Em 1944, enquanto exércitos gigantescos se enfrentavam na Europa e no Pacífico, uma guerra menos visível era travada sobre o Atlântico Sul. Não havia colunas de tanques, cidades em ruínas ou desembarques em praias fortificadas. Havia horas de mar, manchas no horizonte, cartas de navegação, motores trabalhando no limite e a possibilidade de um submarino alemão estar escondido sob a superfície. Nesse cenário apareceram dez aviadores de um país que, naquele momento, ainda não havia declarado formalmente guerra ao Eixo: o Paraguai.
Eles eram Félix Zárate Monges, Ismael Florentín, José A. Duarte, Pedro Cataldo Raina, Epifanio Ovando, Eladio Velázquez, Horacio Acosta, Abraham Giubi Redes, Eladio Zárate Barreto e Pedro Nolasco Oviedo. Félix Zárate Monges, Piloto Aviador Militar, era o chefe do grupo. Pedro Nolasco Oviedo pertencia à Aviación Naval Paraguaya e era identificado como Piloto Aviador Naval. Os demais pertenciam ao contingente de aviadores militares paraguaios enviados ao Brasil para aperfeiçoamento.
Os nomes preservados pela historiografia aeronáutica ajudam a devolver identidade a uma história que durante décadas permaneceu praticamente desconhecida fora dos círculos militares. Registros da antiga Escola de Aeronáutica brasileira e a Revista Aeronáutica confirmam a presença de paraguaios na turma que se formou no Campo dos Afonsos em 1943. Dois outros integrantes da missão, Eduardo Schussmuller e Julio De Filippis, morreram em acidentes durante o período de formação.
Do Paraguai ao Campo dos Afonsos
A participação de Félix Zárate Monges, Ismael Florentín, José A. Duarte, Pedro Cataldo Raina, Epifanio Ovando, Eladio Velázquez, Horacio Acosta, Abraham Giubi Redes, Eladio Zárate Barreto e Pedro Nolasco Oviedo não começou como uma missão de combate. O objetivo original era muito mais pragmático: profissionalizar a aviação militar paraguaia.
O país saíra da Guerra do Chaco com pilotos experientes em condições extremamente difíceis, mas possuía poucos recursos para acompanhar a rápida transformação tecnológica da aviação no início dos anos 1940. Para uma força aérea pequena, enviar oficiais ao exterior significava entrar em contato com técnicas, equipamentos e procedimentos que dificilmente poderiam ser reproduzidos naquele momento no Paraguai.
O Brasil oferecia uma oportunidade rara. Em 1941, o governo de Getúlio Vargas havia criado a Força Aérea Brasileira, reunindo as aviações do Exército e da Marinha. A Escola de Aeronáutica, instalada no tradicional Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, tornou-se um centro de formação em plena expansão. A guerra acelerou tudo: currículo, horas de voo, treinamento com novos aparelhos e integração com os Estados Unidos.
A missão paraguaia começou em 1942. Oficiais e cadetes passaram por instrução teórica e prática, voando aeronaves de treinamento e adaptando-se a procedimentos muito mais padronizados. Entre esses homens encontravam-se justamente os futuros participantes das missões sobre o Atlântico: Zárate Monges, Florentín, Duarte, Cataldo Raina, Ovando, Velázquez, Acosta, Giubi Redes, Zárate Barreto e Oviedo.
Fontes da história aeronáutica paraguaia registram contato com modelos como Fairchild PT-19, Vultee BT-15, North American AT-6, Lockheed Hudson, Vultee Vengeance e PBY Catalina em diferentes fases do aperfeiçoamento. Não significa que todos os dez tenham voado operacionalmente cada um desses modelos. A documentação disponível permite relacionar essas aeronaves ao programa de formação e às unidades brasileiras com as quais os paraguaios tiveram contato, mas nem sempre estabelece com precisão a ficha individual de cada aviador.
A guerra chegou à costa brasileira
Enquanto Félix Zárate Monges e seus companheiros paraguaios estudavam e acumulavam horas de voo, o Atlântico Sul deixava de ser uma retaguarda distante. Submarinos alemães e italianos atacavam a navegação mercante. Em agosto de 1942, a ofensiva do U-507 contra navios brasileiros produziu centenas de mortes e desencadeou enorme pressão popular. Em 22 de agosto, o Brasil reconheceu o estado de beligerância com Alemanha e Itália; em 31 de agosto, formalizou o estado de guerra.
A partir daí, proteger a navegação tornou-se prioridade. A cooperação com os Estados Unidos trouxe aviões, equipamentos, treinamento e doutrina antissubmarino. A FAB passou a empregar aeronaves como o A-28 Hudson, o PV-1 Ventura e o PBY Catalina em patrulhas marítimas e cobertura aérea de comboios.
