Por Que a República Dominicana Acolheu Judeus em 1938?

É necessário observar o Caribe não apenas como um cenário de praias maravilhosas, mas como um teatro complexo onde as tragédias europeias encontraram, por vezes, um palco surreal. Em julho de 1938, no luxuoso Hotel Royal em Évian-les-Bains, na França, diplomatas de 32 nações reuniram-se para decidir o destino de centenas de milhares de judeus que tentavam escapar do Terceiro Reich. O resultado foi um silêncio burocrático ensurdecedor. Nenhuma nação, nem os Estados Unidos, nem a Grã-Bretanha, aceitou alterar suas leis de imigração.

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A Conferência de Évian: 1938.
Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial. (Art7 imagens)

No entanto, em meio àquela paralisia moral, surgiu uma voz dissonante vinda de uma ilha tropical. Virgilio Trujillo Molina, irmão do ditador dominicano e chefe da delegação, levantou-se para anunciar que a República Dominicana estava disposta a acolher até 100.000 refugiados judeus. O gesto, que à primeira vista parecia um ato de humanidade isolada, escondia nas suas entrelinhas as complexidades brutais da política racial caribenha e a astúcia de um dos tiranos mais longevos da América Latina. Para entender Sosúa, é preciso despir a narrativa de qualquer romantismo e encarar os arquivos: foi um acordo selado entre a necessidade desesperada de sobrevivência e a vaidade estratégica de um déspota.

A Geopolítica do “Branqueamento” e a Sombra do Massacre

Para compreender por que Rafael Leónidas Trujillo, o autodenominado “Benfeitor da Pátria”, abriu as portas de seu país quando o mundo as fechava, devemos olhar para o sangue derramado apenas nove meses antes da Conferência de Évian. Em outubro de 1937, o exército dominicano, sob ordens diretas de Trujillo, executou o que ficou conhecido como o Massacre de Perejil (ou Massacre da Salsa). Estima-se que entre 15.000 e 20.000 haitianos e dominicanos de ascendência haitiana foram assassinados na fronteira, muitos deles mortos a facão para economizar munição e simular um levante camponês.

A repercussão internacional foi desastrosa. Washington, embora acostumada a lidar com homens fortes na região, pressionava por uma estabilidade que não incluísse genocídios visíveis. Trujillo precisava urgentemente de uma campanha de relações públicas para limpar sua imagem sangrenta. A oferta em Évian foi, portanto, uma jogada de mestre calculada. Ao posicionar-se como o único líder mundial disposto a salvar as vítimas de Hitler, ele desviava o olhar dos corpos negros empilhados na fronteira oeste para a “generosidade” na costa norte.

Mas havia um componente ideológico mais profundo e insidioso, documentado nos arquivos da época e nas análises sociológicas do regime trujillista: o blanqueamiento. A elite dominicana, e Trujillo em particular, nutria uma obsessão em “melhorar a raça”. A importação de europeus era vista como uma ferramenta demográfica para diluir a herança africana da população. Os documentos da Dominican Republic Settlement Association (DORSA), a organização criada para gerir o assentamento e financiada pelo American Jewish Joint Distribution Committee (JDC), revelam essa tensão. James N. Rosenberg, advogado nova-iorquino e chefe da DORSA, negociou diretamente com Trujillo. O contrato, assinado em 30 de janeiro de 1940, estipulava que os refugiados gozariam de liberdade religiosa e direitos civis, mas a expectativa tácita do regime era a miscigenação com as mulheres locais.

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O Pacto do Diabo: 1940. Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial. (Art7 imagens)

O local escolhido para este experimento social foi Sosúa, na província de Puerto Plata. Tratava-se de uma antiga plantação de bananas abandonada pela United Fruit Company. O terreno era vasto, com cerca de 26.000 acres, mas a infraestrutura era inexistente. O solo, embora fértil, estava coberto por mata fechada e o maquinário agrícola disponível era arcaico ou nulo. Trujillo doou as terras pessoalmente, terras que ele havia adquirido de forma nebulosa, reforçando a narrativa de que ele, e somente ele, era o provedor da nação.

