Histórias da FEB: Neve e rajadas a cinco metros na frente italiana

Na frente italiana, numa posição avançada ocupada por brasileiros da Força Expedicionária Brasileira, o soldado Vicente Gratagliano, da 1ª Companhia do 1º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria, viveu uma noite de combate a curtíssima distância, quando uma cancela entre linhas acionou um iluminativo, expôs a aproximação alemã e levou a uma troca de tiros a menos de cinco metros, por volta de meia-noite, às vésperas de operações ligadas ao ataque previsto para 5 de março contra Soprassasso.

A cancela no meio do caminho

O cenário descrito por Gratagliano não era grandioso, era estreito e cruel. Entre a posição brasileira e as casas onde havia alemães, existia um ponto físico simples, uma “cancela, uma porteira dessas de fazenda”. No desenho mental do soldado, aquilo funcionava como uma chave, bastava abrir para que o inimigo se lançasse sobre eles.

O tenente percebeu o risco antes do choque. A posição já vinha sendo batida por fogo pesado, e havia a suspeita de que aquele bombardeio fosse o prelúdio de um ataque rápido, o golpe-de-mão, feito para capturar, desorganizar e tomar terreno no susto.

A decisão foi clara e prática. “Vou fazer o seguinte: perto da cancela há um abrigo, porei um posto ali, ficam o Gratagliano e mais dois soldados com a metralhadora”, disse o tenente, estabelecendo revezamento de guarda e descanso, duas horas por vez, enquanto os outros dormiam no possível.

Não era o tipo de ordem que se discute. Naquele ponto, cada minuto tinha valor, e a linha entre vigília e surpresa era curta como a distância de uma porteira.

A armadilha preparada no lugar certo

A guerra, no nível do soldado, é também feita de artifícios simples, quase artesanais, montados com o que se tem na mão. Um companheiro de Gratagliano, Luiz Armando Ferreira, apresentou uma sugestão direta, agressiva e inteligente.

“Tenente, vou fazer uma armadilha na cancela. Colocarei um iluminativo e duas granadas de mão, uma de cada lado. Quando o alemão abrir a cancela, acende o very light e solta os pinos das granadas, que vão explodir.”

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O plano tinha lógica. O iluminativo denunciaria a aproximação, e as granadas fariam o resto, convertendo o gesto de abrir a porteira num erro irreversível.

Gratagliano registra a confiança na habilidade do colega. “No outro dia ele fez isso, era um rapaz inteligente e hábil.” A armadilha foi montada. O posto foi fixado. A noite veio.

E veio com neve.

A neve como inimigo silencioso

O relato não romantiza o inverno. Ele o descreve como problema técnico e sofrimento físico. “Olha, Gratagliano, está caindo neve”, avisou o colega Mário Alberto, no momento da troca.

Naquele frio, a preocupação imediata não era conforto, era funcionamento. “Eu pegava a capa e cobria a arma, porque se me cobrisse com ela e deixasse a arma descoberta, se a neve solidificasse, a arma não disparava mais.” O corpo podia aguentar, a arma emperrada não.

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O capacete também era parte do martírio. “O capacete ficava cheio de gelo que derretia e a água gelada escorria pelas costas.” Era o tipo de detalhe que revela o que nenhuma fotografia entrega, o desgaste que se acumula sem barulho.

Gratagliano descreve ainda o peso e a limitação do equipamento. “A gente usava dois capacetes, um de fibra, que era mais leve e o outro de aço, que ficava por cima do de fibra.” Ele compara com o inimigo, com frieza de observação: “o capacete do alemão era melhor que o nosso”, porque não caía sobre os olhos quando o homem se abaixava.

Aquele posto de sentinela, portanto, não era só vigilância, era resistência do corpo, disciplina do gesto e luta contra o sono.

O very light acendeu e o combate começou

O horário do soldado era entre 23h e 1h. Ele mesmo registra a sensação de cansaço e a expectativa do fim do turno. “Estava meio sonolento e não via a hora de terminar o meu horário para chamar o José Alves, que deveria me substituir.”

Foi quando a guerra se comprimiu em segundos.

“Quando faltavam vinte minutos para 1 hora, lembro bem, acendeu o iluminativo da cancela: o alemão abriu a porteira e com isso acionou o very light, mas as granadas não explodiram.” A armadilha falhou no momento em que mais precisava funcionar.