Foi nesse ambiente que a formação dos paraguaios adquiriu um significado diferente. O que começara como intercâmbio militar passou a ocorrer dentro de uma força aérea efetivamente mobilizada para a guerra. Os exercícios deixavam de ser apenas acadêmicos. Procedimentos ensinados nas bases brasileiras correspondiam a necessidades concretas de vigilância, navegação, reconhecimento e proteção do litoral.
Era uma guerra de resistência. A Marinha do Brasil registrou centenas de comboios protegidos durante o conflito, envolvendo milhares de navios mercantes. A grande maioria chegou ao destino. Esse êxito não dependia apenas de destruir submarinos. Dependia, sobretudo, de obrigá-los a mergulhar, afastá-los das rotas, localizar ameaças e manter os mercantes sob vigilância.
Para Ismael Florentín, José A. Duarte, Pedro Cataldo Raina, Epifanio Ovando, Eladio Velázquez, Horacio Acosta, Abraham Giubi Redes, Eladio Zárate Barreto, Pedro Nolasco Oviedo e Félix Zárate Monges, aquele cenário significava participar de uma guerra muito diferente daquela que alguns militares paraguaios haviam conhecido no Chaco. Agora, o horizonte era quase sempre água.
Os paraguaios entram no sistema de patrulha
Ao terminar a etapa principal de formação, os aviadores paraguaios foram distribuídos entre unidades brasileiras. Os mais experientes seguiram para a área do Galeão; outros foram destinados a Santa Cruz ou permaneceram em aperfeiçoamento. Félix Zárate Monges, como chefe do grupo paraguaio, aparece com destaque nas memórias posteriores sobre aquela experiência.
Ao lado dele estavam Ismael Florentín, José A. Duarte, Pedro Cataldo Raina, Epifanio Ovando, Eladio Velázquez, Horacio Acosta, Abraham Giubi Redes e Eladio Zárate Barreto. O décimo integrante, Pedro Nolasco Oviedo, tinha uma característica particular: enquanto seus companheiros estavam ligados à aviação militar do Paraguai, Oviedo era oficial da Aviación Naval Paraguaya, Piloto Aviador Naval.
Memórias de veteranos e estudos posteriores registram que integrantes do grupo voaram em aeronaves usadas em reconhecimento e patrulhamento marítimo, incluindo hidroaviões Catalina e outros modelos utilizados pela FAB. Nessas operações, os paraguaios podiam atuar dentro de tripulações brasileiras em funções relacionadas à pilotagem, navegação, observação e outras tarefas de bordo.
A missão típica não tinha glamour. Podia significar muitas horas olhando para o oceano, acompanhando uma formação de navios e verificando qualquer sinal suspeito. O Catalina, com grande autonomia e excelente alcance, era especialmente adequado a esse trabalho. Em condições de guerra, uma tripulação precisava observar, navegar, comunicar e reagir rapidamente.
Imagine a rotina de homens como Pedro Cataldo Raina, Epifanio Ovando ou Horacio Acosta dentro desse sistema. O trabalho podia transcorrer durante horas sem qualquer contato com o inimigo. O mar ocupava praticamente todo o campo de visão. Uma alteração de cor na superfície, um objeto distante ou uma informação recebida por rádio podia transformar imediatamente uma patrulha aparentemente monótona em situação de alerta.
Não existe documentação conhecida que atribua a Félix Zárate Monges, Ismael Florentín, José A. Duarte, Pedro Cataldo Raina, Epifanio Ovando, Eladio Velázquez, Horacio Acosta, Abraham Giubi Redes, Eladio Zárate Barreto ou Pedro Nolasco Oviedo o afundamento individual de um submarino do Eixo. Isso é importante porque impede transformar uma participação real em uma aventura inventada.
O valor da missão esteve no patrulhamento, na cobertura de rotas e no reforço de uma estrutura defensiva que reduzia as oportunidades dos U-boats. Na guerra antissubmarino, encontrar e destruir o adversário era apenas uma parte do trabalho. Fazer um submarino abandonar uma posição de ataque ou permanecer submerso também significava proteger homens, navios e cargas.
O problema político
A situação de Zárate Monges e dos outros nove paraguaios era delicada. O Paraguai havia rompido relações diplomáticas com Alemanha, Itália e Japão em janeiro de 1942, mas só declararia guerra nos últimos meses do conflito, em fevereiro de 1945. A participação de militares paraguaios numa campanha de um país beligerante criava um problema político evidente.
