O rádio entre os estilhaços: Hélio Portocarrero e a manhã em que Montese ainda não estava segura

Na manhã de 15 de abril de 1945, Montese já aparecia nos comunicados como uma vitória brasileira. A vila italiana havia sido tomada na véspera pelo 11º Regimento de Infantaria, o Regimento Tiradentes. Mas uma cidade conquistada não era, necessariamente, uma cidade segura. Nas elevações ao redor, os alemães ainda observavam os movimentos aliados e conservavam morteiros, metralhadoras e peças de artilharia capazes de transformar poucos metros de terreno em uma travessia mortal.

Foi nesse cenário que o capitão Hélio Portocarrero de Castro recebeu nova missão. Comandante da 7ª Companhia do 6º Regimento de Infantaria, ele deveria conduzir seus homens de La Torre até Serretto, base de partida para o ataque à cota 927, ao norte de Montese. O objetivo era prosseguir a ofensiva e impedir que os alemães recuperassem posições cuja conquista custara muitas vidas ao 11º Regimento.

Naquele segundo dia de luta, a vitória anunciada ainda precisava ser defendida no terreno. A conquista da vila, obtida em 14 de abril, não eliminara as posições alemãs nas alturas próximas, de onde continuavam chegando observação precisa e fogos concentrados.

Portocarrero tinha experiência. Formado pela Escola Militar do Realengo, fora comissionado capitão em fevereiro de 1944 e enviado à Força Expedicionária Brasileira. Na Itália, comandara a companhia desde os primeiros combates do 6º Regimento. Agora, porém, a guerra lhe apresentava uma daquelas jornadas em que o mapa parece simples e o terreno responde com fogo.

A distância a percorrer era de pouco mais de 450 metros. Em uma rua tranquila, seria uma caminhada breve. Diante de Montese, sob observação alemã, tornou-se uma espécie de corredor estreito entre explosões. A companhia avançava quando o bombardeio de artilharia e morteiros aumentou. Pelo pequeno rádio portátil, o hand talkie usado na linha de frente, Portocarrero recebia notícias das dificuldades enfrentadas pelos pelotões.

O aparelho era modesto, mas naquele instante carregava a companhia inteira. Por ele chegavam informações fragmentadas, pedidos, posições e atrasos. Portocarrero percebeu que seus homens talvez não alcançassem a base de partida no horário previsto. Deixou então o pelotão reserva, aproximou-se do pelotão que servia de referência para o deslocamento e passou a conduzi-lo pessoalmente através do bombardeio.

A documentação militar registra que ele animou os soldados com palavras e gestos. Não há necessidade de acrescentar frases que ninguém anotou. Basta imaginar o que significava reconhecer o comandante caminhando onde as granadas caíam. Na infantaria, a ordem transmitida de longe tem um peso. A presença física de quem dá a ordem possui outro.

Quando a companhia alcançou a base de partida, o fogo inimigo não diminuiu. Armas automáticas se juntavam às explosões. Portocarrero continuava coordenando os homens pelo rádio quando uma granada o atingiu. Estilhaços feriram seu rosto, os pés, as pernas, a região dos rins e os pulmões. O soldado que estava ao seu lado direito morreu imediatamente.

O capitão tentou sentar-se. Já não conseguia permanecer em pé. Sangrava dentro das botas e sentia dores intensas nos dedos dos pés. Um estilhaço chegou perto do coração, encostou na aorta e permaneceu ali. Mesmo ferido, procurou esconder dos subordinados a gravidade de seu estado. Segurou o rádio e continuou transmitindo medidas para completar a ocupação da posição.

Aquele é o detalhe menos conhecido e mais revelador dessa história. Portocarrero não continuou comandando por uma frase feita, nem porque fosse imune à dor. Seu próprio depoimento descreve o impacto inicial como um forte soco, seguido pela ardência espalhada pelo corpo. Continuou porque a companhia ainda estava exposta, a missão não terminara e cinquenta e duas baixas haviam sido sofridas durante o deslocamento.

Somente quando lhe faltaram forças chamou o tenente mais antigo. Transmitiu as instruções necessárias e aceitou ser evacuado. Padioleiros levaram-no ao posto de triagem, depois ao 7º Hospital de Evacuação, em Pistoia. Na primeira operação, foram retirados 68 estilhaços. Seguiram-se Livorno, Nápoles, Casablanca, Dacar, Natal e finalmente o Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro.

A Batalha de Montese prosseguiu até 17 de abril. Fontes oficiais brasileiras a classificam entre os combates mais sangrentos enfrentados pela FEB, com mais de quatrocentas baixas. A tomada da região ajudou a romper a Linha Gengis Khan e abriu caminho para o avanço aliado em direção ao vale do rio Pó.

Em 1946, Hélio Portocarrero recebeu a Cruz de Combate de 1ª Classe. O diploma registrou o deslocamento, o bombardeio, o ferimento e o comando mantido pelo rádio. Anos depois, já general da reserva, ele ainda guardava a bengala que começara a usar nos hospitais e dizia sentir as dores dos ferimentos.

Há histórias de guerra que chegam até nós como grandes movimentos de exércitos. Esta cabe num aparelho portátil, seguro por um homem que sangrava e ainda precisava saber onde estavam seus soldados. Em Montese, naquela manhã, a voz de Hélio Portocarrero atravessou o ruído das explosões antes que o corpo, enfim, cedesse.


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