O Kibbutz Tropical: Sobrevivência e Leite na Selva

O primeiro grupo de refugiados chegou em maio de 1940. Eram, em sua maioria, judeus alemães e austríacos. Não eram agricultores; eram médicos, advogados, músicos e comerciantes urbanos, arrancados de Viena e Berlim e lançados em um ambiente tropical úmido, sem eletricidade ou água encanada. Os relatórios da DORSA daquele ano descrevem o choque cultural e físico. Homens que jamais haviam segurado uma enxada agora tinham que desbravar a mata sob um sol inclemente, enfrentando a malária e a disenteria.

Refugiados-Judeus-Sosua-Trujillo4 Por Que a República Dominicana Acolheu Judeus em 1938?
O Desembarque em Puerto Plata. Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial. (Art7 imagens)

A vida cotidiana em Sosúa tornou-se um estudo de adaptação forçada. O assentamento foi organizado em um modelo cooperativo, semelhante aos kibbutzim que estavam sendo formados na Palestina, mas com características caribenhas. A DORSA forneceu o capital inicial, gado e sementes. O objetivo era transformar intelectuais europeus em camponeses produtivos. A realidade, porém, impôs-se rapidamente. As colheitas iniciais de tomate e vegetais fracassaram devido à falta de experiência e às pragas locais. Foi então que a colônia mudou de direção para a pecuária leiteira e a produção de carne, uma decisão que mudaria a economia da região.

Refugiados-Judeus-Sosua-Trujillo5 Por Que a República Dominicana Acolheu Judeus em 1938?
O Nascimento da ‘Productos Sosúa’. Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial. (Art7 imagens)

Com o auxílio de técnicos agrícolas enviados pelos Estados Unidos e a tenacidade dos colonos, nasceu a “Productos Sosúa”. Eles introduziram técnicas de refrigeração e pastejo rotativo desconhecidas na ilha. A fábrica de laticínios tornou-se o coração econômico da comunidade, produzindo manteiga e queijo que logo abasteceriam os mercados de Santo Domingo. É fascinante notar, ao ler os diários dos colonos como o de Felix Bauer ou as cartas de Luis Hess, como a identidade do grupo se transformou. Eles mantinham a cultura europeia, realizavam concertos de música clássica em barracões de madeira e liam Goethe à luz de lampiões, enquanto aprendiam a lidar com o gado zebu e a negociar com os vizinhos dominicanos.

A interação com a população local seguiu, em parte, o roteiro desejado por Trujillo, mas de forma orgânica e humana, longe das teorias eugênicas frias do palácio presidencial. Como havia uma desproporção de gênero significativa — muito mais homens solteiros chegaram do que mulheres , casamentos entre colonos judeus e mulheres dominicanas tornaram-se comuns. No entanto, ao contrário do racismo institucionalizado do regime, essas uniões em Sosúa criaram uma comunidade multicultural única, onde o iídiche se misturava ao espanhol com sotaque do Cibao.

A promessa de 100.000 vistos nunca se concretizou. A burocracia do Departamento de Estado dos EUA, temendo que espiões nazistas se infiltrassem entre os refugiados, e a dificuldade logística de transporte através de um Atlântico infestado de submarinos alemães (U-Boats), limitaram severamente o fluxo. Apenas cerca de 757 a 800 judeus se estabeleceram permanentemente durante a guerra. Ainda assim, para esses indivíduos, Sosúa não foi uma nota de rodapé geopolítica; foi a diferença entre a câmara de gás e a vida.

Ao caminhar hoje pelas ruas de Sosúa, ainda se pode ver a Sinagoga e o Museu Judaico, testemunhas silenciosas de uma época em que a sobrevivência dependia da vontade caprichosa de um ditador. A história de Sosúa não é um conto de fadas sobre a bondade humana; é um relato documental sobre como a vida encontra brechas nas estruturas de poder mais cínicas. Trujillo usou os judeus como peões em seu tabuleiro político, buscando validação externa e engenharia social interna. Os refugiados, por sua vez, usaram a oportunidade para reconstruir a dignidade perdida, transformando uma plantação de bananas abandonada em um lar, provando que a resiliência humana é, talvez, o único fato histórico incontestável.


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