Enquanto o Brasil estava formalmente em guerra contra o Eixo, Félix Zárate Monges, Ismael Florentín, José A. Duarte, Pedro Cataldo Raina, Epifanio Ovando, Eladio Velázquez, Horacio Acosta, Abraham Giubi Redes, Eladio Zárate Barreto e Pedro Nolasco Oviedo pertenciam às forças armadas de um Estado que oficialmente ainda não se encontrava na mesma condição.
As memórias de Félix Zárate Monges sustentam que houve autorização das autoridades paraguaias, mas com a condição de evitar o registro ostensivo da nacionalidade dos pilotos em determinadas missões. A tradição historiográfica paraguaia menciona o emprego de identidades brasileiras.
O ponto exige cuidado. A presença dos paraguaios no Brasil e sua formação são bem documentadas. A participação do grupo em missões relacionadas ao esforço brasileiro de patrulhamento também aparece na historiografia aeronáutica paraguaia. Entretanto, a reconstrução completa dos nomes fictícios eventualmente utilizados por Florentín, Duarte, Cataldo Raina, Ovando, Velázquez, Acosta, Giubi Redes, Zárate Barreto, Oviedo ou pelo próprio Zárate Monges em cada voo não chegou até nós.
Não é correto, portanto, inventar pseudônimos ou preencher essas lacunas com histórias plausíveis. Quando a documentação desaparece, o historiador precisa aceitar o silêncio do arquivo.
Essa lacuna talvez seja a parte mais reveladora da história. Guerra também é feita de papéis que desapareceram, arquivos destruídos e decisões que governos preferem manter discretas.
Dez homens dentro de uma guerra maior
Félix Zárate Monges. Ismael Florentín. José A. Duarte. Pedro Cataldo Raina. Epifanio Ovando. Eladio Velázquez. Horacio Acosta. Abraham Giubi Redes. Eladio Zárate Barreto. Pedro Nolasco Oviedo.
Esses são os dez nomes que transformam uma nota quase esquecida da história diplomática sul-americana em uma história de pessoas.
Os paraguaios não decidiram a Batalha do Atlântico. Não seriam eles, isoladamente, responsáveis por deter a campanha submarina alemã. Seu significado histórico está em outro lugar.
Eles mostram até que ponto a Segunda Guerra Mundial alcançou países que pareciam periféricos ao conflito. Mostram a cooperação militar crescente entre Brasil e Paraguai, a influência dos Estados Unidos sobre a defesa hemisférica e a transformação acelerada das forças aéreas sul-americanas. Mostram também que a neutralidade, na prática, podia ser muito mais ambígua do que uma declaração diplomática sugeria.
Para Félix Zárate Monges, que comandava o grupo, a experiência representou a responsabilidade de acompanhar seus compatriotas dentro de uma força aérea estrangeira mobilizada para o conflito. Para Pedro Nolasco Oviedo, significou também levar para aquela experiência a presença da Aviação Naval Paraguaia. Para Ismael Florentín, José A. Duarte, Pedro Cataldo Raina, Epifanio Ovando, Eladio Velázquez, Horacio Acosta, Abraham Giubi Redes e Eladio Zárate Barreto, significou participar de um sistema aéreo que estava enfrentando uma ameaça real no Atlântico.
Quando aqueles aviadores regressaram a Assunção, levaram consigo uma experiência que poucos compatriotas possuíam: treinamento em uma força aérea que operava em guerra real, com aeronaves modernas e doutrina de patrulha oceânica. Parte desse conhecimento seria engolida pela crise política que culminou na Revolução de 1947.
Com o passar das décadas, os homens daquela missão foram desaparecendo. Pedro Cataldo Raina viveu por mais de um século e tornou-se uma das últimas ligações pessoais com aquela geração. Félix Zárate Monges, por sua vez, deixou um testemunho particularmente importante para a reconstrução dos acontecimentos.
Décadas depois, o Brasil reconheceria formalmente alguns dos sobreviventes. A Ordem do Mérito Aeronáutico concedida a Félix Zárate Monges em 2004 é um registro oficial desse reconhecimento tardio.
A história dos dez não precisa de exageros. Ela já é extraordinária como aconteceu: Félix Zárate Monges, Ismael Florentín, José A. Duarte, Pedro Cataldo Raina, Epifanio Ovando, Eladio Velázquez, Horacio Acosta, Abraham Giubi Redes, Eladio Zárate Barreto e Pedro Nolasco Oviedo — dez paraguaios formados e aperfeiçoados no Brasil, voando sobre o Atlântico em uma guerra que oficialmente ainda não era a guerra de seu país.
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