O Teco-Teco que Abriu os Olhos da Artilharia: O Primeiro Voo de Guerra da 1ª ELO

Em 12 de novembro de 1944, um pequeno Piper L-4 deixou o campo de San Giorgio, na região de Pistóia, para cumprir uma missão que parecia modesta diante da violência da Segunda Guerra Mundial. Não levava bombas, metralhadoras ou blindagem. A bordo estavam o 1º tenente aviador João Torres Leite Soares e o 1º tenente do Exército Oswaldo Méscolin. Aquele voo de reconhecimento marcou a primeira missão de guerra oficial da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação, a 1ª ELO.

A novidade estava justamente na fragilidade da aeronave. O Piper L-4 era uma adaptação militar de um avião civil. Tinha estrutura leve, revestimento de lona e motor de apenas 65 cavalos. Era conhecido pelos norte-americanos como Grasshopper, gafanhoto, por pousar e decolar em pistas curtas. Para os brasileiros, tornou-se simplesmente o teco-teco.

Mas o tamanho enganava. O piloto conduzia o avião enquanto o observador identificava estradas, posições, deslocamentos, depósitos e possíveis alvos. Pelo rádio, as coordenadas eram transmitidas às centrais de tiro da Artilharia Divisionária da Força Expedicionária Brasileira. Minutos depois, os obuses de 105 e 155 milímetros poderiam alcançar um ponto que, do solo, permanecia escondido por montanhas, árvores ou construções.

A 1ª ELO havia sido criada em 20 de julho de 1944. Seu pessoal embarcou com o 3º Escalão da FEB em 22 de setembro e chegou a Nápoles em 6 de outubro. O tempo de preparação fora curto. No Brasil, os homens treinaram com aviões PT-19, de asa baixa, inadequados para observar o terreno. Somente na Itália receberam os Piper e começaram a adaptação, em 5 de novembro, no campo de San Rossore, um antigo hipódromo transformado em pista.

Sete dias depois, Soares e Méscolin entraram oficialmente em combate.

A dupla representava uma cooperação incomum. O piloto pertencia à FAB. O observador era oficial de artilharia do Exército. Dentro da cabine estreita, não havia espaço para disputa entre forças ou patentes. O piloto comandava a aeronave. O observador dominava a leitura do terreno, das cartas e do tiro. A sobrevivência dependia da comunicação entre os dois e da rapidez da equipe em solo.

Existe, porém, um detalhe pouco conhecido. Antes dessa missão registrada, o tenente Elber de Mello Henriques realizou um voo de observação em uma unidade norte-americana. Nas proximidades de Castelnuovo di Garfagnana, ele identificou viaturas descarregando homens e material. Ao regressar, alertou sobre a possibilidade de um ataque. Segundo seu depoimento, o aviso não recebeu a atenção esperada. Na noite de 31 de outubro, tropas alemãs contra-atacaram e obrigaram os brasileiros a recuar. Esse episódio foi um voo precursor, mas não substitui a data de 12 de novembro como início oficial das operações de guerra da esquadrilha brasileira.

A missão de San Giorgio abriu uma rotina perigosa. Cada aparelho voava sem proteção para a tripulação, exposto ao fogo antiaéreo, ao relevo dos Apeninos, ao inverno e à formação de gelo no carburador. Uma missão durava, em média, quase duas horas. O pequeno avião precisava permanecer sobre as linhas inimigas tempo suficiente para enxergar o que os alemães tentavam ocultar.

A partir daquele primeiro registro, a 1ª ELO acompanhou o avanço da FEB, operando em áreas como Monte Castelo, Montese, La Serra e Collecchio. Dados do Museu Aeroespacial apontam 1.654 horas de voo, 682 missões de guerra e mais de 400 regulações de tiro durante a campanha italiana.

Naquele 12 de novembro, não houve uma grande explosão para anunciar a entrada em combate. Houve um avião lento, dois militares e uma missão de reconhecimento. Era assim que a 1ª ELO começava a guerra, observando em silêncio para que a artilharia brasileira pudesse atingir com precisão.


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