Houve um momento, em maio de 1940, em que a Segunda Guerra Mundial poderia ter seguido um caminho muito diferente. A França estava à beira do colapso. O Exército britânico recuava em direção a Dunquerque. A Alemanha nazista parecia invencível. Londres ainda não sabia se conseguiria resgatar suas tropas, nem se teria força para resistir sozinha. Foi nesse ambiente de pressão, medo e incerteza que uma decisão tomada em poucas horas mudou o rumo político da guerra: o governo britânico decidiu não negociar com Hitler por intermédio de Mussolini.
Essa escolha parece óbvia quando vista de longe. Hoje, sabendo que a Alemanha seria derrotada em 1945, parece natural imaginar que a Grã-Bretanha simplesmente “resistiu porque tinha de resistir”. Mas em maio de 1940 essa certeza não existia. O cenário era sombrio. As forças alemãs haviam avançado com velocidade devastadora pela Europa Ocidental. Bélgica, Holanda e Luxemburgo estavam sendo esmagados. A França, considerada uma das maiores potências militares do continente, desmoronava. O corpo expedicionário britânico corria o risco real de ser cercado e destruído. O Imperial War Museums observa que, no fim de maio de 1940, quando Churchill acabara de se tornar primeiro-ministro, as forças alemãs pareciam prestes a impor uma derrota desastrosa aos Aliados.
O drama não estava apenas nas praias de Dunquerque. Estava também dentro do gabinete de guerra britânico. Entre 26 e 28 de maio de 1940, ministros discutiram, em reuniões sigilosas, se o Reino Unido deveria explorar uma possível negociação de paz com a Alemanha nazista. Lord Halifax, secretário do Exterior, defendia que se investigasse a possibilidade de mediação italiana. A ideia era usar Benito Mussolini, ainda formalmente fora da guerra naquele momento, como intermediário para descobrir quais termos Hitler poderia oferecer. O Museum of the Prime Minister explica que a crise do gabinete envolveu justamente essa pergunta: a Grã-Bretanha deveria continuar lutando ou procurar algum tipo de acordo?
A proposta não era absurda para muitos homens daquele tempo. Era, antes, o produto de um cálculo frio e desesperado. Se a França caísse, a Grã-Bretanha ficaria sozinha contra o poder militar alemão. Os Estados Unidos ainda não haviam entrado na guerra. A União Soviética mantinha, desde 1939, um pacto de não agressão com Hitler. O Império Britânico era vasto, mas vulnerável. As cidades britânicas poderiam ser bombardeadas. A frota, elemento central da sobrevivência nacional, poderia se tornar alvo de chantagem diplomática ou militar. Nesse contexto, Halifax acreditava que seria prudente ao menos ouvir possíveis condições.
Churchill via a questão de outro modo. Para ele, aceitar uma mediação de Mussolini significava abrir uma porta perigosa. Não se tratava apenas de conversar. Tratava-se de reconhecer que a Grã-Bretanha estava disposta a negociar sob pressão, no momento em que seus soldados recuavam e a França entrava em colapso. A partir daí, os termos dificilmente seriam honrosos. Pior: uma negociação poderia destruir a moral nacional antes mesmo de qualquer invasão alemã. Segundo os relatos da crise do gabinete, Churchill argumentou que a Grã-Bretanha não obteria melhores condições negociando naquele momento do que obteria depois de lutar até o limite.
Esse foi o ponto essencial da decisão. Churchill não sabia se venceria. Ele não tinha uma garantia secreta de que os Estados Unidos entrariam na guerra, nem de que a União Soviética acabaria enfrentando Hitler, nem de que a RAF resistiria na Batalha da Grã-Bretanha. O que ele sabia era que uma paz negociada em posição de fraqueza poderia transformar o Reino Unido numa potência neutralizada, politicamente humilhada e estrategicamente vigiada. A independência britânica talvez fosse preservada no papel, mas sua liberdade real estaria comprometida.
