Berlim, 21 de março de 1942. Enquanto a Segunda Guerra Mundial consumia soldados, carvão, aço e combustível, Adolf Hitler assinava uma decisão que não fazia barulho de bomba, mas mudaria a vida de milhões de pessoas. Fritz Sauckel era nomeado Plenipotenciário Geral para o Emprego de Mão de Obra. O título burocrático escondia uma missão brutal: encontrar braços em toda a Europa ocupada e colocá-los a serviço da economia de guerra alemã.
Era o início de uma operação continental.
A Alemanha enfrentava um problema crescente. Milhões de homens haviam sido enviados para a Wehrmacht, enquanto as fábricas precisavam produzir aviões, tanques, munições e motores. Em fevereiro de 1942, Albert Speer assumira o Ministério dos Armamentos. Ele exigia trabalhadores. Sauckel deveria fornecê-los.
Fritz Sauckel não era um técnico neutro. Nascido em 1894, ingressara no Partido Nazista em 1923 e tornara-se Gauleiter da Turíngia em 1927. Era um seguidor antigo de Hitler e administrador conhecido por cumprir ordens sem hesitação. Sua ascensão nacional ocorreu quando a guerra rápida fracassou diante da União Soviética. A campanha que deveria terminar em poucos meses transformou-se num conflito prolongado. O Reich precisava substituir os alemães mobilizados e aumentar a produção.
A nomeação concedeu-lhe poderes extraordinários. Seus representantes podiam atuar junto às administrações civis e militares nos territórios ocupados. França, Bélgica, Países Baixos, Polônia, Ucrânia, Belarus e outras regiões passaram a ser tratadas como fontes de mão de obra. Cada país recebia metas. Cada autoridade local era pressionada.
No começo, a propaganda falava em trabalho voluntário. Cartazes prometiam salários, alimentação e uma vida melhor na Alemanha. Quando o número de voluntários caiu, vieram as ameaças, as prisões e as deportações. Famílias foram separadas. Jovens foram retirados de suas casas. Em áreas do Leste Europeu, operações de captura procuravam pessoas nas ruas, nos mercados e nas aldeias. Documentos apresentados em Nuremberg registraram até invasões de igrejas e teatros na Polônia para reunir trabalhadores.
A engrenagem tinha horários, formulários, vagões e quotas.
Entre 1942 e 1944, quase três milhões de cidadãos soviéticos foram deportados para trabalhar na Alemanha, na Áustria e no Protetorado da Boêmia e Morávia. Muitos eram adolescentes. Mulheres formavam parte expressiva dos chamados Ostarbeiter, os trabalhadores do Leste. No Reich, eram obrigados a usar insígnias, submetidos a regras discriminatórias e alojados em barracões. A alimentação era insuficiente. A punição por atrasos, faltas ou tentativas de fuga podia resultar em prisão, espancamento ou envio a campos policiais.
Em agosto de 1944, mais de 7,5 milhões de trabalhadores não alemães estavam registrados no Reich. A maioria trabalhava sob coerção. Eles apareciam em fábricas de armamentos, minas, ferrovias, propriedades agrícolas, oficinas municipais e residências particulares. A presença era pública. Alemães comuns viam essas pessoas nas estações, nas ruas, nos campos e dentro das empresas.
Sauckel não comandava pessoalmente cada prisão. Mas organizava o sistema. Definia necessidades, distribuía trabalhadores e cobrava resultados. A documentação do Tribunal Militar Internacional mostrou que ele conhecia os métodos violentos usados para preencher as metas e os defendia como necessários. Em sua administração, seres humanos eram calculados como toneladas de minério ou vagões de carvão.
O sistema revelava uma contradição do nazismo. O regime proclamava a superioridade alemã, mas dependia profundamente das pessoas que considerava inferiores. Enquanto a propaganda celebrava o trabalhador germânico, milhões de estrangeiros mantinham a produção, colhiam alimentos e substituíam os homens enviados ao front. Sem essa força arrancada dos territórios ocupados, a máquina de guerra teria enfrentado um colapso mais rápido.
O anexo sobre os homens que sustentaram o regime chama atenção para um ponto pouco explorado. A guerra não foi movida apenas por generais e divisões blindadas. Houve funcionários que transformaram violência em procedimento administrativo. Sauckel foi um deles. Seu poder estava na capacidade de emitir ordens que atravessavam fronteiras e terminavam com alguém empurrado para dentro de um trem.
Em maio de 1945, com a Alemanha derrotada, Sauckel foi preso por tropas americanas. Em Nuremberg, tentou apresentar-se como responsável por uma política de trabalho, não por um sistema de escravização. Os documentos contavam outra história. O tribunal concluiu que ele tivera responsabilidade geral pelo programa e que mais de cinco milhões de pessoas haviam sido deportadas para trabalho escravo sob condições de crueldade e sofrimento.
Fritz Sauckel foi considerado culpado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Em 16 de outubro de 1946, foi executado por enforcamento em Nuremberg.
A revelação que ainda incomoda está na simplicidade do mecanismo. Não foi preciso esconder tudo atrás dos muros de um campo. O trabalho forçado existiu no centro das cidades, nas fazendas, nas fábricas e diante dos olhos da sociedade alemã. Por trás de cada número havia uma casa abandonada, uma mãe sem notícias, um adolescente levado para longe e uma vida reduzida a uma quota.
A ordem assinada em Berlim, em 21 de março de 1942, não procurava apenas trabalhadores. Procurava pessoas que pudessem ser consumidas pela guerra.
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