominal associada à reportagem e reproduzida em publicações posteriores apresenta os seguintes aviadores:
- Ildeu da Cunha Pereira, comandante
- Roberto Macedo Vinhais
- José Veloso de Sousa
- Antônio Chagas da Silva
- Rutilio Pinheiro da Silva
- Dídimo Agapito da Veiga
- Luís Anet
- Agenor de Figueiredo
- Lucas Antônio Monteiro de Barros Bastos
- Naldo Prates Correia
- Rubens Salem
- Olavo Sacchi
- William França
- Luís Carlos Aliandro
- Walter Antônio Filipozzi
- Sá Osório
- Rui José B. Pedroso
- Eduardo Max Hublet
- Vicente de Paulo Pedroso
- Walter Sousa Guimarães
- Antônio Nalin Vespoli
- José Fonseca Peyon
- Walter F. Tavares
- José Naves Oliva
- José H. T. de Araújo
- Cristiano de Oliveira Neto
- George S. C. Couto
- Aly Cândido de Paula
- George Soares de Morais
- Gustavo Guisen
- Itamar V. Guimarães
- Lauro Moura
- Edir de Vasconcelos
Algumas grafias variam conforme a publicação. Vicente aparece como “de Paulo” ou “de Paula”. Walter Guimarães surge como “Sousa” ou “Souza”. William França também aparece como “Willian”. Lauro Moura é registrado, em outra transcrição, como Lauro de Moura. As iniciais de José de Araújo igualmente apresentam variações.
Essas diferenças não devem ser corrigidas por adivinhação. A solução definitiva depende das folhas de alterações, dos assentamentos funcionais e dos boletins do 1º Regimento de Aviação.
Trinta e três, trinta ou vinte e nove
O número 33 tornou-se famoso, mas as fontes institucionais não concordam sobre o total de pilotos efetivamente formados.
A reportagem de O Cruzeiro utilizou o número 33, provavelmente correspondente ao conjunto inicial de oficiais ligado ao grupo e apresentado ao público.
A História Geral da Aeronáutica Brasileira, publicada pelo INCAER, informa que o 2º Grupo de Caça formou 30 pilotos.
A Associação Brasileira de Pilotos de Caça registra 29 pilotos formados entre os homens que ficaram conhecidos como os “33 do Pacífico”.
A diferença pode ter sido provocada por morte, transferência, afastamento ou reprovação durante o treinamento. Também é possível que o número jornalístico incluísse oficiais que não completaram todas as etapas do curso.
Nenhuma dessas explicações pode ser afirmada como definitiva sem os boletins internos da unidade. O documento capaz de resolver a diferença ainda não apareceu na documentação digital consultada.
A história, portanto, exige uma frase menos vistosa, mas mais correta: 33 oficiais foram associados ao grupo pela reportagem, enquanto registros posteriores indicam 29 ou 30 pilotos formados.
George Soares de Morais, um testemunho próximo aos acontecimentos
Entre os integrantes identificados, George Soares de Morais deixou uma das confirmações biográficas mais importantes.
Em 1956, a Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo publicou uma apresentação de George, então major aviador e engenheiro. O texto informa que ele ingressou na Escola Militar do Realengo em 1941, sendo transferido em 1942 para a Escola de Aeronáutica. Foi declarado aspirante em 1943 e serviu como instrutor de voo no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Galeão.
Transferido para Santa Cruz, passou pelo 1º Grupo de Patrulha e depois integrou o 2º Grupo de Caça. A publicação de 1956 afirma, sem rodeios, que ele recebeu treinamento para ser enviado ao Pacífico.
Terminada a guerra, George Soares de Morais obteve autorização para estudar nos Estados Unidos. Formou-se em engenharia metalúrgica no Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, em 1949. Depois atuou no Centro Técnico de Aeronáutica, em São José dos Campos.
O registro é valioso porque surgiu apenas onze anos depois dos acontecimentos e tratava da trajetória profissional de um dos próprios integrantes. Não prova a existência de uma ordem de embarque, mas confirma que o treinamento para possível emprego no Pacífico fazia parte da experiência lembrada por um dos oficiais.
José Naves Oliva e os riscos que continuaram
O fim da guerra não encerrou os acidentes.
Uma compilação técnica sobre os P-40 brasileiros associa José Naves Oliva ao P-40N de matrícula FAB 4073, perdido em Porto Alegre em 19 de dezembro de 1945. A aeronave havia pertencido ao conjunto operado pelo 2º Grupo e fora transferida para o 3º Grupo de Caça.
O registro técnico confirma a perda da aeronave e relaciona o nome do piloto, mas não substitui o relatório oficial do acidente. Por isso, causas e circunstâncias detalhadas não devem ser acrescentadas sem o documento da FAB.
O mesmo cuidado é necessário no caso de Sá Osório. Narrativas posteriores afirmam que ele morreu durante um treinamento de tiro contra alvo rebocado. Entretanto, não foi localizado, em acesso aberto, o relatório do acidente, o nome completo do aviador ou a confirmação segura da matrícula do avião.