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Ele sugere uma razão concreta, sem inventar heroísmo: “Penso que a razão foi ele não ter aberto muito, para evitar barulho.” A porteira abriu o suficiente para acender a luz e para permitir o avanço, mas não o bastante para disparar o efeito total imaginado pelas mãos que montaram o dispositivo.

Com o clarão, vieram os homens. Não uma massa, não uma coluna, mas grupos contáveis, próximos o bastante para serem medidos no olho.

“Quando acendeu, vieram para o meu lado, mas não me viram, eu estava a mais ou menos uns três metros da cancela e notei que eram três”, relata. E havia mais: “mais três estavam indo pelo outro lado da elevação.”

A ordem era não atirar, mas não havia escolha

Em operações defensivas, silêncio pode ser diferença entre conter e ser engolido. A ordem recebida era objetiva. “A ordem que a gente tinha recebido era não atirar para não denunciar a nossa posição.”

Só que ordem também tem limite, e o limite estava na distância. “Mas não tinha jeito, eles estavam a menos de cinco metros do meu posto.”

A reação foi imediata, com arma automática em mãos. “Aí disparei o fuzil-metralhadora. Dei duas rajadas, cerca de quarenta tiros e ainda recarreguei”, descreve, esperando ainda os que vinham pelo outro lado.

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O combate, naquele trecho do relato, é curto e concreto. Não há floreio, não há bravata. Há tiro, há resposta, há o susto de perceber que o inimigo também está armado com coisa boa.

“Eles também atiraram contra nós”, escreve. E um detalhe material denuncia o volume e a proximidade: “a barraquinha do Armando Ferreira, nosso companheiro, ficou com a lona toda furada.”

Ele observa a arma alemã com respeito técnico, sem adjetivo gratuito: “eles usavam uma metralhadora de mão muito boa, muito rápida.”

Quando o iluminativo apagou, o mundo virou breu de novo. “Aí o iluminativo apagou e não vi mais nada”, diz. E o corpo cobrou a conta.

O acesso de nervos e a linha fina do humano

Há um ponto em que o relato deixa de ser apenas combate e vira o registro de uma fronteira humana. “Fiquei muito nervoso, me deu um acesso de nervos.”

O tenente e os demais vieram correndo. “O que foi? O que foi?”, perguntaram. Bosco também apareceu, “sentinela móvel”, em vigilância pela retaguarda.

Gratagliano não descreve heroísmo, descreve descontrole. “Os homens vieram aqui! Eu não sei o que aconteceu! Os homens vieram aqui!” É uma fala que carrega o tremor de quem sobreviveu ao que não queria viver.

Ele foi levado a um abrigo. “Aí eles me levaram para um abrigo, onde estava um padioleiro e ele me deu uns comprimidos para tomar.” O relato registra ainda o que disseram sobre seu estado: “porque eu espumava pela boca”.

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E há uma frase decisiva, seca, sem enfeite: “eu não vi nada, fiquei tão nervoso que não vi mais nada.” Não é confissão dramática, é documento do limite psicológico em combate próximo, noturno, sob neve.

Substituição e o relógio voltando a andar

Depois do episódio, houve substituição do setor. “Depois fomos substituídos pela tropa de negros americanos.” E o descanso, quando veio, não foi descanso.

A unidade já estava sendo empurrada para a próxima tarefa. “A substituição não se deu para descansarmos: estavam preparando o ataque sobre Soprassasso e a nossa Companhia também iria participar enquadrada pelo Batalhão.”

O tenente ainda havia dito, antes, “É, agora a gente vai descansar uns dias.” Mas a realidade do front não cede a promessas. Ao voltar para a Companhia, vieram as informações: havia “preparativos do ataque ao Soprassasso, a ser desencadeado no dia 5 de março.”

O soldado fecha o quadro com ações repetidas e vitais, as rotinas que mantêm o homem e a arma vivos: “Descansamos um dia, em seguida, limpamos e lubrificamos as armas.”

Naquelas linhas, a guerra reaparece como ela é, feita de explosões curtas e longos intervalos de preparo. E no meio, uma cancela, um very light, um clarão, seis sombras separadas em dois grupos, a menos de cinco metros, e duas rajadas que mudaram a noite.


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