A reunião de 28 de maio foi decisiva. O gabinete discutiu uma mensagem francesa que voltava a propor uma aproximação com a Itália. Halifax sustentou que era preciso considerar a possibilidade de mediação. Churchill rejeitou a linha com mais firmeza. Neville Chamberlain, que havia sido primeiro-ministro até poucos dias antes e era associado à política de apaziguamento, acabou se inclinando contra concessões à Itália enquanto a guerra continuasse. Clement Attlee e Arthur Greenwood, representantes trabalhistas no governo de coalizão, também não apoiaram a linha de Halifax. Aos poucos, Churchill deixou de estar isolado.
O aspecto mais dramático é que a decisão não foi tomada em clima de confiança. Ela foi tomada quase no escuro. Em Dunquerque, a evacuação ainda era incerta. A operação Dynamo começara, mas ninguém sabia se dezenas, centenas de milhares ou apenas poucos soldados seriam retirados. A situação militar podia piorar em questão de horas. A própria sequência de reuniões mostra um governo tentando pensar enquanto o chão desabava sob seus pés. Não havia heroísmo fácil naquela sala. Havia medo, pressão, cálculos imperfeitos e a consciência de que uma decisão errada poderia condenar o país.
Mesmo assim, Churchill levou o tema ao gabinete mais amplo. Ali, diante de ministros que não participavam do pequeno gabinete de guerra, defendeu que a Grã-Bretanha continuaria lutando. O apoio recebido fortaleceu sua posição. A partir dali, a via da mediação italiana perdeu força. O governo britânico decidiu seguir em frente, mesmo que a França caísse e mesmo que o país tivesse de enfrentar a Alemanha sozinho.
Essa decisão mudou o rumo da guerra porque impediu que Hitler encerrasse a frente ocidental por meio de uma solução política favorável à Alemanha. Se a Grã-Bretanha tivesse aceitado negociar em 1940, o mapa estratégico europeu poderia ter sido outro. A Alemanha talvez consolidasse seu domínio sobre o continente sem a ameaça permanente de uma base britânica para bombardeios, bloqueio naval, inteligência, resistência diplomática e futura invasão. Sem a Grã-Bretanha em guerra, os Estados Unidos teriam muito mais dificuldade para projetar força na Europa. Sem ilhas britânicas como plataforma, não haveria Dia D nos termos em que ele ocorreu em 1944.
É por isso que maio de 1940 foi uma virada menos visível que Stalingrado ou Normandia, mas igualmente decisiva. Não houve ali uma batalha cinematográfica. Não houve tanques avançando em campo aberto. Houve uma decisão política. E, na Segunda Guerra Mundial, decisões políticas podiam ter o peso de exércitos inteiros.
A coragem de Churchill, nesse episódio, não deve ser confundida com certeza. Ela foi exatamente o contrário: foi agir sem certeza. Foi recusar uma saída aparentemente racional porque essa saída poderia destruir o único bem que ainda dava sentido à resistência britânica — a liberdade de continuar lutando. Essa postura não elimina os erros de Churchill em outros momentos de sua carreira, nem transforma a política britânica numa história sem contradições. Mas em maio de 1940, diante da Alemanha nazista, sua posição foi historicamente decisiva.
O detalhe incômodo é que a Segunda Guerra poderia não ter sido decidida apenas por batalhas. Em certo momento, poderia ter sido decidida por uma conversa diplomática. Por uma proposta encaminhada a Mussolini. Por uma hesitação dentro de um gabinete. Por uma assinatura que nunca veio. A decisão desesperada foi não buscar abrigo em uma paz incerta. Foi escolher o risco da resistência.
Poucos dias depois, Churchill faria seu famoso discurso sobre lutar nas praias, nos campos, nas ruas e nas colinas. Mas a essência daquela fala já havia sido decidida antes, longe dos microfones, nas reuniões fechadas de maio. A frase entrou para a história. A decisão, tomada sob pressão em poucas horas, ajudou a mantê-la possível.
Fontes de apoio: Imperial War Museums; Museum of the Prime Minister; The National Archives, War Cabinet Papers; John Lukacs, Five Days in London: May 1940; Max Hastings, Finest Years: Churchill as Warlord; Roy Jenkins, Churchill; Nicholas Shakespeare, Six Minutes in May.
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