Repetir detalhes não comprovados daria aparência de certeza a uma história ainda incompleta.
Os homens que permaneceram no chão
As fotografias de aviadores diante dos P-40 produziram rostos reconhecíveis. Os mecânicos, armeiros, especialistas em rádio e auxiliares de manutenção quase desapareceram.
Nenhum caça permanecia em condições de voo apenas pelo trabalho do piloto. Era necessário inspecionar motores, hélices, sistemas hidráulicos, pneus, armamento, munição, combustível, instrumentos e equipamentos de comunicação.
Apesar disso, não foi encontrada uma relação nominal completa do pessoal de terra do 2º Grupo de Caça em 1945.
O único relato familiar localizado até o momento é o de Walter Jerônimo Radicchi. Segundo as informações preservadas por seu filho, Murilo Radicchi, Walter nasceu em Belo Horizonte em 30 de setembro de 1925 e serviu como mecânico da FAB. Fotografias familiares o mostram junto a aeronaves, e o testemunho da família o relaciona ao trabalho realizado em Santa Cruz durante o período dos “33 do Pacífico”. Walter morreu em 22 de janeiro de 1992.
Esse material possui valor de história oral e memória familiar. Entretanto, ainda precisa ser confrontado com a ficha de serviço, os registros de movimentação e os certificados de treinamento de Walter.
Não foram encontrados, com segurança documental equivalente, nomes de armeiros ou radiotelegrafistas pertencentes ao efetivo original do grupo. Acrescentar nomes por associação com outras unidades da FAB seria um erro. O pessoal da Campanha da Itália, da Aviação de Patrulha ou de unidades posteriores de Santa Cruz não pode ser automaticamente transferido para a história dos 33.
A guerra termina primeiro
Em agosto de 1945, o cenário mudou depressa.
Os Estados Unidos lançaram a bomba atômica sobre Hiroshima em 6 de agosto e sobre Nagasaki em 9 de agosto. A União Soviética declarou guerra ao Japão e iniciou sua ofensiva contra as forças japonesas na Manchúria.
O governo japonês comunicou a aceitação das condições aliadas em meados de agosto. A rendição formal foi assinada em 2 de setembro de 1945, a bordo do encouraçado USS Missouri, na Baía de Tóquio.
Os homens de Santa Cruz não partiram.
Não houve combate contra aviões japoneses. Não houve missão sobre ilhas do Pacífico. Não houve incorporação a grupo norte-americano. Não houve baixa causada pelo inimigo naquele teatro.
Por isso, não é correto chamá-los de veteranos de combate do Pacífico. Eram militares brasileiros em serviço durante a Segunda Guerra Mundial, pilotos treinados e voluntários para uma eventual missão que não se realizou.
Depois da guerra, os P-40 do 2º Grupo foram transferidos para o 3º Grupo de Caça, em Porto Alegre. O 2º Grupo recebeu aviões Republic P-47D provenientes da campanha europeia. Parte de seus oficiais foi incorporada ao trabalho de formação da Aviação de Caça brasileira, ao lado dos veteranos que haviam regressado da Itália.
Uma publicação da Revista Aeronáutica informa que os oficiais não enviados a Porto Alegre receberam treinamento no P-47 e depois tiveram suas movimentações efetivadas para o 1º Grupo de Aviação de Caça. Integrantes vindos do 2º Grupo também participaram do quadro de instrutores do Estágio de Seleção para Pilotos de Caça, iniciado em Santa Cruz no pós-guerra.
A guerra que esperavam não veio. O conhecimento adquirido, no entanto, permaneceu dentro da FAB.
A história ainda guardada nos arquivos
O National Archives dos Estados Unidos conserva, no Record Group 333, documentos da comissão militar conjunta Brasil-Estados Unidos. O acervo inclui correspondência da seção norte-americana entre 1943 e 1945, com concentração documental no último ano da guerra. A comissão possuía uma Divisão Aérea e tratava de planejamento, treinamento e equipamento das forças brasileiras.
Esses papéis podem conter nomes de instrutores, programas de curso, avaliações, mensagens e referências a possíveis empregos operacionais. Não se pode afirmar que tragam uma ordem para o Pacífico antes de examiná-los.
No Brasil, a resposta pode estar nos boletins da Base Aérea de Santa Cruz, nos livros de voo do 2º Grupo de Caça, nas fichas de instrução, nos relatórios de acidentes e nas folhas de alterações dos oficiais e especialistas.
Até que esses documentos sejam encontrados, a verdade conhecida cabe em poucas linhas.
O 2º Grupo de Caça existiu. Foi criado em agosto de 1944 e transferido para Santa Cruz em outubro. Seus homens treinaram em P-40 durante 1945. O Brasil declarou guerra ao Japão em 6 de junho. Os pilotos se apresentaram como voluntários para uma eventual missão. O Cruzeiro os transformou nos “33 do Pacífico” em 7 de julho. O Japão rendeu-se antes que partissem.
Não foram homens que voltaram da guerra.
Foram homens que ficaram esperando por ela.
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